Ezequiel 2 – Acções simbólicas (cf. Ez., 4, 1–5. 17)
CONTEXTO HISTÓRICO
Ezequiel recebe a sua missão profética num momento muito tenso da História de Israel. É chamado enquanto vive entre os exilados na Babilónia, antes da destruição final de Jerusalém e do seu templo. Muitos dos seus contemporâneos ainda acreditavam que tal catástrofe nunca poderia acontecer. A confiança assentava na memória de um milagre do passado: quando o rei Ezequias enfrentou o cerco de Jerusalém pelo rei assírio Senaqueribe, o profeta Isaías assegurou-lhe a protecção de Deus, e a cidade foi milagrosamente poupada (cf., 2 Reis 18-19; Is., 36-37).
Devido a este acontecimento, alguns israelitas presumiram que Deus defenderia sempre o Seu templo e a Sua cidade, independentemente dos pecados. A missão de Ezequiel era destruir esta falsa segurança. Por meio de acções simbólicas e oráculos poderosos, ele proclamou que os pecados do povo haviam atingido um nível tal que o julgamento era inevitável. O templo não os protegeria; pelo contrário, seria destruído e o povo disperso.
EZEQUIEL COME O PERGAMINHO
«E ele me disse: “Filho do homem, come tudo quanto está neste livro; depois vai pregar à nação de Israel!”. Então, eu abri a boca, e ele me deu o rolo para comer. E acrescentou: “Filho do homem, alimenta-te desde livro que lhe estou a dar e enche o teu estômago com ele!”. Em seguida eu o comi, e eis que seu paladar na minha boca era doce como o mel. Logo depois ele me ordenou: “Filho do homem, vai agora mesmo à nação de Israel e prega-lhes as minhas palavras”» (Ez., 3, 1–4).
Depois de comer o rolo da palavra profética, o próprio Ezequiel torna-se um sinal vivo: o seu próprio corpo e os seus gestos transformam-se num sacramento do que está para vir. Deus encarrega-o de encarnar, através de acções solenes e dramáticas, o destino que aguarda Jerusalém e o seu povo. Estes sinais encenados desenrolam-se numa sequência de temas inter-relacionados, crescendo passo-a-passo numa progressão culminante.
. O Tijolo e o Cerco (cf. Ez., 4, 1–3): Ezequiel circunscreve Jerusalém com tijolos e rodeia-a com técnicas de cerco. Com este gesto, anuncia que a cidade será sitiada e humilhada, sem qualquer possibilidade de fuga.
. Deitado de Lado (cf. Ez., 4, 4–8): Deita-se 390 dias do lado esquerdo para representar séculos de pecado de Israel, e quarenta dias de lado direito para simbolizar o exílio na Babilónia. O seu corpo torna-se uma linha viva do tempo, de pecado e castigo.
. Pão Impuro (cf. Ez., 4, 9–17): Coze pão de forma impura, mostrando que os exilados comerão comida contaminada em terras estrangeiras, perdendo a pureza e a dignidade.
. Rapar a cabeça (cf. Ez., 5, 1–4): Corta o cabelo e divide-o em três partes: um terço representa o povo que será queimado dentro da cidade, outro terço será abatido pela espada fora das muralhas e o último terço será espalhado ao vento, símbolo daqueles que irão para o exílio. Apenas alguns fios guardados no seu manto representam o pequeno remanescente que sobreviverá.
OS ORÁCULOS DE CONDENAÇÃO
As acções simbólicas de Ezequiel servem como acusação formal, seguidas de oráculos de condenação. O Senhor denuncia a rebelião de Israel e anuncia a dispersão dos sobreviventes. Ele aponta a profanação do santuário com ídolos e abominações, e confirma que o castigo será a fome, a peste e a espada. As palavras divinas são severas:
«Portanto assim diz Yahweh, o Senhor Deus: “Tu tens sido muito mais rebelde do que as nações pagãs ao teu redor, e não tens andado segundo os meus estatutos nem guardado os meus decretos, mas tens imitado as nações que te rodeiam e procedido de acordo com os padrões de comportamento dos pagãos. Por esta razão, declara Yahweh, o Soberano Deus: Eis que me posiciono contra ti; e passarei a te infligir uma série de castigos à vista de todas as nações ao teu redor”» (Ez., 5, 7-8).
