Jeremias (3) – «Tu és a nossa esperança» (cf. Jr., 14, 1–22)
CONTEXTO HISTÓRICO
O ministério profético de Jeremias durou cerca de quarenta anos, tendo abrangido os reinados de vários reis de Judá. Começou sob o amado rei Josias (640-609 a.C.), lembrado pelas suas reformas religiosas e fidelidade à aliança, e terminou durante o trágico reinado do irmão, o rei Zedequias (597-587 a.C.).
Após a morte de Josias na batalha de Megido (609 a.C.), o seu filho Joacaz foi colocado no trono. O reinado durou apenas três meses porque o Faraó Neco II do Egipto o depôs (cf. 2 Reis 23, 31–34), colocando no trono o seu irmão, Jeoiaquim (609-598 a.C.). Este reinou durante onze anos, mas tornou-se famoso por ser arrogante e desrespeitar as advertências de Jeremias. Rebelou-se contra a Babilónia, após inicialmente a ela se ter submetido, levando à devastação de Judá.
Jeoiaquim (598-597 a.C.), filho de Jeoiaquim, sucedeu-o, mas também reinou por apenas três meses, tal como acontecera com Joacaz. Quando Nabucodonosor sitiou Jerusalém, Jeoiaquim rendeu-se ao rei babilónico para evitar a destruição. Este, juntamente com a família e muitos nobres, foi deportado para a Babilónia (2 Reis 24, 8–16).
Nabucodonosor colocou então Zedequias, irmão de Josias, no trono (597-587 a.C.). Contra o conselho de Jeremias, Zedequias rebelou-se contra a Babilónia, recusou pagar tributo e firmou uma aliança com o Egipto. Esta situação provocou a ira de Nabucodonosor: Jerusalém foi destruída em 587 a.C., o templo foi queimado e o povo exilado. Zedequias tentou fugir com a família, mas foi capturado perto de Jericó. Num acto brutal de vingança, os filhos foram executados diante dele e, em seguida, os seus olhos foram arrancados. Foi levado, acorrentado, para Babilónia, onde permaneceu preso até à morte (cf. 2 Reis 25, 1–7).
A DIFÍCIL SITUAÇÃO DO POVO
O capítulo 14 retrata a situação desesperada do povo, em duas etapas: primeiro, a devastação causada por uma seca severa (versículos 1–6); segundo, a angústia da derrota na guerra após um cerco brutal (versículos 17–19). Diante de tais calamidades, Jeremias levanta a voz em lamentação. Reza com profunda compaixão e intercede pelo povo, assumindo o papel de mediador sacerdotal que leva o sofrimento dele perante o Senhor.
PRIMEIRA LAMENTAÇÃO: «NÓS LEVAMOS O TEU NOME».
«A palavra do Senhor que veio a Jeremias a respeito da seca: Judá chora, as suas portas estão sem vida; o seu povo se afunda em luto; de Jerusalém sobe um clamor de angústia» (Jeremias 14, 1-2).
Este é um grito de angústia. Jerusalém chora sob o peso da seca. Nobres e agricultores, ricos e pobres, estão nivelados no seu sofrimento e vergonha, pois as cisternas estão vazias (versículo 3). Os servos voltam sem nada. Também os animais partilham da miséria: a corça, conhecida por cuidar dos seus filhotes, abandona-os em busca de água. Este facto está relacionado com a metáfora usada pelo salmista para expressar o seu anseio por Deus:
«Como o veado anseia por correntes de água, assim a minha alma anseia por ti, ó Deus» (Salmo 42, 1).
O primeiro lamento de Jeremias está estruturado de forma concêntrica:
a) «Ó esperança de Israel, ó Senhor, nosso salvador em tempos de necessidade!
b) Por que serás um estrangeiro nesta terra, como um viajante que pára apenas por uma noite?
b) Por que és como um homem perplexo, um campeão que não pode salvar?
a) Tu estás no meio de nós, ó Senhor, o teu nome nós levamos: não nos abandones!» (Jeremias 14, 8-9).
Jeremias intercede por um povo impenitente. A sua oração começa e termina com confiança na presença e na aliança de Deus (a-a). No entanto, as perguntas centrais “porquê” (b-b) expõem uma realidade dolorosa: Jeremias queixa-se de que o Senhor parece distante, como um estranho ou um viajante de passagem, aparentemente indiferente ao sofrimento. Mas a verdade é que aqueles que vagueiam, que se afastam e tomam distância, são o próprio povo: «Eles gostam tanto de vagar que não conseguem conter os seus pés» (Jer., 14, 10). Alienados da sua sede interior, o povo vagueia, como o Senhor acusa. Mais tarde, no segundo lamento, até mesmo o profeta e o sacerdote «vagam numa terra que não conhecem» (Jer., 14, 18).
