Ezequiel 4 – Transformação interior (Ez., 36, 16–28)

ABRA A SUA BÍBLIA – 28

Ezequiel 4 – Transformação interior (Ez., 36, 16–28)

A PROFANAÇÃO DO NOME DE DEUS

A profecia de Ezequiel 36 deve ser compreendida tendo como pano de fundo o exílio de Israel. O povo vivia em angústia e confusão, colocando perguntas dolorosa a si mesmo: Como é que o Senhor permitiu que os nossos inimigos nos expulsassem da terra que Ele nos havia dado? Será que Deus ainda tem o poder de nos trazer de volta, ou ficaremos perdidos como as tribos do Norte, exiladas pelos assírios séculos antes?

Nesta situação, o Senhor fala através do Seu profeta. O exílio não era um sinal da fraqueza de Deus, mas da Sua justiça. Os pecados de Israel tinham contaminado a terra (cf. 36, 17), tal como os cananeus a tinham outrora profanado através da idolatria, da imoralidade e até do sacrifício de crianças (cf. Dt., 12, 29–31). Devido à sua infidelidade, Deus dispersou-os entre as nações, executando o juízo de acordo com as suas obras (cf. Ez., 36, 19).

No entanto, mesmo no exílio, a desgraça de Israel tornou-se uma vergonha para a santidade de Deus. A sua vocação era ser uma luz para as nações, mas, em vez disso, obscureceram a Sua glória (cf. Ez., 36, 20).

O profeta deixa claro que a fidelidade de Deus não é revogada; a acção do Senhor é motivada pela Sua própria santidade, não pelo mérito de Israel (cf. Ez., 36, 22). Isto realça a responsabilidade de pertencer a Deus: o Seu povo é chamado a reflectir sobre a Sua santidade perante o mundo.

A Igreja herda esta mesma missão. Como ensinou o Papa Paulo VI, na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, “a Igreja existe para evangelizar” (n.º 14). A sua essência é proclamar Cristo, dar testemunho da compaixão e do amor de Deus. Quando os cristãos falham na fidelidade, a credibilidade do Evangelho é diminuída. Mas quando vivem o novo mandamento do amor (cf. Jo., 15, 12), o seu testemunho fortalece a fé e leva outros a acreditar; Jesus orou: “Para que todos sejam um (…) para que o mundo acredite que Tu me enviaste” (cf. Jo., 17, 21).

UM CORAÇÃO NOVO E UM ESPÍRITO NOVO

O Senhor promete não só restaurar o Seu povo em sua terra, mas também renová-lo interiormente. Esta renovação desenrola-se em três fases:

. Purificação: «Aspergirei sobre vós água pura» (Ez., 36, 25). O Senhor fala de uma purificação ritual, uma purificação dos pecados passados do povo, que devem ser lavados. Tal prenuncia o Sacramento do Baptismo, no qual o pecado é removido e o crente é purificado.

. Transformação: «Dar-vos-ei um coração novo e um espírito novo» (Ez., 36, 26). Na linguagem bíblica, o coração é a sede da decisão, da liberdade e da receptividade. Um “coração de pedra” representa teimosia, inclinação para o mal e resistência à palavra de Deus. Um “coração de carne” é sensível, receptivo e aberto à Sua presença. Esta promessa cumpre a profecia de Jeremias sobre a Nova Aliança: «Porei a minha lei dentro deles e a escreverei nos seus corações» (Jr., 31, 33). A Nova Lei é escrita no coração pelo Espírito, permitindo aos crentes amar como Deus ama.

. Habitação do Espírito: «Porei o meu Espírito dentro de vós» (Ez., 36, 27). A renovação atinge a sua plenitude quando o próprio Deus habita no Seu povo. O Espírito capacita a obediência e o amor, permitindo aos fiéis viver de acordo com os mandamentos de Deus. Ezequiel enfatiza o Espírito como fonte de força. São Paulo faz eco desta promessa: «O amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rm., 5, 5).

O “coração de carne” é, portanto, um símbolo da graça – a iniciativa de Deus que permite à liberdade humana responder ao Seu chamamento. O “espírito novo” é a Sua acção transformadora, preparando o Seu povo para a fidelidade à aliança e a restauração definitiva. A graça não destrói a liberdade, mas eleva-a, permitindo ao crente cooperar com a vontade de Deus.