Recorrendo a estes gestos dramáticos e a palavras inflamadas, Ezequiel despoja os seus contemporâneos de toda a falsa esperança. A missão é dolorosa: derrubar e esvaziar o coração de Israel para que, após a ruína da cidade e do templo, apenas a promessa de Deus permaneça. O Senhor mostra que o orgulho nacionalista é insignificante. Israel foi escolhido não por superioridade, mas como um povo pequeno e insignificante, resgatado da escravidão e formado numa nação no Sinai, em que Deus estabeleceu uma aliança. Esta aliança tinha como objectivo torná-los um sinal de esperança para todas as nações. Dentre eles viria o Messias, o Salvador do mundo.
A missão universal de Israel é evidente em todos os profetas. Como disse Jesus: «A salvação vem dos judeus» (Jo., 4, 22). Depois de reunir as ovelhas dispersas de Israel, Ele enviou os doze discípulos – em reminiscência das doze tribos – a todo o mundo para anunciar a Boa Nova.
O AMOR TRANSFORMADOR DE DEUS NOSSO SENHOR
Deus amou Israel e escolheu-o como Seu povo, mas a Sua eleição estendeu-se também às nações que o rodeavam. O Seu plano de salvação começou com Abraão, para que, pela sua descendência, todos os povos fossem abençoados. Este é o caminho da História da Salvação: a partir do particular, através de mediadores que Deus chama, santifica e envia, Ele a todos alcança.
O pecado da Humanidade, e do Seu povo eleito, é recebido com a misericórdia do Criador. No entanto, a misericórdia implica um regresso e uma restauração à bondade e à verdade, muitas vezes através de uma purificação dolorosa. Na Sua compaixão, Deus deseja salvar: “Deus, nosso Salvador (…) deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (cf. 1 Timóteo 2, 3-4). O pecado distorce a verdade; é viver na mentira e na hipocrisia. O pecado supremo é a idolatria – a ingratidão para com as obras salvadoras de Deus e a confiança mal colocada nas coisas criadas ou na força humana. Esta é uma mentira metafísica, pois só Deus é a fonte da vida: «Porque n’Ele vivemos, nos movemos e existimos» (Actos 17, 28).
Aqui reside o significado da ira divina: não é a negação do amor, mas a sua exigência de verdade. O perdão requer o reconhecimento do pecado. O amor pode compreender, mas não pode aprovar o mal. Fiel à verdade, Deus não declara bom o que é errado. No Seu processo de perdão e cura, Ele exige um regresso à verdade para que a Humanidade não se destrua a si própria. “O verdadeiro perdão é algo completamente diferente de uma permissividade fraca” (Bento XVI, “Olhar para Cristo: Exercícios de fé, esperança e caridade”). O perdão restaura a verdade, renova o ser e vence a hipocrisia e as mentiras escondidas no pecado. O pai da mentira, o Diabo, é um assassino, porque o pecado desvia-nos da verdade e conduz à morte.
Assim, a ira e a punição não são contradições do amor, mas instrumentos de purificação. Elas despojam a falsidade para que a misericórdia possa reconstruir na verdade. Por esta razão, Jesus apresenta-Se como o Caminho – o único mediador; a Verdade –, a luz que nos restaura ao nosso verdadeiro ser; e a Vida – a plenitude da existência em comunhão com os santos e com Deus.
REZAR COM A PALAVRA DE DEUS
. Pede humildade e coragem: Reza pela graça de te veres com verdade aos olhos de Deus – para afirmares o que é bom e reconheceres as áreas que precisam de purificação.
. Dá graças pela tua missão: Agradece ao Senhor por te ter escolhido como mediador do Seu amor transformador para a tua família e para as pessoas que encontras na vida quotidiana.
. Procura força para perseverar: Pede a perseverança para percorrer o caminho, por vezes doloroso, do regresso à verdade, confiando que o Seu perdão restaura a tua verdadeira essência e renova o teu ser.
Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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