Jeremias (4) – Deus purifica o seu profeta (cf. Jer., 20,7-18)
PRELÚDIO DE UMA CRISE
(cf. Jeremias 20, 1–6)
Esta crise na vida de Jeremias segue-se ao confronto com o sumo sacerdote Pasur. Irritado com a profecia de Jeremias contra Judá e o seu rei, Pasur golpeou o profeta e colocou-o no tronco, na Porta Superior de Benjamim (cf. Jer., 20, 1-2). O “tronco” era um dispositivo de madeira que prendia as mãos, os pés e, por vezes, o pescoço de uma pessoa, forçando-a a uma posição dolorosa e humilhante. Estar confinado ao portão – uma das entradas públicas mais movimentadas da área do Templo – expôs Jeremias ao ridículo e à vergonha diante do povo. Ao entrar no pátio do Templo, Jeremias colocou-se sob a jurisdição do sacerdote, e Pasur usou a sua autoridade para silenciá-lo e desonrá-lo.
No entanto, após ser libertado, Jeremias não recuou nem aligeirou a sua mensagem. Ao invés, confrontou Pasur e o povo com ainda mais ousadia: “Entregarei todo o Judá ao poder do rei da Babilónia, que os levará cativos para a Babilónia ou os ferirá com a espada. (…) Tu, Pasur, e todos os membros da tua casa ireis para o exílio” (cf. Jeremias 20, 4 e 6). Este momento prepara o cenário para a turbulência interior e para a oração do profeta.
A CRISE DE JEREMIAS
«Ó Senhor, tu me seduziste, e eu fui seduzido; tu me dominaste, e prevaleceste» (Jer., 20, 7).
Três verbos capturam o drama interior de Jeremias: “Seduzir”, “Dominar” e “Prevalecer”. O profeta chega a um ponto de ruptura quando se sente impotente e tentado a render-se. Ele relembra o início, quando ainda era um menino, e o Senhor o chamou (cf. Jer., 1, 4–6). A sua tentação mais profunda é a ideia de que todo o seu ministério foi em vão. Teme ter sido ingénuo de mais ao aceitar o chamamento de Deus, como se Deus o tivesse atraído para uma missão maior do que ele mesmo – uma missão que acabou por esgotá-lo e deixá-lo frustrado.
O CICLO DA REJEIÇÃO
O ciclo era sempre o mesmo: cheio da palavra de Deus, Jeremias a proclamava com paixão, não apenas através da palavra, mas através da sua própria vida. No entanto, o resultado era rejeição, punição, prisão, assédio, perseguição e ameaças contra a vida. Após repetidas tentativas, sentiu-se derrotado. Ainda assim, Jeremias não reprime a sua angústia. Ele a derrama diante do Senhor com honestidade crua – amargura misturada com ousadia –, mostrando que mesmo o lamento pode ser um acto de fé.
LUTANDO COM DEUS
Assim como Jacó lutou com Deus (cf. Gn., 32, 28), também Jeremias lutou contra o chamamento divino – embora aqui tenha sido Deus quem prevaleceu. Em ambos os casos, o mesmo verbo hebraico “yakol” (יכול) é usado. Jeremias reconhece que o Senhor era mais forte e que ele tinha de ceder. O terceiro verbo, “Prevalecer”, encerra a discussão, como se nada mais pudesse ser dito. O profeta admite que, no final, não teve escolha; a sua liberdade foi dominada pela vontade de Deus. No entanto, isto levanta uma questão profunda: Jeremias estava realmente sem liberdade, ou a sua rendição foi a expressão mais profunda da fé?
CONFIANÇA NO ÂMAGO
A oração de Jeremias tem três partes: a primeira (versículos 7 a 12) e a terceira (vv. 14 a 18) são duas lamentações que, como uma moldura, envolvem a secção central (vv. 11 a 13), onde o profeta expressa a sua profunda confiança na presença e no apoio do Senhor. Na superfície do seu ser – emocionalmente e psicologicamente – experimenta grande turbulência e tentação. No entanto, no seu íntimo, há segurança, intimidade com Deus e a certeza de que Deus o resgatará. Isto lembra a confissão de Jó:
«Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que no fim ele estará de pé sobre a terra» (Jó., 19, 25).
