A Graça da Humildade de que necessitamos antes da Conversão
A parábola dos dois filhos de hoje deveria lembrar-nos de uma outra parábola que apresenta dois filhos – a Parábola do Filho Pródigo. A parábola dos dois filhos revela factos muito importantes sobre a condição da pessoa humana após o pecado original e a possibilidade de conversão do pecado e da morte para a virtude e a vida. Isto, por sua vez, deve explicar a razão pela qual Jesus disse que os cobradores de impostos e as prostitutas estavam a entrar no Reino de Deus antes dos chefes dos sacerdotes e dos anciãos, os líderes religiosos judeus que muitas vezes eram considerados como “garantidos” no céu. Finalmente, a parábola deve levar-nos a considerar o exemplo do Senhor Jesus e a Sua vida de obediência como a grande resposta aos perfis dos dois filhos na parábola.
O filho que diz “não”, mas que mais tarde muda de ideias, prova que a conversão e a mudança são possíveis. A súbita mudança de coração mostra-nos que ninguém está além da conversão e que a graça de Deus pode superar qualquer dureza de coração. Por esta razão, nunca devemos considerar ninguém como “irrecuperável”. Se a pessoa humana quiser mudar, Deus providenciará sempre a graça para que isso aconteça. E até o desejo de mudar, lembra-nos Santo Agostinho, já é, por si só, uma graça.
Rumo ao fim do Evangelho de hoje, Jesus adverte os líderes religiosos dos judeus de que os cobradores de impostos e as prostitutas estavam a entrar no Reino de Deus antes deles. Porquê? O que significava isso? Como tal seria possível? Afinal, os cobradores de impostos e as prostitutas eram considerados pecadores de primeira classe. Como podiam essas pessoas entrar no céu antes das pessoas religiosas, que eram consideradas pelos judeus como apostas seguras para o céu? A razão é simples: Jesus adverte os chefes dos sacerdotes e os anciãos dos judeus para não se tornarem excessivamente confiantes de que a sua posição na sociedade ou a sua linhagem como judeus serviriam como um passe livre para o céu. A conversão dos cobradores de impostos e das prostitutas, sugere Cristo, foi mais sincera – mais autêntica. Estas conversões basearam-se no reconhecimento humilde da sua condição de pecadores e num desejo profundo de se arrependerem e fazerem as pazes. Os chefes dos sacerdotes e os anciãos, afirma Nosso Senhor, eram culpados do pecado da presunção, visto que não viam necessidade para a sua própria conversão, com base no seu estatuto. Ao contrário dos líderes religiosos dos judeus, os cobradores de impostos e as prostitutas estavam a aprender a tornar-se mais infantis – completamente dependentes da graça de Deus.
Finalmente, devemos observar que a obediência de Cristo é a grande resposta à rebeldia dos dois filhos. Cristo é o filho ideal – aquele que diz que obedecerá à ordem do Pai e de facto FÁ-LO. Se a parábola devesse incluir um terceiro filho – o filho ideal –, teria descrito o Senhor. Em Cristo, não há qualquer traço de rebeldia. Ele nunca vê a vontade do Pai como uma restrição à Sua liberdade. Pelo contrário, Ele encontra liberdade e glória na obediência. Cristo é sempre digno da nossa imitação – para deixar que o nosso “sim” signifique “sim” e para fazermos aquilo que dizemos que vamos fazer. Às vezes, podemos partir com grandes ambições espirituais, apenas para nos vermos aquém das expectativas.
Mas isto não nos deve deixar desanimados. A graça de Deus é sempre suficiente para avançarmos com os corações arrependidos.
Até que imitemos consistentemente o Senhor Jesus e evitemos o exemplo dos dois filhos rebeldes, encontrar-nos-emos ou a lutar contra Deus nos nossos corações ou a iludir-nos, pensando que não temos necessidade de uma conversão contínua, tal como os anciãos e chefes dos sacerdotes judeus. Portanto, rezemos para que aceitemos a Graça da Humildade para nos tornarmos como criancinhas mais uma vez. Rezemos para que esta humidade nos obrigue a ver a verdade sobre quem realmente somos aos olhos do Pai. E rezemos para que tenhamos a força de vontade para levar por diante o nosso desejo de dizer um “sim” diário às ordens do Pai como o nosso caminho para a liberdade e para a glória celestial.
Pe. Leonard Dollentas

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