«Se me amásseis» (Jo., 14, 28)
A Despedida de Jesus e a Promessa de Regresso – O Evangelho de hoje dá continuidade à leitura do Domingo passado. Jesus continua o seu discurso de despedida aos discípulos. Tinha-lhes dito para não se perturbarem, mas para confiarem nele. Agora, assegura-lhes que não os deixará órfãos. Por algum tempo, não o verão, mas ele regressará. A sua hora – a sua glorificação – culmina no seu regresso ao seio do Pai, de onde veio (cf. Jo., 1, 18).
Os Mandamentos e a Aliança de Amor – O texto começa com uma afirmação condicional de Jesus: «Se me amásseis…». As suas palavras desafiam-nos – às nossas comunidades cristãs e às nossas famílias. Amamo-lo verdadeiramente? Reunimo-nos todos os Domingos na Eucaristia para celebrar o sacramento do seu amor, mas amamo-lo verdadeiramente? Quais são os sinais do amor autêntico, o tipo de amor que reflecte o seu próprio amor?
O Evangelho diz-nos: é guardar os seus mandamentos. Mas por que razão fala Ele de mandamentos, e quais?
A palavra “mandamentos” remete para a aliança no Sinai. Deus selou a sua aliança com Israel através do sangue do sacrifício, vinculando o povo à sua lei e à sua Palavra. Ele seria o seu Deus, e eles o seu povo. Esta pertença mútua concretizou-se através da obediência aos Dez Mandamentos.
Quando Jesus fala de mandamentos, refere-se à Nova Aliança, selada com o seu próprio sangue. Ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. O seu mandamento é o amor – o amor verdadeiro, tal como Ele nos amou. É um amor abnegado e sacrificial. Tal como a fé, este amor é um dom de Deus aos discípulos. Ele dá-nos a força para responder com o mesmo amor. Como diz São Paulo, a fé opera pelo amor (cf. Gal., 5, 6). A fé permite-nos ver, experimentar e responder ao convite de Deus – não apenas com consentimento, mas com acção. O amor é compromisso, paciência e perseverança no meio das provações e dos sofrimentos.
O Espírito do Amor e o Testemunho dos Santos – A Santíssima Trindade realiza a nossa salvação de uma forma misteriosa, para além da nossa compreensão. O Filho suplica ao Pai que envie o Espírito Santo – um companheiro, um consolador, aquele que nos fortalece nas nossas lutas. Só então crescemos e amadurecemos. Cristo prepara-nos uma morada, dando-nos a oportunidade de realizar a sua obra. O seu amor, agindo em nós através do Espírito, permite-nos realizar as suas obras. A Igreja, assistida pelo Paráclito, torna-se um sacramento do amor de Deus no mundo.
O “mundo”, aqui, representa aqueles que rejeitaram Cristo, escolhendo as trevas e, por isso, são incapazes de conhecer Deus. No entanto, Jesus é aquele que foi enviado pelo Pai para O revelar. Conhecer Jesus é conhecer o Pai, através do dom do Paráclito, o Espírito do Amor.
Charles de Foucault encarnou este amor. Abandonou tudo para viver entre os tuaregues no deserto, tornando-se irmão de todos – os escravos, os perseguidos – que encontraram refúgio na sua humilde casa. A sua vida foi marcada pela adoração eucarística e pelo amor aos pobres, pelo desapego total e pela confiança na vontade de Deus. Foi assassinado por bandidos, sem nunca ter visto a congregação que sonhava fundar. Só após a sua morte é que outros seguiram os seus passos, dando vida aos Pequenos Irmãos e às Pequenas Irmãs de Jesus. Hoje vivem na pobreza entre os mais pobres, realizando a obra de Deus em lugares escondidos, despercebidos pelo mundo, mas radiantes de alegria no coração de Deus.
A maioria de nós não é chamada a uma entrega tão radical. No entanto, surgem momentos em que o desafio de Jesus nos atinge: «Se me amásseis…». Nesses momentos, a nossa livre escolha pode levar-nos à maturidade no seu amor, até darmos tudo. O Espírito Santo, o Paráclito, fortalece-nos como fez com os primeiros mártires da Igreja – Perpétua e Felicidade, Inês e Lourenço, e os novos mártires da Nigéria, do Sudão e do Médio Oriente – que descobriram coragem, alegria e fortaleza além do imaginável, ao derramarem o seu sangue por Cristo.
E nós?
Jesus diz a cada um de nós: «Se me amasses…», e sabemos o que se segue para cada um de nós. Sei quais as mudanças que preciso de fazer na minha vida para demonstrar maior fidelidade à minha aliança de amor com o Senhor. O amor não é apenas um sentimento ou uma emoção. O amor é compromisso. Sinto-me desafiado a seguir em frente, a crescer, a permitir que o Paráclito me guie, para além da minha própria visão. Só preciso de confiar Nele e aprender a obedecer para viver em paz e total liberdade.
“Quão profundo é o teu amor!”, canta a canção. Quanto mais respondo a esse amor constante, mais experimento o seu poder em mim e através de mim. Sim, assim como as obras de Jesus são as obras do Pai, as minhas obras podem tornar-se as próprias obras de Jesus.
Por mais frágil que eu seja, por mais limitado que eu me conheça, ainda posso dar-Te tudo o que tenho e sou. Deixa o Teu amor brilhar através da minha pequenez, na minha pobreza, para que a Tua Graça e o Teu poder se manifestem em mim e através de mim.
Somos chamados a ser a luz do mundo, o sal da terra. Não sejas tímido! Não permitas que a falsa humildade endureça o poderoso amor de Deus em ti!
Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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