O verbo “Prevalecer” (“yakol”) aparece novamente, mas agora com um resultado favorável, para mostrar que, graças ao poder de Deus, Jeremias sabe que no final terá sucesso:
«Mas o Senhor está comigo como um poderoso campeão; os meus perseguidores tropeçarão, não prevalecerão. Eles serão grandemente envergonhados, pois não terão sucesso. A sua eterna desgraça nunca será esquecida» (Jer., 20, 11).
Jeremias sabe que está a ser testado: «Senhor dos exércitos, tu provas os justos, tu vês a mente e o coração» (Jer., 20, 12). Ele admite que o Senhor o conhece mais do que ele mesmo. Deus confia nele, além da sua própria confiança em si mesmo. Há muitas coisas que ele não compreende, mas entrega-se a Deus e ao Seu poder; Ele é o Senhor dos exércitos.
O profeta é desafiado a crescer e, portanto, deve aceitar ser testado e purificado, como o ouro na fornalha. Como declara Provérbios: «O cadinho é para a prata, e a fornalha é para o ouro, e o Senhor prova os corações» (Pr., 17, 3). O próprio Jeremias ecoa esta imagem de refinação quando reza: «Mas tu, Senhor dos exércitos, julgas com justiça; provas o coração e a mente» (Jer., 11, 20). O profeta é consagrado, tornado santo. Esta santificação implica um processo, não um momento mágico instantâneo. Os desafios que ele encontra ecoam no seu coração, onde o Senhor, por meio do Espírito Santo, o transforma, purifica, tornando-o mais generoso, mais humilde, mais amoroso, mais desapegado dos seus próprios caminhos e disponível para fazer a vontade de Deus.
CONCLUSÃO:
A crise de Jeremias revela o paradoxo da vocação profética: a tensão entre a fraqueza humana e a força divina, entre a angústia e a confiança, entre a liberdade e a rendição. O seu lamento não é uma negação da fé, mas a sua expressão mais profunda, mostrando que a oração autêntica pode abraçar tanto a queixa como a confiança. No final, a rendição de Jeremias à vontade prevalecente de Deus torna-se um testemunho de fé que não se baseia no sucesso humano, mas na fidelidade divina.
Reconhecer as nossas limitações, admitir as nossas fraquezas e aceitá-las diante das provações e frustrações, permite-nos abrir os nossos corações ao Senhor em oração. A honestidade diante de Deus e diante de nós mesmos mergulha-nos no mistério da Sua graça. Ao mesmo tempo, descobrimos que quem luta por nós e realiza feitos poderosos é o Senhor. Quanto mais nos humilhamos diante da Sua presença amorosa, mais experimentamos a Sua graça poderosa e transformadora.
A verdadeira oração pressupõe uma integração entre os acontecimentos da vida real, a missão, os desafios, as relações e a nossa relação com o Senhor. A lenha para o fogo da oração vem da nossa experiência de vida. Quanto mais nos aproximamos do Senhor, mais comprometidos ficamos com a nossa realidade.
Quando questionado pelos coríntios sobre as suas credenciais apostólicas, São Paulo partilha uma experiência pessoal durante um período de provações severas:
«O Senhor disse-me: “A minha graça te basta, pois o poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Por isso, de boa vontade me gloriarei nas minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse sobre mim. Por isso, sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas dificuldades, nas perseguições e nas calamidades por amor de Cristo; pois, quando sou fraco, então sou forte» (2 Cor., 12, 9-10).
REZAR COM A PALAVRA DE DEUS
. Honestidade na oração
Leve ao Senhor as suas lutas, dúvidas e frustrações, como Jeremias fez. O lamento pode ser um acto genuíno de fé quando oferecido com sinceridade e abertura ao plano de Deus.
. Conflito com o chamamento de Deus
Reflicta sobre os momentos em que a vontade de Deus pareceu opressora. Peça a graça para discernir se a rendição é uma perda de liberdade ou a forma mais profunda de confiança.
. Confiança na fidelidade de Deus
Mesmo no meio da turbulência, ancore-se na certeza de que Deus está presente e é fiel. Reze com as palavras de Jó – «Porque eu sei que o meu Redentor vive» (Jó., 19, 25) –, tornando-as a sua própria confissão de esperança.
Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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