João Paulo II: obra em análise

TODAS AS TERÇAS-FEIRAS, AO INÍCIO DA NOITE, NO CARTÓRIO DA SÉ

João Paulo II: obra em análise

O Cartório da Sé acolhe todas as terças-feiras, às 18 e 45 horas, um grupo de leitura da obra “Pessoa e Acção”, da autoria do Papa João Paulo II. A iniciativa, que arrancou em meados do mês de Maio, é orientada pelo padre Andrzej Blazkiewicz e procura promover um confronto aprofundado com o pensamento do Pontífice polaco.

Publicada em 1969, numa altura em que Karol Wojtyla era o cardeal de Cracóvia, “Pessoa e Acção” é considerada a “suma filosófica” de São João Paulo II. Escrita durante o período em que o futuro Papa ensinou na Universidade Católica de Lublin, a obra condensa o esforço do autor para superar a oposição entre subjectividade e objectividade, que marca a cultura ocidental desde Descartes. Formado na linha de São Tomás de Aquino, mas aberto à fenomenologia, Karol Wojtyla argumenta que a pessoa humana se revela e realiza sobretudo através da acção livre e consciente. Em declarações a’O CLARIM, o padre Andrzej explicou o núcleo da tese defendida em “Pessoa e Acção”.

«Wojtyla esforça-se para transcender a oposição fundamental entre o subjectivo e o objectivo (…). A ruptura da oposição entre subjectividade e objectividade ocorre no interior do Ser Humano, pois este não é meramente uma consciência abstracta e isolada, mas um Ser que vive no mundo real», referiu o sacerdote, sublinhando a ligação entre conhecimento, vontade e acção: «A nossa acção é uma externalização da nossa vontade, mas, como enfatiza Wojtyla, a nossa vontade está constitutivamente, na sua essência, ligada à razão. O acto de vontade depende do reconhecimento da verdade sobre o objecto da acção. A toda a pessoa deve ser concedido o direito fundamental à acção, isto é, a liberdade de agir por meio da qual a pessoa simultaneamente se realiza».

Esta é a segunda grande obra de Wojtyla a ser trabalhada pelo grupo coordenado pelo padre Andrzej. A primeira – “A Teologia do Corpo” – foi lida e analisada ao longo de 133 semanas. Há cerca de um mês, o grupo iniciou a leitura de “Pessoa e Acção”, que o sacerdote descreve como “a mais filosófica” das três que o colectivo de leitura se propõe analisar. A terceira obra é “Amor e Responsabilidade”, publicada em 1960.

Desde que a obra começou a ser lida e debatida, em meados de Maio, já decorreram cinco encontros. O ritmo é deliberadamente lento. O padre Andrzej explicou a razão: «A leitura está a decorrer devagar, para que as pessoas se possam familiarizar com os termos filosóficos e se possam sentir à vontade com uma obra que não é fácil».

O objectivo é permitir uma assimilação profunda dos conceitos. O padre Andrzej destacou o valor intrínseco da iniciativa: «Isto é algo que nos dá a oportunidade de ver o mundo como todo o universo, o macrocosmos e o microcosmos que está dentro de nós, de uma forma que nos edifica, que nos dá alegria de ser e de viver».

A obra, editada originalmente em 1969, surge num contexto em que Karol Wojtyła já procurava responder aos desafios da filosofia moderna, nomeadamente no que toca a cisão entre a metafísica tradicional e a filosofia da consciência. Ferdinando Adorno é citado no material de divulgação, com uma frase lapidar: “Wojtyla libertou-nos do erro de identificar pensamento forte com o tipo de pensamento criminoso que levou ao totalitarismo. Mostrou que a verdade existe. Este é o choque filosófico que Wojtyla trouxe”.

M.C.

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