Abdias – Da humilhação à salvação
CONTEXTO HISTÓRICO
Este é o livro profético mais curto da Bíblia, composto por apenas 21 versículos. O título, “A Visão de Abdias”, revela-nos a sua natureza como visão profética e o nome do seu autor, Abdias, que significa “aquele que serve a Deus”.
Os versículos 11–14 demonstram as acções violentas dos edomitas contra Judá, durante o cerco de Jerusalém por Nabucodonosor em 586 a.C. O profeta denuncia Edom por cooperar com os babilónios e até mesmo se alegrar com a destruição da cidade.
Geograficamente, Edom ficava a sul de Judá, ocupando um terreno acidentado desde o extremo sul do Mar Morto até as montanhas de Seir. Aproveitando-se da proximidade, os edomitas juntaram-se à pilhagem de Judá e tomaram partes do Negueve, agravando a tragédia da queda de Jerusalém.
Julgamento sobre Edom (2–10)
“Levantai-vos! Levantai-vos contra ela para a batalha! (…) O teu coração orgulhoso te enganou, tu que vives nas fendas da rocha, cuja morada está nas alturas. Tu dizes no teu coração: ‘Quem me derrubará?’” (cf. Ab., 2-3).
A visão começa com uma ameaça divina de punição contra Edom. Nenhuma culpa específica é mencionada ainda; em vez disso, os edomitas são lembrados de que sua posição geográfica não os protegerá. Eles viviam num território alto e acidentado, o que consideravam uma vantagem. No entanto, como declara o salmista:
«Para onde posso ir longe do teu Espírito? Ou para onde posso fugir da tua presença?» (Sl., 139, 7).
O Senhor tem o poder de derrubá-los, apesar das suas fortalezas elevadas.
«Se ladrões viessem a ti, se saqueadores à noite – como foste destruído! – eles não roubariam apenas o que quisessem? Se vindimadores viessem a ti, eles não deixariam os restos?» (Ab., 5).
Este versículo enfatiza a destruição total de Edom. Normalmente, os restos eram deixados para os estrangeiros ou os pobres (cf. Lv., 19, 10), mas aqui até mesmo esses restos seriam levados. Nem os seus sábios (versículo 8) nem os seus valentes soldados (versículo 9) poderiam resistir ao julgamento e ao poder de Deus.
«Como Esaú foi saqueado, os seus tesouros foram vasculhados! Pela matança e violência feitas ao teu irmão Jacó, a vergonha te cobrirá, e serás exterminado para sempre» (Ab., 6, 10).
A tradição bíblica identifica os edomitas como descendentes de Esaú, irmão gémeo de Jacó, cuja rivalidade começou antes mesmo do nascimento (cf. Gn., 25, 23) e continuou na juventude (cf. Gn., 25, 27–34). A venda da primogenitura foi marcada por intrigas e enganos (cf. Gn., 27), prenunciando uma hostilidade que mais tarde se transformou em inimizade nacional. Abdias enquadra o pecado de Edom como violência fraternal – uma nação irmã voltando-se contra Judá – e declara que tal traição é intolerável diante de Deus. O seu orgulho na geografia, sabedoria e força militar não pode protegê-los da justiça divina.
«Não deverias ter entrado pela porta do meu povo no dia da sua calamidade; Não deverias ter-te juntado à alegria pelo desastre de Judá no dia da sua calamidade; Não deverias ter roubado os seus bens no dia da sua calamidade» (Ab., 13).
A traição de alguém que explora a queda do seu irmão, ao saquear e lucrar com a sua morte, é repugnante para o Senhor. Esta é a razão do julgamento e condenação de Edom por Deus.
O Dia do Senhor (15–21)
«Eis, portanto, que o Dia do Senhor está muito próximo! E esse Dia vem sobre todas as nações! Como fizeste ao teu próximo, assim se fará contigo; o teu feito retornará sobre a tua própria cabeça! Do mesmo modo como bebestes da minha punição, no meu santo Monte, todas as nações ao redor igualmente o sorverão sem parar. Embebedar-se-ão de castigo até o fim, e serão como se jamais tivessem existido» (Ab., 15-16).
