5.º DOMINGO DE PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR – Ano A – 3 de Maio

5.º DOMINGO DE PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR – Ano A – 3 de Maio

«Não se perturbe o vosso coração»: a missão que nunca compreenderam (João 14, 1–12)

O texto para a nossa reflexão provém de um trecho do Evangelho repleto de medo, situado entre a Última Ceia e a traição no Getsêmani. Olhando para ele numa perspectiva pós-Ressurreição, alude à Ascensão, que celebraremos no próximo Domingo.

É a noite que antecede a tempestade. Os acontecimentos chocantes da Última Ceia e a previsão da morte iminente de Jesus tornaram o ambiente pesado de medo. Durante três anos, estes homens caminharam com Jesus. Deixaram redes, postos de cobrança de impostos, famílias. Recrutaram outros. E, durante todo esse tempo, alimentaram uma esperança silenciosa: a restauração do reino davídico. Imaginavam Jesus num trono, eles próprios em tronos menores, os romanos afastados, Israel glorioso.

Agora Jesus diz que vai partir. Não para levantar um exército. Não para tomar o poder. Para ir ter com o Pai. Todo o seu projecto desmorona-se. Se o líder desaparecer, o que dirão às multidões que se juntaram a eles? Como explicar o fracasso? O medo aperta-lhes o coração – não um medo sagrado, mas o pânico cru de homens que apostaram tudo num sonho moribundo.

Jesus nunca esteve numa missão política. Desde o início, a sua missão era única: revelar o Pai. O prólogo diz claramente: «Ninguém jamais viu a Deus. É o Filho único, que está no seio do Pai, quem o revelou» (João 1, 18). Os discípulos nunca compreenderam este projecto. Viram milagres e pensaram: “Que rei poderoso!”. Viram os pães multiplicarem-se e pensaram: “Que grande gestor!”. Viram Jesus acalmar o mar e pensaram: “Que guerreiro divino”. Mas Jesus continuava a dizer: «O Filho não pode fazer nada por si mesmo, mas apenas o que vê o Pai fazer» (João 5, 19). A missão era a revelação. Eles queriam uma revolução.

Assim, nesta última noite, com a crucificação iminente e os sonhos desfeitos, os discípulos fazem perguntas reveladoras. Tomé questiona: «Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?». Tomé quer um GPS. Ele quer coordenadas. Filipe implora: «Senhor, mostra-nos o Pai, e isso será suficiente». Filipe quer uma teofania – uma sarça ardente, uma voz trovejante, uma visão espetacular.

Vejamos a ironia: eles estiveram com a auto-revelação do Pai durante três anos e ainda pedem indicações e efeitos especiais. Jesus mostrou-lhes o Pai em cada toque a um leproso, em cada perdão a uma adúltera, em cada refeição com os marginalizados, em cada lágrima junto ao túmulo de Lázaro. E ainda perguntam: «Quando é que o reino começa?».

A resposta de Jesus é paciente, mas incisiva: «Estive convosco todo este tempo, Filipe, e ainda não me conheces? Quem me viu, viu o Pai». Este é o cerne da revelação de João. No início do Evangelho, dois discípulos perguntam a Jesus: «Rabi, onde moras?». Jesus responde: «Vinde e vede» (João 1, 38-39). O paradoxo está agora resolvido. Onde vive Jesus? Ele vive no Pai, e o Pai vive nele. O seu “lugar” não é geográfico. É uma relação de habitação mútua total. Ver Jesus é ver o Pai, porque Jesus não tem existência separada do Pai. Cada palavra é a palavra do Pai. Cada toque é o toque do Pai.

É por isso que Jesus diz: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim». Ele não está a distribuir passaportes exclusivos. Está a afirmar um facto sobre a revelação. Se queres ver o Pai, olha para o Filho. Não há outro caminho, porque o Pai escolheu ser visto definitivamente no rosto de Jesus Cristo.

Depois vem o versículo intrigante: «Quem crer em mim fará as obras que eu faço, e fará obras maiores do que estas, porque eu vou para o Pai». Obras maiores? O que é maior do que ressuscitar os mortos? A resposta está na missão que eles nunca compreenderam. Jesus, sozinho, curava as pessoas de uma aldeia de cada vez. Ele pregava a uma multidão de cada vez. Mas quando regressa ao Pai, envia o Espírito Santo à comunidade. Agora a Igreja torna-se o seu corpo alargado. Agora, uma avó que perdoa um neto rebelde… faz a obra de Jesus! Agora, uma enfermeira que segura a mão de um estranho moribundo… faz a obra de Jesus! Agora, uma comunidade que se organiza para obter água potável… faz a obra de Jesus! As “obras maiores” não são milagres mais espectaculares. São a multiplicação da presença de Jesus através do tempo, do espaço e da cultura. A missão de revelar o Pai passa agora do Filho encarnado para a comunidade cheia do Espírito.

Esta passagem aborda directamente os nossos medos. Tal como os discípulos, apegamo-nos a projectos que Jesus nunca prometeu. Queremos sucesso, segurança, reconhecimento. Queremos um GPS para as nossas carreiras, um roteiro para os nossos filhos, um itinerário detalhado para a nossa reforma. Quando Jesus parece “partir”, ao deixar os nossos sonhos desmoronarem-se, os nossos corações ficam perturbados. Perguntamos com Tomé: “Para onde vais”». Perguntamos com Filipe: “Mostra-nos algo espetacular”.

Jesus responde como lhes respondeu: “Não se perturbe o vosso coração”.

O antídoto para o medo não é a certeza. É a confiança numa pessoa. E essa pessoa não é um libertador político, não é um GPS, não é um faz-milagres a pedido. Essa pessoa é o Filho que vive no Pai e nos convida a viver lá também. As “muitas moradas” na casa do Pai não são suites de hotel para a vida após a morte. São espaços de intimidade disponíveis para qualquer um que entre na relação que Jesus tem com o Pai. Viver na casa do Pai é viver como Jesus viveu: revelando o Pai em cada palavra e em cada acção.

Quando o teu coração estiver perturbado – por más notícias, relações rompidas, planos desfeitos – lembra-te do que os discípulos esqueceram. Jesus não veio para te dar um reino nos teus termos. Ele veio para te mostrar o Pai. E o Pai não é um monarca distante. O Pai é aquele que tanto amou o mundo que enviou o Filho. E o Filho diz-vos: «Acredita em Deus; acredita também em mim. Eu sou o caminho, a verdade e a vida». Não é um mapa. Não é uma visão. É uma pessoa. E essa pessoa basta. Amém!

Pe. Jijo Kandamkulathy, CMF

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