Jeremias (2) – O custo da profecia

ABRA A SUA BÍBLIA – 20

Jeremias (2) – O custo da profecia

1. O apelo à conversão (Jeremias 7, 3-7)

«Assim diz o Senhor dos exércitos, o Deus de Israel: “Corrigi os vossos caminhos e deixai-me habitar convosco neste lugar. Não confieis nestas palavras enganosas: ‘O templo do Senhor! O templo do Senhor! O templo do Senhor!’”» (Jer., 7, 3-4).

O Senhor implora ao seu povo que lhe permita habitar entre eles (ver também Jr., 7, 5–7). No entanto, a sua presença não é incondicional: requer fidelidade à aliança. Para permanecer com o Senhor, Israel deve ouvir a sua voz e andar de acordo com os seus estatutos.

2. O Sermão no Templo (Jeremias 7,1–15)

Este famoso Sermão no Templo marca um momento decisivo no ministério profético de Jeremias. O templo era considerado o coração da Terra Prometida, a morada do nome do Senhor, onde Israel podia invocá-Lo e oferecer adoração. Mas Jeremias insiste que a presença de Deus não é automática. Ela depende da justiça e da misericórdia – acolher o estrangeiro, cuidar dos fracos, respeitar a vida e rejeitar a idolatria.

Essa mesma verdade é repetida nas visões de Ezequiel, onde a glória do Senhor abandona o templo no momento do exílio:

«Então a glória do Senhor levantou-se de cima dos querubins e ficou sobre a soleira do templo. O templo encheu-se da nuvem, e o pátio encheu-se do brilho da glória do Senhor» (Ezequiel 10, 4).

A visão de Ezequiel sublinha a advertência de Jeremias: o ritual sem fidelidade é vazio. A hipocrisia e as palavras enganosas não podem esconder os crimes de Judá.

3. Falsa segurança

O que mais fere Jeremias é a falsa confiança do povo. Eles acreditam que estão seguros simplesmente porque o templo está no meio deles. Ele denuncia essa ilusão, declarando que eles transformaram a casa do Senhor num «covil de ladrões». Séculos mais tarde, Jesus ecoaria este mesmo versículo ao confrontar a corrupção no templo de Jerusalém:

«A minha casa será chamada casa de oração, mas vós estais a torná-la um covil de ladrões» (Mt., 21, 13; cf. Mc., 11, 17; Lc., 19, 46).

«Esta casa, que leva o meu nome, tornou-se aos vossos olhos um covil de ladrões? Eu mesmo o vi! — oráculo do Senhor» (Jr., 7, 11).

O povo lembrava-se de como o exército assírio se retirou uma vez de Jerusalém (cf. 2 Rs., 19, 32–34; Is., 37, 33–35), um sinal do poder salvador do Senhor. Mas esta memória levou-os a uma falsa segurança. Jeremias destruiu a ilusão ao recordar Siló, o antigo santuário abandonado após a derrota de Israel pelos filisteus:

«Ide agora ao meu lugar que estava em Siló, onde fiz habitar o meu nome no princípio, e vede o que lhe fiz por causa da maldade do meu povo Israel» (Jr., 7, 12).

Esta lembrança era escandalosa, pois implicava que mesmo o templo de Jerusalém – o próprio símbolo da presença de Deus – poderia ser destruído se a aliança fosse traída.

4. O julgamento de Jeremias (Jeremias 26, 1–24)

O capítulo 26, muito provavelmente acrescentado por Baruch, amplia o Sermão do Templo ao narrar as suas consequências. As palavras de Jeremias provocaram indignação: os sacerdotes e profetas acusaram-no de blasfémia e exigiram a pena de morte (cf. Lev., 24, 10–16).

Jeremias defendeu-se, ao declarar que as suas palavras não eram suas, mas de Deus. Acrescentou que o Senhor suspenderia o Seu julgamento, se o povo se arrependesse. Os funcionários civis, recordando a advertência do profeta Miqueias e da reforma do rei Ezequias, defenderam Jeremias. O desastre havia sido evitado quando Ezequias ouviu Miqueias, mas o rei Jeoiaquim mais tarde condenou o profeta Urias à morte. O destino de Jeremias poderia ter sido semelhante, mas Aicão, filho de Safã, interveio e salvou-o.

