Ezequiel 1 – Experimentar a Glória de Deus

ABRA A SUA BÍBLIA – 25

Ezequiel 1 – Experimentar a Glória de Deus

INTRODUÇÃO: CONTEXTO HISTÓRICO

O Livro de Ezequiel inicia-se num cenário histórico dramático. Em 597 a.C., o rei Joaquim rendeu-se a Nabucodonosor, rei da Babilónia. Como consequência, Joaquim, a família real e membros da classe alta – incluindo Ezequiel, um jovem sacerdote – foram deportados para a Babilónia. Nabucodonosor nomeou então Zedequias como rei de Judá. Cinco anos mais tarde, Zedequias rebelou-se contra a Babilónia, e foi durante este período turbulento (593 a.C.) que Ezequiel recebeu a sua visão inaugural junto ao rio Quebar. Este momento marcou a primeira vez que um profeta foi comissionado fora da terra de Judá ou de Israel (cf. Ez., 1–3).

Antes da destruição de Jerusalém em 587 a.C., a missão profética de Ezequiel era guiar o povo exilado para que reconhecesse o seu pecado, aceitasse as suas consequências e assumisse a responsabilidade pelo castigo do exílio. Ele proclamou que a decisão do Senhor de permitir que o templo fosse destruído não era abandono, mas julgamento divino. No entanto, Ezequiel também vislumbrou esperança: através desta provação, um Israel novo e purificado surgiria, voltando-se de todo o coração para o Senhor.

O profeta observa que a sua visão ocorreu no “trigésimo ano”, referindo-se muito provavelmente à sua própria idade. Este pormenor é significativo, uma vez que os sacerdotes tradicionalmente iniciavam o seu serviço no templo aos trinta anos (cf. Nm., 4, 3, 23, 30). Ezequiel, de linhagem sacerdotal, entrou assim na sua vocação profética no limiar da maturidade sacerdotal.

O Livro de Ezequiel é único entre os escritos proféticos, na medida em que o próprio profeta narra a sua experiência vocacional no exílio e partilha directamente as suas visões. Ao contrário de outros livros proféticos, a obra de Ezequiel apresenta uma unidade e uma progressão claras do início ao fim. Está estruturada em três secções principais:

. Capítulos 1–24: Oráculos relativos à destruição de Jerusalém.

. Capítulos 25–32: Oráculos de julgamento contra as nações vizinhas.

. Capítulos 33–48: Uma mensagem de esperança, anunciando a reconciliação entre Deus e o Seu povo e o regresso dos exilados à sua terra.

A MANIFESTAÇÃO DA GLÓRIA DE DEUS (Ez., 1, 1–28)

Ezequiel descreve a sua visão em termos impressionantes:

«Enquanto eu olhava, veio do Norte um vento tempestuoso: uma grande nuvem com brilho à sua volta e fogo a cintilar continuamente, e no meio do fogo algo semelhante a âmbar reluzente. No meio dela havia algo semelhante a quatro seres viventes. Esta era a sua aparência: tinham forma humana» (Ez., 1, 4-5)

O profeta vê a glória de Deus vindo do Norte e aproximando-se dele (cf. Mt., 3, 16; Ap., 4, 1). A imagem é típica das teofanias do Antigo Testamento – manifestações de Deus que resistem a uma descrição simples na linguagem humana. Os quatro seres vivos simbolizam a plenitude da criação – animais, aves e humanidade –, movendo-se juntos em unidade. Eles avançam sobre rodas que formam o que parece ser a carruagem divina (cf. Ez., 1, 15). Acima desta carruagem está sentado o Senhor, entronizado com aparência humana (cf. Ez., 1, 26; Ex., 24, 10).

A “Glória” do Senhor, ou Shekinah (de uma raiz hebraica que significa “habitar”), outrora acompanhou Israel no deserto como uma coluna de nuvem (cf. Ex., 13, 21) e mais tarde encheu o templo em Jerusalém (cf. 2 Cr., 7, 1). Na visão de Ezequiel, esta glória parte de Jerusalém (cf. Ez., 10). No entanto, a partida não é definitiva: a glória regressará após o exílio (cf. Ez., 44), significando tanto julgamento como esperança.

Mesmo à beira da destruição de Jerusalém e do seu templo, enquanto era forçado ao exílio numa terra estrangeira, Ezequiel experimentou o poder impressionante da presença de Deus. Deus não abandonará o Seu povo, mas permite que este seja renovado e purificado.

