A generosidade que ofende

25º DOMINGO COMUM – Ano A – 20 de Setembro

A generosidade que ofende

No último Domingo, reflectimos sobre a aritmética da mente calculista e implacável. Há outra aritmética silenciosa que corre sob as nossas vidas e sobre a qual reflectimos hoje. Nós medimos. Comparamos. Calculamos o que merecemos e o que os outros merecem. Olhamos para a porção do nosso vizinho e sentimos o peso da nossa. Não é ganância, propriamente dita. É algo mais subtil. É a crença de que a justiça significa igualdade. Que a justiça significa salário igual para trabalho igual. Que o universo deveria operar numa escala que possamos compreender e prever. Esta é a aritmética da mente calculista. E é precisamente esta aritmética que Jesus desafia na parábola de hoje.

O proprietário da vinha sai ao amanhecer para contratar trabalhadores. Ajusta com eles o salário diário habitual. É um salário justo. É o que eles esperavam. É o que precisavam para alimentar as suas famílias. Vão para a vinha com uma sensação de segurança. Foram escolhidos. Foram contratados. Sabem o que vão receber.

Mas o proprietário não se fica por aí. Sai novamente por volta das 9:00 horas. Vê outros desocupados na praça. Contrata-os também. Promete-lhes o que for justo. Não especifica uma quantia. Diz simplesmente: «– Dar-vos-ei o que for justo». E eles confiam nele. Vão para a vinha.

Ele sai novamente ao meio-dia. Outra vez às 3:00 horas. Outra vez às 5:00 horas. De cada vez encontra pessoas desocupadas. De cada vez envia-as para a vinha. O último grupo é contratado quando falta apenas uma hora para terminar o dia de trabalho. Não fizeram quase nada. Mal tiveram tempo de colher uma única uva. E, no entanto, ao cair da tarde, o proprietário dá-lhes o mesmo salário que deu aos que trabalharam o dia inteiro.

É aqui que a aritmética da mente calculista começa a protestar. Aqueles que trabalharam desde o amanhecer vêem o que os últimos recebem. Esperam mais. Querem ganhar mais. Suportaram o peso do dia e o calor ardente. Foram fiéis desde o início. Merecem mais. É apenas justo. É apenas equitativo. E quando recebem o mesmo salário, murmuram. Não murmuram sobre o seu próprio salário. Receberam exactamente o que haviam ajustado. Murmuram sobre a generosidade demonstrada para com os outros. Murmuram porque outra pessoa recebeu o que não “merecia”. Murmuram porque o proprietário foi generoso. E a resposta do proprietário é surpreendente: «– Meu amigo, não te estou a enganar. Não ajustaste comigo o salário diário habitual? Leva o que é teu e vai-te embora. E se eu quiser dar a este último o mesmo que a ti? Ou não sou livre de fazer o que quero com o meu próprio dinheiro? Estás com inveja porque eu sou generoso?». A pergunta vai directa ao coração. Estás com inveja porque eu sou generoso?

Os salários não são injustos. O primeiro grupo de trabalhadores recebeu o que lhe foi prometido. Ora, a queixa não é sobre a porção. A queixa é sobre a porção dos outros. Não estão zangados por terem sido tratados injustamente. Estão zangados porque outra pessoa foi tratada com generosidade. Estão zangados porque a generosidade do proprietário excedeu a expectativa de justiça deles.

