Joio e Trigo: Tempo de Misericórdia e de Conversão

16º DOMINGO COMUM – Ano A – 19 de Julho

Joio e Trigo: Tempo de Misericórdia e de Conversão

Este Evangelho (Mt., 13, 24–30) apresenta-nos a célebre parábola do joio e do trigo crescendo juntos. Jesus conta que um homem semeou boas sementes no seu campo, mas, durante a noite, um inimigo veio e semeou joio no meio do trigo. Quando as plantas cresceram e a diferença se tornou evidente, os servos queriam arrancar imediatamente o joio. Mas o dono respondeu: «– Não. Pode acontecer que, ao tirar o joio, arranquem também o trigo. Deixai-os crescer ambos até à ceifa».

Muitas vezes, a nossa primeira reacção, quando vemos incoerências, escândalos ou fraquezas nos outros, é semelhante à dos servos, que desejam uma justiça imediata, um “ajuste de contas” já – sobretudo quando o mal nos atinge de perto. Deus não é indiferente ao mal, à injustiça ou ao pecado, porém, Ele conhece o coração de cada pessoa, conhece as suas histórias, as feridas e os condicionamentos. Esta parábola lembra-nos de que vivemos num tempo de misericórdia, em que temos de dar espaço à conversão. O joio não é arrancado imediatamente porque o Senhor não desiste de ninguém. Ele oferece a todos a oportunidade de se transformarem.

O Papa Bento XVI, na sua reflexão sobre a misericórdia divina, recordou-nos que “estamos a viver um tempo de graça, não de condenação”. A Igreja é, antes de tudo, um hospital de almas, não um tribunal. A nossa vocação é acolher, curar e acompanhar aqueles que estão longe, não expulsá-los. Se arrancarmos o joio precipitadamente, corremos o risco de arrancar também o trigo, prejudicando aqueles que ainda estão em processo de conversão.

Este ensinamento de Cristo serve para nos educar e revela que o Senhor não nos confiou a tarefa de classificar as pessoas em joio ou trigo. A nossa missão não é exercer o papel de juízes.

Santo Agostinho, ao reflectir sobre esta parábola, afirmava que “ninguém pode estar absolutamente certo de sua própria santidade”, convidando-nos a reconhecer que todos nós somos, ao mesmo tempo, santos e pecadores, em processo de conversão. Portanto, quem somos nós para condenar o irmão? A nossa missão deve ser, antes de tudo, deixar que o trigo cresça em nós, se fortaleça e dê fruto. O mal que vemos nos outros não deve ser o foco principal da nossa vida espiritual. O que Deus nos pede é a conversão pessoal e a busca incessante pela santidade.

Esta parábola não deve ser encarada como uma janela, através da qual observamos “o joio na Igreja”. Se focamos apenas nos defeitos dos outros, corremos o risco de alimentar uma ilusão: a de que nós somos apenas trigo, e os problemas da Igreja estão sempre nos outros. Esta parábola deve ser antes vista como um espelho que se reflecte sobre nós e nos leva a reconhecer que, dentro de cada um de nós, há joio e trigo, que há desejos de Deus, de santidade, de amor verdadeiro, mas que, às vezes, também há egoísmo, orgulho, incoerência e pecados.

Santa Teresinha do Menino Jesus viveu numa pequena comunidade religiosa onde certamente havia fraquezas, temperamentos difíceis, incompreensões. Ela não passou a vida a classificar as irmãs como joio ou trigo. Ao contrário, procurava amar concretamente quem lhe era difícil, oferecer pequenos sacrifícios, responder com mansidão. Foi assim que, sem arrancar ninguém do “campo”, ela se tornou uma grande santa e ajudou a transformar o ambiente à sua volta.

Mas é importante termos consciência de que a misericórdia não é sinónimo de conivência ou passividade diante do mal. É um modo de tratar o pecador como alguém que pode ser transformado, não como alguém que deve ser descartado. É olhar para o irmão que erra e pensar: “Ainda não é a colheita; ainda é tempo de mudança; como posso ajudá-lo a reencontrar o caminho?”.

Que esta parábola nos ajude a abandonar a tentação de dividir a Igreja entre “bons” e “maus” e nos convide a perguntar, com humildade: Que joio ainda tolero dentro de mim? Em que áreas da minha vida estou a adiar a conversão, como se o tempo de misericórdia fosse infinito? Que o nosso foco não seja a condenação dos outros nem a de nós próprios, mas sim o caminho rumo à santidade. Que a nossa oração seja de confiança de que o Espírito Santo nos guiará pelo caminho do Senhor, fortalecendo-nos para enfrentar os desafios que temos pela frente e protegendo-nos de tudo o que nos desvie Dele.

Aproveitemos este tempo para crescer em santidade e ajudar os nossos irmãos a encontrar o caminho de volta para o Pai. Que a nossa Igreja seja verdadeiramente um sinal de misericórdia num mundo que tanto precisa dela. É assim que, sem arrancar ninguém do campo, colaboramos para que o trigo se fortaleça, o joio perca espaço e, quando chegar a colheita, o Senhor encontre muitos frutos de misericórdia, de conversão e de amor.

Padre Daniel Ribeiro, SCJ

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