3º DOMINGO DA QUARESMA – Ano A – 8 de Março

3º DOMINGO DA QUARESMA – Ano A – 8 de Março

Jesus, a Fonte de Água Viva

A QUEIXA DE ISRAEL NO DESERTO

Neste Terceiro Domingo da Quaresma, as leituras destacam um tema bíblico recorrente: a água que sacia a sede humana. O povo, recém-libertado da escravidão no Egipto, revela a sua imaturidade e relutância em enfrentar as exigências da liberdade. Ansiando regressar ao seu lugar de escravidão, acusam Moisés de os ter levado para o deserto para ali morrerem. Ao fazê-lo, murmuram contra Deus. Não se tratava de ateísmo – desconhecido naquela cultura – mas de rebelião contra Aquele que os tinha libertado e mostrado inúmeros sinais do Seu amor e protecção.

Os lugares mencionados, Meribá e Massá, estão ligados a verbos de litígio e provocação. O povo estava a tentar o Senhor, entrando em conflito com Ele e duvidando do propósito do Seu plano. Eles clamavam: Ele nos trouxe para aqui, para morrermos!

Esta provocação difere do apelo de Jó a Deus enquanto sofria: «Detesto a minha própria vida; por isso, darei rédea solta à minha queixa e falarei com amargura da minha alma. Eu digo a Deus: Não me declare culpado, mas diga-me quais são as acusações que vós tendes contra mim» (Jó., 10, 1-2). Mesmo com dor, Jó ainda se dirigia ao Senhor com confiança: «Eu sei que o meu Redentor vive» (Jó., 19, 25).

No Êxodo, por outro lado, deparamo-nos com um acto flagrante de desconfiança quanto à fidelidade de Deus e uma ingratidão vergonhosa para com o Santo. No entanto, o Senhor, paciente e compreensivo com a imaturidade do Seu povo, ouviu a intercessão de Moisés. Ele ordenou a Moisés que batesse na rocha, e a água jorrou para saciar a sede da multidão.

JESUS E A MULHER SAMARITANA

A sede de Cristo aparece na leitura do Evangelho (João 4, 5–42). O motivo da Sua viagem é explicado nos versículos 3 e 4: «Ele deixou a Judeia e voltou para a Galileia. Mas tinha de passar pela Samaria».

Por que “teve de passar” pela Samaria, quando os judeus normalmente evitavam este território hostil? Porque precisava de encontrar a mulher junto ao poço e, por meio dela, chegar ao povo daquela aldeia. A Sua sede não era apenas física – era a sede de se envolver num “diálogo de salvação” que abriria o caminho para a fé e para a vida da referida mulher e dos aldeões. «Jesus, cansado da viagem, sentou-se junto ao poço, era cerca do meio-dia» (Jo., 4, 6).

Ao meio-dia, sob o calor intenso do Sol, o Seu cansaço tornou-o ainda mais sedento. Esta cena lembra outro momento de sede: quando Jesus estava pendurado na cruz, gritou: «Tenho sede» (Jo., 19, 28). Em ambos os casos, a Sua sede física aponta para um anseio espiritual mais profundo: o desejo de atrair almas para a Salvação.

Ele fez um grande esforço para chegar a uma pessoa, uma mulher e, ainda mais surpreendente, uma samaritana. Tal surpreendeu os Seus discípulos: «Eles ficaram surpreendidos por Ele estar a falar com uma mulher» (Jo., 4, 27).

Jesus rompe as barreiras culturais e de género quando a ela Se dirige. Toma a iniciativa, pede um favor, mostra a Sua necessidade e permite que ela O ajude. A Sua fome é pela alma daquela mulher. Passo a passo, Ele leva-a a conhecê-Lo.

TRÊS TIPOS DE BEBIDA

O texto fala de três tipos de bebida:

1. A bebida da idolatria – sugerida pelo nome da cidade, Sicar, relacionada com uma bebida forte e intoxicante. Representa vício, confusão e morte (cf. Obadias 1, 16).

2. A água do poço de Jacó – água física que sacia a sede apenas temporariamente. Simboliza a herança do Antigo Testamento de Israel, uma preparação para algo maior.

3. Água viva – a água espiritual que Jesus oferece, que traz vida eterna.

REVELAÇÃO DO MESSIAS

Depois que a mulher expressa surpresa com Jesus, um judeu pedindo-lhe água, Ele a desafia: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é aquele que te diz: “Dá-me de beber”, tu lhe terias pedido, e ele te teria dado água viva» (Jo., 4, 10).

Com paciência e gentileza, Jesus leva-a a desejar a “água viva”. Então pede-lhe que chame o seu marido. Ela responde honestamente que não tem marido. Jesus revela a sua situação: ela teve cinco maridos, e aquele que tem agora não é seu marido, o que perfaz seis maridos falsos. O número seis transmite imperfeição, e o substantivo “marido” pode aludir a ídolos ou divindades cananeias (Baals), ligando-a à adoração falsa. Os samaritanos tinham traços da religião de Israel, mas misturavam-nos com outros cultos. Neste contexto, Jesus declara: «A salvação vem dos judeus».

Gradualmente, a mulher chega à fé: primeiro reconhecendo-O como profeta (versículo 19), depois como o Messias (v. 26) e, finalmente, com os seus conterrâneos, como «o salvador do mundo» (v. 42).

A mulher regressa à sua cidade cheia de entusiasmo. Deixa para trás o seu jarro de água (v. 28), pois encontrou a verdadeira fonte de vida. Torna-se missionária, anunciando Jesus ao seu povo.

ÁGUA VIVA PARA TODOS

Como Paulo testemunha na Segunda Leitura: «O Espírito Santo foi derramado nos nossos corações».

Este é o dom que Jesus ofereceu à mulher (v. 10), derramado como água viva da verdadeira rocha, ferida pela lança do soldado: «Um dos soldados perfurou-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água» (Jo., 19, 34).

DESAFIOS PARA HOJE

As leituras convidam-nos a reflectir sobre a nossa própria sede. Tal como Israel no deserto, podemos sentir-nos tentados a duvidar do plano de Deus ou a queixar-nos quando a liberdade nos parece exigente. Tal como a mulher samaritana, podemos procurar satisfação em “bebidas falsas” que nos deixam vazios e viciados.

O desafio é reconhecer a nossa sede mais profunda – a sede de Deus – e permitir que Cristo a sacie com a Sua água viva. Significa isto:

. Confiar na fidelidade de Deus, mesmo quando a vida parece um deserto.

. Quebrar barreiras como Jesus fez, estendendo a mão aos excluídos ou marginalizados.

. Tornar-nos testemunhas como a mulher samaritana, deixando para trás os nossos “jarros de água” de velhos hábitos e correndo a partilhar a Boa Nova.

O Senhor ainda tem sede – da nossa fé, do nosso amor e da nossa vontade de sermos os Seus instrumentos. Vamos deixar que Ele sacie a nossa sede e, através de nós, ofereça água viva ao mundo?

Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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