Mesmo em momentos difíceis, Jeremias encontrou defensores. Quando foi lançado numa cisterna e deixado para morrer, Ebed-Melek, o cuchita, intercedeu junto ao rei Zedequias, que ordenou o resgate de Jeremias (cf. Jr., 38, 7–13). Estes episódios revelam que, apesar da rejeição e da perseguição, Deus levantou protectores para preservar a missão de Jeremias.

5. Conclusão: Profecia, Adoração e Misericórdia

Jeremias e Ezequiel convergem para uma única verdade: a presença de Deus não pode ser reduzida a rituais, lugares ou tradições. O templo nunca teve a intenção de ser um talismã que garantisse segurança; era o sinal visível de uma relação de aliança. Quando a aliança foi traída, Jeremias advertiu que o próprio templo poderia ser destruído, e Ezequiel viu a Glória do Senhor afastar-se dele.

Para a Igreja de hoje, esta mensagem continua a ser urgente. A Liturgia, os Sacramentos e os Locais Sagrados são encontros autênticos com Deus apenas quando unidos à conversão do coração e a uma vida de misericórdia. O ritual sem obediência torna-se vazio; a adoração sem justiça torna-se hipocrisia.

Em Dilexit Nos, o Papa Francisco ecoa este apelo profético:

“Este Cristo com o seu coração traspassado e ardente é o mesmo Cristo que por amor nasceu em Belém, percorreu a Galileia curando, acariciando, derramando misericórdia e amou-nos até ao fim, estendendo os braços na cruz. Por fim, é o mesmo que ressuscitou e vive gloriosamente no meio de nós” (Dilexit nos, 51).

Assim, o Sermão do Templo de Jeremias e a visão de Ezequiel não são meras advertências históricas; são apelos perenes à vigilância. O Senhor deseja habitar entre o Seu povo, mas a Sua presença repousa onde há fidelidade, humildade e amor. A Igreja deve examinar continuamente se é um templo vivo do Espírito ou apenas uma estrutura de rituais.

Por fim, o Sermão do Templo e suas consequências revelam o custo da verdadeira profecia. A mensagem de Jeremias expôs a confiança equivocada de Israel e exigiu conversão. O seu julgamento ilustra a tensão entre as autoridades religiosas, os líderes civis e o povo, e destaca a coragem daqueles que o defenderam. Em última análise, a fidelidade de Jeremias à palavra de Deus, mesmo correndo o risco de morte, permanece como um testemunho da vocação profética: falar a verdade de Deus com ousadia, confiando que a Sua palavra prevalecerá.

REZAR COM A PALAVRA DE DEUS

. Tal como Judá, também nós podemos ser tentados a depositar a nossa confiança em sinais externos – rituais, tradições ou instituições – em vez de na fidelidade viva à aliança de Deus. Os profetas lembram-nos que nenhum templo, nenhum rito, nenhuma tradição pode substituir a obediência e a misericórdia. Peçamos ao Senhor pureza de coração e zelo profético, para que possamos ouvir a Sua palavra e pô-la em prática.

. Jeremias insiste que a morada de Deus está condicionada ao cuidado com o estrangeiro, o órfão e a viúva. Reconheço o Cristo sofredor nos pobres, nos fracos e nos doentes?

. Nos momentos de provação, quando sou incompreendido ou falsamente acusado, sou convidado a confiar na fidelidade de Deus. Jeremias foi defendido por amigos inesperados levantados pelo Senhor. Tenho alguém que pode estar ao meu lado na verdade? E quando não há ninguém, confio plenamente no Senhor como meu refúgio?

. Ezequiel viu a glória do Senhor partir do templo, um aviso de que a presença de Deus não pode ser manipulada. Hoje, a Igreja é chamada a ser um templo vivo, onde o Espírito habita através da fidelidade, da humildade e do amor. Sou verdadeiramente um templo do Espírito, uma morada para o Senhor?

Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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