5º DOMINGO COMUM – Ano A – 8 de Fevereiro

5º DOMINGO COMUM – Ano A – 8 de Fevereiro

Sal e Luz: a nossa responsabilidade para com o mundo

Um humilde missionário em Coloane

Um pequeno, magro e aparentemente frágil padre salesiano desembarcou na ilha de Coloane, na década de 1960, tendo chegado a uma aldeia tranquila e escondida nos confins do mundo. Durante mais de 48 anos, o padre Gaetano Nicosia dedicou-se – abnegadamente – à Aldeia de Nossa Senhora, uma colónia de leprosos fundada em 1885. Através de uma dedicação incansável, transformou o povoado numa comunidade vibrante, com escolas, oficinas e instalações de saúde. Nunca procurou reconhecimento ou glória; nem poderia imaginar que hoje seríamos alimentados pelo seu exemplo e legado – uma herança para a Igreja em Macau e, talvez, para o mundo inteiro, caso um dia seja proclamado Beato pela Igreja Católica.

A luz da caridade e da justiça

O Senhor declara por meio do profeta Isaías: “A tua luz brilhará como a aurora” (cf. Is., 58, 7–10). Por duas vezes na Primeira Leitura deste Domingo, Deus lembra-nos que a nossa luz brilha quando vivemos a caridade: alimentando os famintos, abrigando os sem-abrigo, vestindo os nus e reconciliando-nos com os nossos irmãos e irmãs – nunca virando as costas aos nossos. Mas a luz também brilha quando removemos a opressão, as falsas acusações e as palavras maliciosas. Somos chamados a mudar o mundo e a promover a justiça, não através da violência, mas através daquilo a que se chamou “a revolução da cruz”.

São Paulo lembra aos coríntios que, quando chegou pela primeira vez entre eles, não se baseou no poder persuasivo da retórica ou do discurso eloquente, nem se apresentou com sabedoria humana ou argumentos filosóficos. Em vez disso, decidiu não saber nada, a não ser Jesus Cristo, este crucificado (cf. 1 Cor., 2, 2). A sua mensagem era simples, mas profunda: o poder salvador da cruz. Desta forma, Paulo mostra que a verdadeira autoridade e transformação não vêm da persuasão humana, mas da humilde proclamação de Cristo crucificado.

E o próprio Cristo assegura-nos nas Bem-aventuranças: «Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra» (Mt., 5, 5).

Sal da terra

No Sermão da Montanha, após proclamar as Bem-aventuranças, Jesus usa duas metáforas para expressar o impacto da missão dos seus discípulos: Sal e Luz.

«Vós sois o sal da terra. Mas se o sal perder o seu sabor, com o que se há de temperar? Para nada mais presta, senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens» (Mt., 5, 13).

O sal dá sabor e sentido à vida. No passado Domingo, um grupo de crianças da Catequese da paróquia de São Lourenço, juntamente com os pais e catequistas, visitou um lar de idosos em Coloane para partilhar alegria com os residentes. Levaram artesanato, entoaram canções e com eles brincaram. Eram o sal da terra. A vida é muitas vezes difícil, mas os discípulos de Cristo podem mostrar que cada pessoa humana é preciosa e destinada à glória, mesmo no sofrimento.

Luz do mundo

«Vós sois a luz do mundo. Uma cidade edificada sobre um monte não pode ser escondida. Igualmente não se acende uma candeia para colocá-la debaixo de um cesto. Ao contrário, coloca-se sob o abajur e, assim, ilumina a todos os que estão em casa. Assim deixai a vossa luz resplandecer diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus» (cf. Mt., 5, 14–16).

Jesus afirma que «uma cidade construída sobre uma colina não pode ficar escondida». Na sua época, não havia luz eléctrica – apenas o brilho do fogo ou das candeias que perfuravam a escuridão. A luz significava segurança, orientação e esperança.

Lembro-me de escalar a montanha mais alta da minha província na Argentina, com o meu amigo Enrique. Com quase três mil metros de altura, a cordilheira era o habitat de animais selvagens, como pumas, por exemplo. Depois de passar a noite num refúgio, chegámos ao pico e começámos a nossa descida em direcção à aldeia distante, no sopé das montanhas. Mas perdemo-nos no caminho. O medo tomou conta de nós quando vimos pegadas frescas de puma junto a um riacho e, ao cair da noite, vagueámos sem direcção, com frio e ansiosos.

De repente, avistámos uma luz fraca ao fundo de uma encosta. Aquele pequeno brilho tornou-se o nosso farol. Seguindo-o, chegámos à casa de uma família de criadores de cavalos, que nos recebeu calorosamente. Ofereceram-nos sopa quente, uma lareira para nos aquecermos e um lugar seguro para dormir. A hospitalidade deles transformou o nosso medo em alívio, a luz deles em salvação.

Da mesma forma, a Igreja deve ser uma comunidade visível – um farol que guia os perdidos, abriga os vulneráveis e acolhe os cansados. Ela não se pode esconder como uma sociedade secreta; deve sempre brilhar como portadora da Boa Nova da salvação para o mundo inteiro.

Continuando o legado

O poderoso exemplo de fé e serviço aos marginalizados do padre Nicosia – superando preconceitos e dificuldades – continua a ser um legado que devemos continuar a defender. Como o sal, nunca devemos perder o nosso sabor; como a luz, nunca devemos esconder o nosso testemunho. Que as palavras de Jesus ecoem nos nossos corações: “Vós sois o sal da terra; Vós sois a luz do mundo”.

Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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