Mas há outra aritmética a funcionar aqui. Pensem na dor destes trabalhadores. Imaginem-nos de pé na praça desde o amanhecer até às 5:00 horas da tarde. A ver os outros serem contratados. A ver os fortes, os capazes, os preferidos a serem escolhidos. E, de cada vez, são deixados de lado. De cada vez, são ignorados. De cada vez, são lembrados de que não são suficientemente bons. O Sol bate-lhes na cabeça. O pó cai sobre eles. Os seus estômagos roncam. Os filhos esperam em casa. As esposas preocupam-se. Os pais dependem deles. E eles não têm nada. Estão de mãos vazias e sem palavras para falar com as suas famílias. Quem paga pela ansiedade que carregam? Quem os compensa pela rejeição que sofrem? Quem conta as noites sem dormir? Quem calcula o peso de voltar para casa com os filhos famintos e dizer-lhes que não há comida? Quem mede a humilhação de ser julgado indigno de trabalhar? A mente calculista não conta estas coisas. A mente calculista apenas conta as horas. A mente calculista apenas mede o rendimento. A mente calculista apenas vê a produtividade. Mas Deus encara de forma diferente. Deus vê a pessoa inteira. Deus vê o sofrimento que os outros ignoram. Deus vê a rejeição que os outros infringem. Deus vê a ansiedade que os outros causam. E Deus recompensa não apenas pelo cansaço físico, mas também pela agonia mental. Deus paga pela dor da espera. Deus compensa a picada da rejeição. Deus honra a dignidade daqueles que foram desonrados.

O proprietário da parábola não está a pagar aos últimos por uma hora de trabalho. Está a pagar-lhes por uma vida inteira de sofrimento. Está a pagar-lhes pela ansiedade que carregaram. Está a pagar-lhes pela rejeição que suportaram. Está a pagar-lhes pela humilhação que sofreram. Está a dar-lhes o que precisam para alimentar as suas famílias e restaurar a sua dignidade. Está a ver o que os outros se recusaram a ver. Está a honrar o que os outros se recusaram a honrar. Esta é a justiça mais profunda da parábola. O primeiro grupo de trabalhadores não conseguia ver isto. Estava preso na aritmética da mente calculista. Media o seu valor pelo trabalho realizado. Media o seu valor pelas suas horas. Media a sua dignidade pelos seus méritos. E, nessa medição, não conseguia ver o rosto do proprietário. Apenas conseguiam ver o rosto dos últimos e ressentir-se deles. Não conseguiam ver compaixão. Apenas conseguiam ver desigualdade. Não conseguiam ver amor. Apenas conseguiam ver injustiça. O proprietário deu generosamente não porque os últimos o merecessem, mas porque precisavam. Deu abundantemente não porque merecessem, mas porque estavam a sofrer. Deu plenamente não porque produzissem muito, mas porque tinham suportado muito. E então Jesus pronuncia as palavras finais: «Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos». Isto não é uma inversão de fortuna. É uma inversão de visão. Os últimos são os primeiros não porque são promovidos, mas porque são vistos. Os primeiros são os últimos não porque são despromovidos, mas porque se prenderam nos seus próprios cálculos.

O reino dos céus não é um sistema de mérito. É um sistema de misericórdia. Não é uma escada para ser subida. É uma mesa para ser partilhada. Não é um salário para ser ganho. É um dom para ser recebido. Por isso, neste dia, pergunto-me: Onde estou preso na aritmética da mente calculista? Com quem me estou a comparar? De quem me estou a ressentir por causa da generosidade de Deus para com eles? Quem estou a medir em vez de amar?

E mais importante, quem estou a ignorar? Quem estou a deixar passar porque não parece valioso? Quem estou a rejeitar porque não parece produtivo? Com quem estou a falhar por não ver o seu sofrimento? A resposta é desconfortável. Mas a resposta é o caminho. O caminho para fora da prisão da comparação. O caminho para a liberdade da generosidade. O caminho para o coração do proprietário, que dá não porque merecemos, mas porque ele é bom. Que dá não porque ganhámos, mas porque ele ama. Que dá não porque somos os primeiros, mas porque somos seus. Que paga não apenas pelo nosso trabalho, mas também pela nossa dor. Que vê não apenas o nosso trabalho, mas também as nossas feridas. Que compensa não apenas o nosso esforço, mas também a nossa ansiedade. Que recompensa não apenas as nossas horas, mas também os nossos corações.

Pe. Jijo Kandamkulathy, CMF

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