Este é o significado da “Shekinah” ou glória de Deus no Antigo Testamento: a manifestação da Sua presença e protecção entre o Seu povo. No Novo Testamento, o Evangelho de João insiste no conceito de glória e glorificação. A Glória de Deus é revelada na própria pessoa de Jesus Cristo: «O Verbo fez-se carne e habitou entre nós, e nós vimos a sua glória» (Jo., 1, 14). Aqui, “habitou” significa literalmente “armou a sua tenda” – fazendo eco à Shekinah como a morada de Deus e acompanhando o povo através do deserto.

No Evangelho de João, a revelação suprema da glória de Deus resplandece mais plenamente na cruz. O amor abnegado de Jesus, a Sua morte e a Sua ressurreição revelam a verdadeira natureza da glória de Deus – não apenas poder e majestade, mas amor sacrificial que traz vida.

O CHAMAMENTO INESPERADO DE DEUS (Ez 2, 1–10)

A manifestação da glória de Deus a Ezequiel é um prelúdio ao seu chamamento profético:

«Ele disse-me: “Ó mortal [‘filho de Adão’], levanta-te e eu falarei contigo”. E quando ele falou comigo, um espírito entrou em mim e pôs-me de pé, e ouvi-o a falar comigo. Ele disse-me: “Mortal, estou a enviar-te ao povo de Israel, a uma nação de rebeldes que se rebelaram contra mim; eles e os seus antepassados transgrediram contra mim até ao dia de hoje”» (Ez., 2, 1–3).

Os profetas são homens tomados pela Palavra de Deus, atraídos para uma intimidade única com Ele. A sua vocação nunca é previsível: Deus chama nos momentos mais inesperados, nos lugares menos convenientes e sempre com um elemento de surpresa. Ele chama quem quer (cf. Mc., 3, 14). A profecia não é hereditária, nem uma profissão, nem fruto da ambição humana – é puro dom, uma iniciativa divina.

Ser profeta significa partilhar do próprio “pathos” de Deus: sentir a Sua dor perante a rejeição do Seu amor, suportar a teimosia e a ingratidão do Seu povo. Não é uma missão que alguém escolheria para si próprio. No entanto, o plano salvífico de Deus desenrola-se através de mediadores – Abraão, Moisés, Samuel, os profetas – por meio da Sua Palavra é proferida, acolhida, obedecida e proclamada.

O profeta torna-se o canal vivo do amor de Deus, levando a Sua Palavra para que ela chegue ao povo. Em última análise, esta comunicação divina encontra a sua plenitude em Cristo: «De muitas e diversas maneiras, Deus falou antigamente aos nossos pais pelos profetas; mas nestes últimos dias falou-nos pelo Seu Filho» (Hb., 1, 1). O próprio Verbo encarnado (cf. Jo., 1, 1) é o Profeta definitivo, o mediador perfeito do amor e da salvação de Deus.

A FRAGILIDADE DO PROFETA E A FORÇA DE DEUS

Um profeta continua a ser um mortal, um “filho de Adão” – literalmente, um “filho do homem”. Confrontado com a glória avassaladora de Deus, Ezequiel torna-se profundamente consciente da sua própria fragilidade e limitação. O abismo infinito entre a fraqueza humana e a majestade divina só é colmatado pelo convite gracioso de Deus para entrar no Seu coração.

É o amor e o poder de Deus – a Sua Shekinah, a presença interior – que sustenta o profeta na sua luta. A Ezequiel, Deus dirige palavras de encorajamento:

«E tu, filho do homem, não tenhas medo deles nem das suas palavras, embora tenhas espinhos e sarças contigo e habites entre escorpiões. Não tenhas medo das suas palavras nem te desanimes com os seus olhares, pois são uma casa rebelde» (Ez., 2, 6).

O Senhor, que lhe confia uma missão humanamente impossível, confirma-o e fortalece-o para enfrentar a hostilidade e a oposição – mesmo por parte do próprio povo a quem é enviado para servir. A coragem de Ezequiel não provém de si mesmo, mas da certeza de que a presença de Deus o acompanha, transformando a fraqueza num testemunho firme.

REZAR COM A PALAVRA DE DEUS

Reserve algum tempo para ler e meditar sobre Ezequiel 1, 1-2, 10.

. Recorde e reviva momentos em que Deus manifestou o Seu amor e a Sua presença na sua vida.

. Perante a Sua majestade e poder, reconheça as suas limitações e fragilidade. Acolha o Seu amor transformador.

. Aceite com coragem e gratidão o convite de Deus para ser profeta do amor e servo da reconciliação na sua vida quotidiana.

Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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