Jeremias (5) – Na casa do oleiro (cf. Jer., 18, 1–11)

ABRA A SUA BÍBLIA – 23

Jeremias (5) – Na casa do oleiro (cf. Jer., 18, 1–11)

UMA ACÇÃO SIMBÓLICA

As acções simbólicas são uma das formas pelas quais Deus comunica a Sua mensagem por meio dos profetas. O texto começa assim:

«A palavra que veio a Jeremias da parte do Senhor: “Vem, desce à casa do oleiro, e ali te farei ouvir as minhas palavras”» (Jer., 18, 1-2).

Na oficina do oleiro, Jeremias vê mais do que argila sendo moldada e remodelada. Ele percebe a relação entre Deus e o seu povo: Deus é o oleiro, Israel é a argila. Depois de observar, Jeremias conta:

«Então veio a mim a palavra do Senhor: Não posso eu fazer convosco, ó casa de Israel, como este oleiro fez? diz o Senhor. Assim como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel» (Jer., 18, 5-6).

O TRABALHO DO OLEIRO

Na época de Jeremias, a cerâmica era um ofício refinado que exigia disciplina, habilidade e amor pelo trabalho. O barro, quando colocado na roda, era moldado pacientemente; se ficasse mal feito, o oleiro remodelava-o até ser do seu agrado. Jeremias observa:

«O vaso que estava a ser moldado em barro estragou-se na mão do oleiro, e ele o remodelou noutro vaso, como lhe pareceu bem» (Jer., 18, 4).

Esta imagem revela a paciência e a persistência de Deus. Mesmo quando o Seu povo resiste, Ele o remodela. Isaías fá-lo saber:

«Vocês viram tudo de cabeça para baixo! Será que o oleiro deve ser considerado como o barro? Será que a coisa feita pode dizer sobre o seu criador: “Ele não me fez”?» (Is., 29, 16).

A metáfora lembra a própria criação: «Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego da vida» (Gén., 2, 7). A Humanidade, que compartilha de forma única o fôlego de Deus, possui uma dignidade inalienável. O salmista exclama: «Eu te louvo, pois fui formado de maneira admirável e maravilhosa. Maravilhosas são as tuas obras» (Sl., 139, 14).

ARREPENDIMENTO E A NOVA ALIANÇA

O trabalho do oleiro torna-se uma advertência e uma promessa:

«Se, em algum momento, eu declarar a respeito de uma nação ou de um reino que vou arrancar, derrubar e destruir, e se essa nação se converter do seu mal, mudarei de ideia sobre o desastre que pretendia trazer sobre ela» (Jer., 18, 7-8).

A vontade de Deus é firme, mas Ele responde à liberdade humana. Pode arrancar e dispersar, mas também pode recriar e restaurar. Esta dinâmica cumpre-se em Cristo, que adverte os líderes de Israel:

«Por isso vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será dado a um povo que produza os frutos do reino» (Mt., 21, 43).

A missão de Jeremias era de âmbito global:

«Agora coloquei as minhas palavras na tua boca. Vê, hoje te nomeio sobre nações e reinos, para arrancar e derrubar, para destruir e derrubar, para construir e plantar» (Jer., 1, 9-10).

A sua mensagem ressoa hoje, lembrando-nos que só Deus tem o poder de criar, destruir e redimir.

RESSONÂNCIA PROFÉTICA NO NOSSO TEMPO

A guerra, a fome e a destruição surgem do pecado enraizado nos indivíduos e nas comunidades – o que a Tradição Católica e a Doutrina Social chamam de pecado social. Os estrategas militares podem chamá-lo de “dano colateral”, mas o seu rosto humano são famílias destruídas, crianças órfãs e os nascituros silenciados no ventre materno. A indiferença a estas realidades é, em si mesma, um pecado.

O Papa Francisco, na sua extraordinária oração feita numa Praça de São Pedro vazia e varrida pela chuva durante a pandemia (27 de Março de 2020), lembrou ao mundo: «– Ninguém se salva sozinho». O seu lamento ecoou o apelo urgente de Jeremias ao arrependimento.

Além disso, o Papa Bento XVI advertiu contra «o pelagianismo dos devotos» – uma atitude subtil em que os crentes confiam nas suas próprias práticas ou rigor litúrgico como se pudessem ganhar a salvação. Esta falsa segurança desmorona-se como a estátua na visão de Daniel:

«Enquanto olhavas, uma pedra foi cortada, não por mãos humanas, e atingiu a estátua nos pés de ferro e barro e os quebrou em pedaços» (Dan., 2, 34).

CONCLUSÃO: DEUS É FIEL

Na casa do oleiro, Jeremias ensina que a relação de Deus com o seu povo é dinâmica, paciente e criativa. Ele remodela o que está partido, mas também chama ao arrependimento. A roda do oleiro é um símbolo da obra contínua de criação e redenção de Deus.

A maleabilidade da vontade humana contrasta com a firmeza da vontade divina. As nações e os indivíduos podem cumprir ou frustrar os propósitos de Deus, mas isso não impede o Senhor de recriar ou remodelar o vaso que está nas Suas mãos. Quando o Seu povo vacila, Ele levanta novos profetas, apóstolos e santos para trazer renovação e conversão.

Este padrão é evidente ao longo da História da Salvação. Em Israel, Deus enviou profetas para chamar o Seu povo de volta à fidelidade. Na Igreja, Ele levantou figuras em momentos críticos: os pais e mães do deserto dos Séculos II e III, que buscaram a santidade na solidão; São Francisco de Assis na Idade Média, que renovou a Igreja através da pobreza e da alegria; São Inácio de Loyola e Santa Teresa de Ávila, no Século XVI, que reformaram a espiritualidade e a oração; e, em tempos mais recentes, Padre Pio, Santa Teresa de Calcutá e São João Paulo II, que encarnaram a misericórdia e o amor de Deus no mundo moderno. Cada uma destas testemunhas mostra que Deus nunca abandona o Seu povo, mas continuamente o remodela, formando novos vasos para a Sua graça.

A rebelião da secularização, da humanidade actual que tende a ser independente do seu Criador e acredita ter a sua origem em si mesma, não é algo novo. É a tentação do pecado original, agora disfarçada em modas pós-modernas, tecnológicas, centradas no Ser Humano e subjectivas. Como sempre, priva os seres humanos da sua dignidade e da sua realidade mais profunda: terem sido criados com amor por Deus.

Este texto antecipa a Nova Aliança:

«Certamente virão dias, diz o Senhor, em que farei uma nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá» (Jer., 31, 31).

A visão de Jeremias lembra-nos que a graça de Deus é sempre maior do que o fracasso humano. Ele é o oleiro que nunca abandona o barro, mas pacientemente o remodela num vaso que lhe agrada.

REZAR COM A PALAVRA DE DEUS

1. Louvor e admiração (Salmo 139)

Medite nas palavras: «Eu te louvo, pois fui formado de maneira admirável e maravilhosa» (Sl., 139, 14). Permita que este salmo desperte a gratidão pela dignidade de ter sido criado e formado pelas mãos amorosas de Deus.

2. Humildade e arrependimento

Reflicta sobre a imagem do barro nas mãos do oleiro. Peça ao Senhor a humildade para reconhecer a sua fragilidade e a coragem para se arrepender, confiando que Ele remodela o que está partido em algo novo.

3. Confiança e submissão à vontade de Deus

Ore pela graça de se render à vontade de Deus, mesmo quando os Seus planos contrariam os seus. Entregue-se à Sua misericórdia, confiante de que Ele é o oleiro que pacientemente molda a sua vida num vaso que Lhe agrada.

Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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