Servir Deus por amor, não por sinais
Neste ano em que celebramos os 450 anos da diocese de Macau, somos convidados a reflectir sobre o verdadeiro sentido da nossa fé. O Evangelho de São Marcos apresenta-nos um episódio marcante: “Os fariseus saíram e começaram a discutir com Jesus, pedindo-lhe um sinal do céu, para pô-lo à prova. Jesus suspirou profundamente e disse: ‘Por que esta geração pede um sinal? Em verdade, vos digo: a esta geração não será dado sinal algum’. E, deixando-os, embarcou de novo e partiu para a outra margem” (cf. Mc., 8, 11–13).
A atitude dos fariseus revela uma tentação que atravessa os séculos e chega até nós: querer servir Deus mediante sinais e prodígios, transformando a fé numa espécie de negociação. Procuram provas espectaculares, não porque desejam conhecer Deus, mas para testá-lo, para submetê-Lo aos seus critérios. Jesus, porém, recusa-se a alimentar essa lógica. O suspiro profundo do Senhor expressa a tristeza diante de corações endurecidos que não reconhecem os sinais já dados: as curas, os ensinamentos, a própria presença do Reino de Deus entre eles.
O problema fundamental dos sinais é que são insaciáveis. Mesmo que Deus nos concedesse um prodígio hoje, amanhã estaríamos a pedir outro, e depois mais um. A busca interminável por sinais revela uma fé imatura, que não se fundamenta no amor, mas na curiosidade, no medo ou no interesse próprio. Como nos ensina São Bernardo de Claraval, existem três formas de amar Deus: o amor do escravo, que serve por medo do castigo; o amor do mercenário, que serve para receber algo em troca; e o amor filial, que ama o Pai simplesmente porque Ele é Pai.
Quantas vezes não agimos como mercenários espirituais? Rezamos esperando sinais, procuramos por milagres como quem exige pagamento, condicionamos a nossa fidelidade aos favores recebidos. Esta mentalidade reduz Deus a um dispensador de graças e esvazia a relação de amor que Ele deseja estabelecer connosco. O Catecismo da Igreja Católica ensina-nos que “a fé é uma resposta pessoal do homem a Deus que se revela” (CIC n.º 166), não uma barganha comercial.
Nos 450 anos da diocese de Macau, quantos missionários e fiéis não serviram Deus sem esperar sinais espectaculares? São Francisco Xavier, patrono das missões no Oriente, percorreu estas terras movido unicamente pelo amor a Cristo e às almas, enfrentando dificuldades imensas sem exigir provas constantes da presença divina. Seguiram o exemplo de Santa Teresa de Ávila, que afirmava: “Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa, Deus não muda”.
O verdadeiro discípulo reconhece que o maior sinal já foi dado: a Cruz de Cristo. «Nós prégamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os pagãos» (1 Cor., 1, 23). Na Cruz, Deus revelou o seu amor incondicional pela Humanidade. Que sinal maior poderia ser dado? A Ressurreição confirma que esse amor é mais forte do que a morte.
Somos chamados a amadurecer na fé, passando do amor mercenário ao amor filial. Servir Deus porque O amamos, não pelos benefícios que possamos obter. Confiar Nele mesmo quando não compreendemos, mesmo quando os sinais parecem ausentes. Como nos exorta o Papa Bento XVI na Encíclica Deus caritas est: “Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte” (DCE n.º 1).
Que, neste ano jubilar da diocese de Macau, possamos redescobrir a alegria de amar Deus como filhos, não como escravos nem mercenários. Que nossa fé se fortaleça não na busca por sinais, mas no encontro profundo com Aquele que nos amou primeiro.
Padre Daniel Ribeiro, SCJ

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