O CUMPRIMENTO DE TODAS AS PROFECIAS

Podemos perguntar: quando e como se cumpriu esta profecia? Não apenas no regresso histórico de Israel à terra, que é apenas uma preparação para a vinda do Messias. Somente Jesus Cristo, o Filho de Deus feito carne, é o cumprimento de todas as profecias.

Cristo reuniu as ovelhas perdidas de Israel – os Seus apóstolos e discípulos – e, a partir delas, abriu a fonte de água viva por meio do Baptismo (cf. Jo., 7, 37–39). Recorrendo a este Sacramento, os crentes são purificados, renascem e são incorporados no novo povo de Deus. O Baptismo é a verdadeira aspersão de água pura, o início do coração novo e do espírito novo prometidos por Ezequiel.

Fortalecida pelo Espírito Santo, a Igreja torna-se o «novo Israel de Deus» (Gal., 6, 16). Fundada em Pedro e nos Apóstolos, ela estende-se a todas as nações e é chamada a ser uma família universal. A terra prometida já não é um território geográfico, como alguns judeus fundamentalistas ainda possam imaginar, mas o Reino de Deus. Nesta realidade espiritual, pessoas de todas as raças e línguas estão unidas em Cristo.

«Mas vós sois uma raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, o povo de Deus, para que proclameis as grandes obras daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz» (1 Pe., 2, 9).

Com corações novos e espíritos novos, a Igreja é chamada a ser um povo sacerdotal, consagrado para levar a vida e o amor de Deus a todo o mundo.

A profecia de Ezequiel encontra, assim, o seu cumprimento no Mistério Pascal de Cristo e na vida da Igreja, onde o Espírito continua a renovar os corações e a capacitar os crentes para viverem como testemunhas da santidade de Deus.

O ACONTECIMENTO CENTRAL DA HISTÓRIA DA SALVAÇÃO

Todo o Antigo Testamento aponta para o acontecimento central da História da Salvação: a Morte e a Ressurreição do Filho de Deus, que se encarnou e nasceu da Virgem Maria.

Muitas vezes caímos no erro de dividir o Antigo e o Novo Testamento como se pertencessem a religiões ou visões de mundo diferentes. Está errado! O Antigo Testamento é preparação e figura; o Novo Testamento é o cumprimento. Ambos, juntos, formam uma história contínua do amor da aliança de Deus, que culmina no Mistério Pascal.

O poder purificador do Baptismo brota da Santa Cruz de Cristo. É essa graça transformadora que nos torna “filhos de Deus” (cf. Jo., 1, 12.16). Jesus, através das Suas palavras e acções, revela o verdadeiro significado do amor: «Porque Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho único» (Jo., 3, 16). É o mesmo “mundo” que O levou à cruz, mas naquela madeira Ele redimiu-nos com um acto livre de entrega de si mesmo: «Ninguém ma tira, mas eu dou-a por minha própria vontade. Tenho poder para a dar e tenho poder para a reter» (Jo., 10, 15.17–18).

O poder do amor reside no facto de que quem ama conseguir oferecer-se inteiramente à pessoa amada. A graça é concedida gratuitamente; é outro nome para o amor de Deus e está carregada de um poder vivificante e recriador.

Como é que este poder transformador nos alcança aqui e agora? Chega-nos através da tradição viva da Igreja, por meio dos Sacramentos e da Palavra escrita nas Sagradas Escrituras, interpretada fielmente pela Igreja e encarnada na vida dos santos. Vemo-lo em figuras como Carlo Acutis e João Bosco, mas também naqueles que não foram canonizados – os nossos avós, pais e humildes crentes que irradiam a luz de Cristo com simplicidade e fidelidade, como a minha avó Catalina.

Este ciclo virtuoso da graça é sustentado pela presença e acção do Espírito Santo em cada um de nós e em toda a Igreja. Somos disso testemunhas: do que o Senhor realiza nas nossas vidas, nas nossas famílias e nas nossas comunidades.

REZAR COM A PALAVRA DE DEUS

«Aspergirei sobre vós água pura» (Ez., 36, 25). Senhor, lava os meus pecados e purifica o meu coração. Ajuda-me a viver cada dia renovado pela graça do Baptismo.

«Dar-vos-ei um coração novo e um espírito novo» (Ez., 36, 26). Senhor, substitui a minha teimosia por abertura. Escreve a tua lei do amor no meu coração e torna-me sensível à tua vontade.

«Porei o meu Espírito dentro de vós» (Ez., 36, 27). Espírito Santo, habita na minha família e em mim. Dá-nos força para amar, obedecer e caminhar fielmente na luz de Cristo.

Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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