A coragem cristã diante dos desafios contemporâneos (Mt., 10, 26–33)
O Evangelho de Mateus 10,26-33 apresenta uma mensagem profunda e transformadora que continua relevante para a actualidade. Nesta passagem, Jesus exorta os seus discípulos: «Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo» (Mt., 10, 28). Estas palavras de Cristo convidam-nos a reflectir sobre o verdadeiro significado da coragem cristã e da fidelidade à fé no nosso quotidiano.
Jesus começa a sua mensagem, dizendo aos apóstolos: «Portanto, não temais; nada há de encoberto que não haja de ser revelado, nem oculto que não haja de ser conhecido» (Mt., 10, 26). Esta afirmação não é apenas uma garantia de que a verdade prevalecerá, mas também um convite à transparência e à honestidade nas nossas vidas.
O Papa Francisco, na sua encíclica Evangelii Gaudium, enfatiza que “A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus” (EG n.º 1). Esta alegria autêntica é a base da coragem cristã que Jesus nos pede. Não é uma coragem baseada na força humana ou na arrogância, mas na confiança inabalável em Deus e na Sua providência divina.
Uma das dimensões mais desafiadoras desta passagem é o chamamento à confissão pública da fé. Jesus afirma: «Portanto, todo aquele que me confessar diante dos homens, eu também o confessarei diante de meu Pai que está nos céus» (Mt., 10, 32). Esta exortação coloca os discípulos diante de uma escolha fundamental: permanecer fiéis a Cristo mesmo quando isso implica um risco social ou pessoal.
A passagem estabelece uma hierarquia clara de valores que deve orientar as nossas decisões. Jesus não nega que existem ameaças ao corpo físico, mas coloca a alma numa posição de primazia absoluta. «Temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo» (Mt., 10, 28). Esta perspectiva cristã inverte completamente a lógica do mundo secular, que frequentemente prioriza o conforto material, a segurança física e o sucesso económico.
São Paulo, na sua Carta aos Romanos, expressa esta mesma convicção: «Pois estou persuadido de que nem morte, nem vida, nem anjos, nem principados, nem coisas presentes, nem coisas futuras, nem potestades, nem altura, nem profundidade, nem nenhuma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor» (Rm., 8, 38-39).
Como é que esta mensagem se concretiza na vida diária dos católicos na nossa sociedade local? Primeiramente, na integridade profissional. Quando enfrentamos pressões para comprometer os nossos princípios éticos no trabalho, o Evangelho chama-nos a manter a fidelidade aos valores cristãos, confiando que Deus não abandona aqueles que O buscam sinceramente.
Segundo, na educação dos filhos: transmitir a fé católica num ambiente secularizado requer coragem, o que implica dedicar tempo à Catequese, participar da vida sacramental em família e demonstrar, através das nossas acções, que a fé é verdadeiramente o tesouro mais precioso.
Terceiro, no testemunho comunitário: o Papa Francisco, em Laudato Si’, convida-nos a ser guardiões da criação e defensores da dignidade humana, participando activamente em iniciativas sociais, defendendo os pobres e marginalizados, e proclamando a mensagem do Evangelho através das obras de misericórdia.
Jesus conclui esta passagem com uma promessa consoladora: «Até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados» (Mt., 10, 30). Esta imagem poética expressa a atenção infinita de Deus por cada um de nós. Não somos números anónimos num universo indiferente, mas filhos amados de um Pai que conhece cada detalhe de nossas vidas.
O Evangelho de Mateus 10, 26–33 não é necessariamente um convite ao martírio literal para a maioria de nós, mas sim um chamamento à fidelidade radical em pequenas e grandes coisas. Para o católico contemporâneo, especialmente em Macau, uma sociedade marcada pela pluralidade religiosa e pela pressão secular, esta mensagem é particularmente significativa. Viver a nossa fé com autenticidade significa confessar Cristo através das nossas palavras e acções, participar da vida paroquial, educar os filhos na tradição católica e testemunhar os valores evangélicos no trabalho e na comunidade. Implica também priorizar a salvação da alma sobre as comodidades materiais, e confiar na providência divina em todas as circunstâncias.
Que possamos, como discípulos de Cristo, encontrar a coragem necessária para viver plenamente a nossa vocação cristã, sabendo que somos amados infinitamente pelo nosso Pai celeste. Não tenhamos medo, pois o mesmo Deus que conta os cabelos da nossa cabeça nos dará a força para O confessar diante dos homens. Ele anseia pelo nosso abraço eterno, basta querermos, confiarmos e segui-Lo.
Padre Daniel Ribeiro, SCJ

Follow