Um companheiro para carregar o teu jugo (Mt., 11, 25–30)
A alma tem um cansaço que o sono não consegue aliviar. Não é o cansaço de um longo dia nem a exaustão do trabalho físico. É algo mais profundo. É a fadiga de carregar aquilo que nunca deveria ter sido carregado. Carregamos a nossa reputação, os nossos fracassos, as nossas vergonhas secretas. Carregamos o peso de ter de agradar a toda a gente. Carregamos o fardo de ter de provar que somos importantes. E, algures por baixo de tudo isto, carregamos a carga mais pesada de todas: a suspeita silenciosa de que não somos suficientes e nunca o seremos.
Nesta fadiga, Jesus fala. Não aos confiantes. Não aos eruditos. Não àqueles que já perceberam o sentido da vida. Ele fala aos cansados e aos oprimidos. Ele fala àqueles que deixaram de fingir. E o que Ele diz é surpreendente: «Vinde a mim, todos vós, que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos darei descanso». Não é um sermão. Não é uma lista de melhorias. É um convite. É uma porta aberta.
Jesus não está a oferecer uma fuga das dificuldades. Não está a prometer que a vida se tornará fácil. Está a oferecer algo mais radical. Está a oferecer um tipo diferente de jugo. Um jugo que se adapta. Um jugo que não irrita. Um jugo que é partilhado.
A imagem é de origem agrícola. Um jugo é uma estrutura de madeira que une dois animais para puxarem uma carga. No mundo antigo, era um símbolo comum de submissão e trabalho. Assumir um jugo significava aceitar um mestre, um ensinamento, um modo de vida. Os fariseus falavam do jugo da Lei. Os romanos falavam do jugo do Império. Cada sistema, cada ideologia, cada expectativa impõe-nos um jugo. E a maioria dos jugos é pesada porque não foi feita para nós. São feitos para outra pessoa, moldados à medida de outra pessoa. Lutamos sob o seu peso, tentando adaptar-nos a formas que nunca foram destinadas aos nossos ombros.
Mas Jesus diz que o seu jugo é suave. O seu fardo é leve. Não porque não haja peso, mas porque o jugo se adapta perfeitamente àquele que o usa. No mundo antigo, um carpinteiro sábio fabricava um jugo especificamente para os bois que o iriam usar. Media-lhes o pescoço, os ombros, o passo. O jugo não era um molde genérico. Era feito à medida. É isto que Jesus oferece. Uma vida moldada precisamente para mim. Não uma santidade genérica. Não uma religião de “tamanho único”. Um jugo que me sustenta sem me esmagar. Um fardo em que tenho força suficiente para o carregar, porque Ele o carrega comigo.
E qual é a condição para receber este descanso? Não é a inteligência. Não são as conquistas. Jesus dá graças ao Pai por estas coisas terem sido ocultadas aos sábios e reveladas aos pequeninos. Há aqui uma suave ironia. Os eruditos, os sofisticados, aqueles que dominam sistemas e argumentos – muitas vezes não percebem a simplicidade do convite. Estão demasiado ocupados a construir estruturas. Demasiado ocupados a provar. Demasiado ocupados a gerir. O pequenino, em contrapartida, não tem nada a provar. A criança simplesmente recebe. Mãos abertas. Boca aberta. Nada para oferecer além da necessidade. E essa necessidade é suficiente.
Penso na minha própria oração. Tantas vezes é uma encenação. Tento dizer as palavras certas. Tento sentir os sentimentos certos. Tento ser digno de atenção. Tudo isto é desgastante. Tudo isto sou eu a tentar carregar um jugo que nunca me foi destinado. A oração do bebé é diferente. Não é uma encenação. É um choro. Não é eloquência. É presença. “Abba, estou aqui. Estou cansado. Abraça-me”. Esta é a oração que abre a porta. Esta é a oração que encontra descanso.
Jesus descreve-se a si próprio como manso e humilde de coração. Isto não é fraqueza. É a força que não precisa de impressionar. A força que consegue inclinar-se sem perder a dignidade. A força que consegue lavar os pés. A força que consegue ser ridicularizada e permanecer em silêncio. É para este coração que sou convidado. Se quero descanso, tenho de aprender com esta mansidão. Tenho de deixar de me esforçar. Deixar de fingir. Deixar de tentar ser alguém que não sou. Tenho de me deixar abraçar.
Um jovem monge dirigiu-se ao seu ancião e disse: «– Abba, tenho-me esforçado tanto para rezar. Tenho lutado há anos. Li as Escrituras. Cumpri os jejuns. Mas não sinto paz. O que estou a fazer de errado?». O ancião olhou para ele com ternura e disse: «– Estás a tentar voar antes de teres aprendido a sentar-te. Senta-te na presença de Deus. Deixa que Ele olhe para ti. Deixa-te ser olhado. Não tentes tornar-te em algo. Fica simplesmente onde estás e deixa que Ele fique contigo». O jovem monge chorou. Tinha vindo a carregar o fardo do seu próprio esforço. O ancião ofereceu-lhe um jugo diferente. O jugo de ser amado antes de ser bom. O jugo de ser acolhido antes de ser santo.
Aprendam comigo. Este é o cerne do convite. Não é trabalhar para mim. Não é impressionar-me. Não é ganhar algo de mim. É aprender comigo. A palavra sugere um período de aprendizagem. Uma aprendizagem lenta, paciente e diária. Aprendo não lendo sobre a mansidão, mas sim sentando-me ao lado de quem é manso. Aprendo a descansar ao descansar. Aprendo a confiar ao confiar. Aprendo a render-me ao render-me. Não é um programa de estudos. É uma companhia.
E depois a promessa final: E encontrareis descanso para as vossas almas. Não apenas descanso para os vossos corpos, embora isso seja bem-vindo. Não descanso das vossas circunstâncias, embora isso seja almejado. Descanso para as vossas almas. A parte mais profunda de vós. A parte que tem estado a correr, a esforçar-se, a esconder-se, a representar. Essa parte pode finalmente parar. Porque Aquele que vos criou encontrou-vos. Aquele que vos formou veio para vos carregar. O jugo é Dele. O fardo é partilhado. O descanso é real.
Por isso, neste dia, estou a tentar deixar de carregar o que nunca me pertenceu. Estou a tentar largar o jugo do desempenho, o jugo de ter de provar o meu valor, o jugo de ter de ser suficiente por mim próprio. Estou a tentar assumir o jugo que é fácil e o fardo que é leve. Não porque o caminho seja mais curto, mas porque não o estou a percorrer sozinho. Aquele que é manso caminha ao meu lado. Aquele que é humilde adapta-se ao meu ritmo. E na sua companhia, até o caminho mais difícil se torna um lugar de descanso.
Pe. Jijo Kandamkulathy, CMF

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