Na linguagem bíblica, “vagar” é o oposto de «andar na presença do Senhor». Representa o pecado, expresso pela palavra hebraica ḥaṭṭāʾt (חטאת), que significa “errar o alvo” ou “desviar-se”. No final, os verdadeiros “vagabundos” não são Deus, mas o Seu povo – afastado Dele, incapaz de saciar a sua sede e perdido em caminhos que o afastam da fidelidade à aliança.
Jeremias sabe que o Senhor não rejeitou totalmente o Seu povo. Ele assume a culpa e o sofrimento deles, incorporando a firmeza do amor incondicional de Deus – expresso em Hebraico como ḥesed (חֶסֶד), o “amor constante” ou “bondade amorosa” da aliança que nunca falha.
Esta imagem é enriquecida pelo jogo de palavras hebraico entre miqweh (מקוה), que significa “esperança”, e miqwah (מקוה), que significa “cisterna”. Escritos sem vogais, os dois termos parecem idênticos. Em tempos de seca, a ambiguidade é impressionante: a cisterna vazia simboliza a futilidade das falsas seguranças, enquanto a verdadeira esperança só se encontra no Senhor, a fonte viva de água.
Nos versículos 11 e 12, o Senhor proíbe Jeremias de interceder. Jeremias resume o julgamento de Deus com três palavras: espada, fome e peste. No entanto, os falsos profetas proclamam o contrário: «Terás paz duradoura na tua terra» (Jeremias 14, 13). O Senhor desmascara-os: «Eu não os enviei, não lhes dei nenhuma ordem, nem falei com eles» (Jr., 14, 14). A verdadeira profecia flui da palavra de Deus dada livremente; a falsa profecia distorce as palavras para conveniência humana.
SEGUNDA LAMENTAÇÃO: «PELO TEU NOME»
O texto descreve o horror após o massacre na cidade, após um longo cerco. A fome agora é resultado da guerra. A situação é mais terrível do que a seca: desolação, morte e desespero.
Embora proibido de interceder, Jeremias não consegue permanecer em silêncio. Ele identifica-se com o seu povo; não pode abandoná-lo, como Moisés após o episódio do bezerro de ouro (cf. Êxodo 32, 7–14). A sua confiança no Senhor faz com que ouse pedir perdão novamente. Jeremias sabe que o Senhor não rejeitou totalmente o seu povo. Ele assume a culpa e o sofrimento deles, incorporando o amor incondicional de Deus.
A peregrinação do profeta e sacerdote numa terra desconhecida e a destruição da cidade e do templo remetem para 587 a.C., quando Nabucodonosor destruiu Jerusalém e enviou o povo para o exílio.
Agora, a sua oração muda de objecto: ele não implora pelo bem do povo, mas pelo nome de Deus e pelo seu «trono glorioso» – o templo. «Por amor do teu nome, não nos rejeites, não desonres o trono da tua glória. Lembra-te de nós, não quebres a tua aliança connosco!» (Jeremias 14, 21). Esta não é uma tentativa de ganhar o favor de Deus, mudando a sua estratégia de oração; pelo contrário, é a compreensão de Jeremias quanto à compaixão e ao amor de Deus pelo seu povo. O que se passa no coração do profeta é, na verdade, um reflexo do que se passa no coração de Deus.
REZAR COM A PALAVRA DE DEUS
Os lamentos de Jeremias revelam a tensão entre o julgamento divino e a misericórdia divina. Está dividido entre a obediência à ordem de Deus e a compaixão pelo seu povo. Ele encarna a solidariedade com uma nação pecadora, recusando-se a abandoná-la, e nessa fidelidade reflecte o próprio amor de Deus.
A mudança na oração – de implorar pelo povo para implorar pelo nome de Deus – ensina que a verdadeira intercessão não se baseia no mérito humano, mas na fidelidade da aliança de Deus.
1. Esperança como água viva – Peçamos ao Senhor para despertar em nós a profunda sede pela Sua presença, como no Salmo 42, 1.
2. Intercessão fiel – Reflictamos sobre o papel sacerdotal de Jeremias, levando o sofrimento do seu povo perante Deus, mesmo quando lhe era proibido.
3. Pelo nome de Deus – Rezemos para que a sua vida honre a aliança de Deus e a Sua glória, confiando sempre na Sua misericórdia.
Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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