O julgamento de Deus – o Dia do Senhor – estende-se além de Edom a todas as nações. O Seu julgamento irá intoxicá-las como vinho, deixando-as confusas e desorientadas. Quem não recebe o dom de Deus e, em vez disso, se apropria dele em rebelião, torna-se um bêbado, enganado pela ambição, pelo ressentimento e pela ganância. Desta forma, marcham em direcção à sua própria destruição.
Edom torna-se um símbolo de todas as nações que se opõem a Deus e ao Seu povo escolhido, que carrega a promessa destinada a toda a Humanidade. O orgulho e a confiança na força militar criam a ilusão de segurança, mas essa embriaguez é de curta duração. As nações deleitam-se brevemente com as suas vitórias, saqueando os fracos e celebrando o seu domínio. No entanto, esse triunfo passageiro será seguido pela vingança de Deus, reduzindo-as a nada, «como se nunca tivessem existido».
CUMPRIMENTO HISTÓRICO
No Século IV a.C., os nabateus expulsaram os edomitas das suas terras ancestrais no Monte Seir. Forçados a migrar para o Oeste, para o Sul de Judá, ficaram conhecidos como idumeus. Mais tarde, em 125 a.C., o governante hasmoneu João Hircano conquistou-os e obrigou-os a se converterem ao Judaísmo. Com o passar do tempo, foram absorvidos pelo povo judeu. O rei Herodes, o Grande (37-4 a.C.), era descendente dos idumeus, mas muitos judeus consideravam-no um estranho, não um verdadeiro membro do povo da aliança de Deus. Assim, Edom, como nação distinta, desapareceu, cumprindo a visão de Abdias sobre o julgamento divino.
A INTOXICAÇÃO DOS ORGULHOSOS
A profecia de Abdias não é apenas sobre Edom; é uma advertência a todas as nações e povos que se exaltam contra Deus. O orgulho, a violência e a exploração dos vulneráveis são formas de intoxicação que cegam as sociedades para a sua dependência do Criador. O Dia do Senhor desmascara essas ilusões, trazendo responsabilidade e justiça.
Ao mesmo tempo, a profecia aponta para a esperança. Nos versículos 17–21, Abdias fala da libertação no Monte Sião, onde Israel será renovado e restaurado. Os exilados retornarão e o povo voltará a possuir a terra que perdeu por causa do pecado. A destruição das nações arrogantes contrasta com a renovação daqueles que confiam no Senhor. O Dia do Senhor é tanto julgamento quanto salvação: julgamento sobre o orgulho e a opressão; salvação para aqueles que permanecem fiéis.
CUMPRIMENTO EM CRISTO
Esta visão antecipa a vinda de Cristo. Jesus veio para reunir «as ovelhas perdidas de Israel» (Mt., 15, 24) e estender a salvação a todas as nações (cf. Mt., 28, 19). Nele, a promessa confiada a Israel torna-se universal, abrindo o caminho da redenção para toda a Humanidade. O Dia do Senhor, prenunciado em Abdias, encontra o seu cumprimento definitivo em Cristo, que julga os orgulhosos e salva os humildes.
Podemos sentir-nos desafiados e até escandalizados pela violência e pelo vocabulário belicoso usado no Antigo Testamento. O principal critério de interpretação é considerar a Bíblia como um todo, com uma tensão resolvida apenas no mistério pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo, que pôs fim ao ciclo de violência com a oferta de si mesmo:
«Por meio dele, Deus quis reconciliar consigo todas as coisas, tanto as que estão na terra como as que estão no céu, estabelecendo a paz pelo sangue da sua cruz» (Col., 1, 20).
Outra forma de ler estes textos, sempre que há um grito de guerra, é ver a nossa luta interior pela libertação dos nossos inimigos: paixões como a ganância, a busca do poder e o egocentrismo, e do maligno. Os Salmos ajudam-nos a concentrar-nos neste processo pessoal de crescimento interior, onde o Senhor nos prepara para sermos corajosos e valentes:
«Bendito seja o Senhor, minha rocha, que treina as minhas mãos para a guerra e os meus dedos para a batalha» (Sl., 144, 1).
REZAR COM A PALAVRA DE DEUS
Colocamo-nos diante do Senhor e permitimos que a Sua Palavra guie os nossos corações:
. Senhor, liberta-nos do orgulho e da autoconfiança, para que possamos andar humildemente na Tua presença.
. Ensina-nos a confiar no poder reconciliador da cruz de Cristo, que transforma a hostilidade em paz.
Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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