2º DOMINGO DA QUARESMA – Ano A – 1 de Março

2º DOMINGO DA QUARESMA – Ano A – 1 de Março

Sem tendas na montanha

A viagem até à montanha da transfiguração foi uma experiência surpreendente para os discípulos. O homem com quem tinham caminhado, conversado e comido, apareceu de repente diante deles na sua original natureza divina. Pedro, Tiago e João subiram a montanha naquele dia, sem esperar nada mais do que uma viagem com o seu mestre. No entanto, mergulharam num mistério que destruiu todas as categorias que possuíam. O rosto de Jesus, para eles tão familiar, torna-se luz ofuscante. Dois heróis, Moisés e Elias, que morreram há séculos, aparecem e conversam com Ele. E, naquele momento, algo acontece dentro de cada um deles que é mais complexo do que simples admiração.

Pedro fala, e as suas palavras traem-no. «Senhor, é bom estarmos aqui. Se quiseres, farei três tendas…». Mas oiça o que realmente está a ser dito. Pedro não está apenas a oferecer hospitalidade; está a tentar controlar o incontrolável. A transfiguração aterroriza-o, precisamente porque excede a sua compreensão e a mente humana, sendo que esta, quando confrontada com um mistério avassalador, recorre ao que conhece. Tendas. Abrigos. Algo para fazer. Pedro não consegue simplesmente receber este momento; precisa de o controlar, de o conter, de o reduzir a algo que ele compreenda. A oferta de construir tendas é um mecanismo de defesa contra a pura alteridade do que está a testemunhar.

E há algo mais: naquele momento, Pedro vislumbra a possibilidade de que Jesus possa não ser o Messias que ele deseja – um libertador político, um restaurador da glória de Israel. Moisés e Elias estão a falar de partida, de êxodo. A palavra no Evangelho de Lucas é carregada de significado: evoca o primeiro êxodo, mas também aponta para a morte. O inconsciente de Pedro regista essa ameaça e a sua resposta é congelar o momento, manter Jesus para sempre nesse estado glorioso, impedir a descida que se seguirá. «É bom que estejamos aqui» é, no seu nível mais profundo, um apelo: vamos ficar! Não desçamos. Não se deixe que isto termine da forma como parece que vai terminar.

Tiago e João nada dizem. O seu silêncio é um tipo de terror. Foram levados a uma altura que nunca imaginaram, apenas para descobrir que é vertiginosa e insegura. A voz da nuvem em breve os deixará prostrados, deitados de bruços na terra, incapazes de olhar. Esta é a verdade psicológica do encontro com o divino: não nos deixa confortáveis. Expõe-nos. Despoja-nos das nossas pretensões. Estes homens, que discutiram sobre quem era o maior entre eles, jazem agora no chão, sem palavras, com medo.

Mas olhemos para Jesus. A sua experiência deste momento é totalmente diferente, e é aí que reside verdadeiramente a profundidade psicológica. Ele está na mesma luz, ouve a mesma voz, mas para Ele não é um terror, mas uma confirmação. As palavras do Pai – «Este é meu Filho amado, em quem muito me agrado; ouvi-o» – não são novas. Ele ouviu-as no seu baptismo. Mas agora surgem com um peso específico. A conversa com Moisés e Elias foi sobre Jerusalém, sobre o sofrimento que os espera. A voz do Pai não é um consolo que ignora esse sofrimento; é uma garantia de que o próprio sofrimento é o caminho da filiação. Jesus recebe a sua identidade não apesar da cruz, mas precisamente nela e através dela.

Este é o abismo psicológico entre Jesus e os seus discípulos. Eles estão no mesmo lugar, ouvem a mesma voz, mas as suas almas estão orientadas em direcções opostas. Para os discípulos, a montanha é uma fuga do vale. Para Jesus, a montanha é a fonte de força para entrar mais plenamente no vale. Eles querem construir tendas e ficar. Ele deve descer e caminhar em direcção ao Gólgota. A mesma experiência, recebida por corações diferentes, produz frutos totalmente diferentes.

A descida da montanha é, portanto, o momento mais revelador de todos do ponto de vista psicológico. Jesus toca-os – aquele toque gentil e restaurador – e diz: «Levantai-vos e não tenhais medo». Ele não repreende Pedro pela oferta descabida de tendas. Ele não faz pirraça do seu terror. Simplesmente os traz de volta a si mesmos, de volta a Ele, de volta ao normal. E quando levantam os olhos, já Moisés e Elias se foram. A nuvem se foi. Há apenas Jesus, com a mesma aparência de sempre, caminhando pelo mesmo caminho empoeirado em que eles sempre caminharam.

Mas Ele não é o mesmo. E nem eles, embora ainda não saibam disso. Algo foi plantado neles que só dará frutos após a ressurreição, após a descida ao seu próprio fracasso, após o longo processo de trauma e graça. A ordem de não contar a ninguém até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos não é uma questão de tempo. Trata-se de integração. Eles não podem falar da glória até que tenham vivido a vergonha. Não podem pregar a transfiguração até que tenham estado debaixo da cruz, questionando constantemente se tudo em que acreditavam era mentira.

Esta é a jornada que todos nós fazemos. São-nos dados momentos de clareza, de intimidade, de certeza transcendente. E o nosso primeiro impulso, como o de Pedro, é construir tendas – congelar o momento, possuí-lo, torná-lo uma fuga permanente das ambiguidades da vida comum. Mas a voz da nuvem não diz: «Fica aqui para sempre». Ela diz: «Ouve-o». E ouvi-lo significa segui-lo montanha abaixo, para o vale, para os lugares onde a glória está escondida, a fé é testada e o amor é exigido, não na luz brilhante, mas no crepúsculo cinzento da fidelidade diária.

A mesma estrada, percorrida por corações diferentes, leva a destinos diferentes. Pedro acabará por compreender. Mas ainda não. Por agora, ele deve simplesmente levantar-se, não ter medo e caminhar com Jesus em direcção a um futuro que ainda não consegue imaginar.

Pe. Jijo Kandamkulathy, CMF

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