Os fragmentos que nos escapam
Jesus retira-se. É aí que a história começa. Acaba de receber a notícia da execução de João Baptista. O seu primo, o seu precursor, a voz que preparou o seu caminho – decapitado numa cela de prisão por causa do capricho de uma dançarina. Jesus não prega. Não cura. Retira-se. Entra num barco e vai sozinho para um lugar deserto. Este é o primeiro movimento do Evangelho de hoje: a dor que procura a solidão. Até o Filho de Deus, quando atingido pela perda, precisa de estar sozinho. Ele não supera a dor com acções. Honra-a. Dá a si próprio espaço para sentir o peso de uma vida interrompida prematuramente.
Mas as multidões seguem-no. Correm ao longo da margem, à volta do lago, e quando Jesus desembarca, já lá estão, à espera. A sua solidão é quebrada. A sua dor é interrompida. «O seu coração encheu-se de compaixão por eles». A palavra grega é “splagchnizomai” – uma compaixão visceral, uma comoção nas entranhas. Ele não se ressente com a interrupção. Ele não esconde a sua dor. Ele abre o seu coração à necessidade que tem diante de si e cura os doentes. Esse é o segundo movimento: a compaixão que se sobrepõe à auto-preservação. Jesus é um exemplo de um tipo de amor que não se fecha sobre si mesmo, mesmo na dor.
Chega a noite. Os discípulos, práticos como sempre, abordam-no com uma solução: mandar a multidão embora. Que procurem comida nas aldeias. É uma sugestão razoável. Estão cansados. As pessoas têm fome. A logística é impossível. Mas Jesus diz algo irracional: «Dai-lhes vós mesmos de comer». Não lhes diz para rezarem por um milagre. Diz-lhes para agirem. Coloca o fardo sobre os ombros deles. E eles respondem com a voz da insuficiência: «Cinco pães e dois peixes é tudo o que temos aqui». Psicologicamente, este é o grito do “eu” pequeno. Olhamos para os nossos recursos – o nosso tempo, a nossa energia, o nosso talento – e concluímos: não é suficiente. Nem de longe suficiente. Temos razão. Mas Jesus não lhes está a pedir que calculem. Está a pedir-lhes que ofereçam.
«Tragam-nos aqui para mim». Esse é o terceiro passo. O pouco que temos levado até Ele. Não escondido. Não acumulado. Não descartado como sem valor. Levado. Jesus pega nos cinco pães e nos dois peixes, olha para o céu, profere a bênção, parte os pães e dá-os aos discípulos. O padrão é inconfundível: Ele pega, abençoa, parte, dá. O mesmo padrão da Eucaristia. Mas aqui, o pão não é o seu corpo – é a oferta modesta dos seus seguidores. E ele multiplica-a. Não a partir do nada, mas a partir do pouco que eles tinham. O milagre começa com a oferta da insuficiência.
Os discípulos viram a multidão e viram um problema. Viram a fome e viram os limites da sua própria capacidade. Mas Jesus viu a multidão e viu outra coisa. Viu a abundância do Pai. Viu que o pouco poderia tornar-se muito, se fosse entregue. O milagre não é um truque de magia. É uma revelação de como Deus actua com a nossa pequenez. Deus não nos pede que sejamos suficientes. Deus pede-nos que estejamos disponíveis. Pede-nos que levemos o que temos – mesmo que pareça ridiculamente pouco – e o coloquemos nas suas mãos. E então, Ele abençoa, parte e devolve-nos, multiplicado.
Todos nós estamos familiarizados com esta dinâmica na vida espiritual. Sentimos que não temos nada para oferecer. Nem sabedoria, nem santidade, nem energia, nem amor. E temos razão – se olharmos para os nossos próprios recursos. Mas Jesus diz: «Tragam-nos aqui para mim». Ele não despreza os cinco pães. Ele abençoa-os. Ele honra a oferta, por mais pequena que seja. E depois parte-os. Há um partir que precede a multiplicação. Os pães não são multiplicados inteiros; são partidos e distribuídos. Esse é o padrão da graça. As nossas vidas, os nossos dons, o nosso próprio ser, têm de ser partidos – abertos, partilhados, oferecidos – antes de poderem alimentar os outros. O ego resiste a este partir. Quer manter os pães intactos, preservar a sua integridade. Mas a integridade, quando não partida, não nutre.
Agora temos de nos perguntar: Quais são os cinco pães e os dois peixes na minha vida? Qual é a pequena e insuficiente oferta que estou a reter? Talvez seja o meu tempo, a minha atenção, o meu perdão, a minha disponibilidade para ouvir, a minha fé escassa. Olho para isto e penso: «Isto não é nada. Não pode, de forma alguma, fazer a diferença». Mas Jesus diz: «Traz-mo aqui». Ele aceita-o. Abençoa-o. Parte-o. E devolve-mo para que eu o distribua. O milagre não é que Ele me torne rico. É que Ele torna a minha pobreza frutífera. A minha insuficiência, oferecida a Ele, torna-se suficiente para os outros.
E depois há a dor. Jesus começou esta história em tristeza. Retirou-se para ficar sozinho. Mas não permaneceu isolado. Deixou que a necessidade da multidão o tirasse da sua solidão. A sua compaixão não esperou que a sua dor sarasse. Agiu a partir da própria dor. Essa é a lição mais profunda. Muitas vezes esperamos até estarmos curados para servir. Esperamos até termos o suficiente, até nos sentirmos fortes o suficiente, até as nossas feridas estarem curadas. Mas Jesus serve a partir da sua ferida. Ele alimenta a multidão enquanto o seu próprio coração está a sangrar. Ele não espera pelo estado emocional certo. Ele age com amor, apesar da sua dor.
A alimentação dos cinco mil não é uma história sobre abundância. É uma história sobre rendição. Rendição na dor. Rendição à insuficiência. Rendição ao “quebrantamento”. E é uma história sobre o que acontece quando deixamos que o pouco que temos seja abençoado, partido e dado. Tornamo-nos o alimento para um mundo faminto. Não pela nossa própria força. Mas pela sua bênção sobre a nossa pobreza.
Pe. Jijo Kandamkulathy, CMF

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