«É importante que se desenvolva a Música Sacra em Macau, com o seu próprio estilo»
Thierry Escaich foi o convidado de honra da cerimónia de bênção e do concerto inaugural do novo órgão de tubos da Sé Catedral. O compositor francês, que é desde 2024 organista-titular da Catedral de Notre-Dame, em Paris, brindou o auditório com um recital de quase duas horas, no qual interpretou obras de compositores como Johann Sebastian Bach, Johannes Brahms ou Felix Mendelssohn. No final do concerto, elogiou o público do território e o investimento que a diocese de Macau está a fazer na promoção da Música Sacra. Thierry Escaich, em entrevista exclusiva a’O CLARIM.
O CLARIM – Como foi a experiência de inaugurar o novo órgão da Sé Catedral de Macau? Sentiu que esteve investido de uma responsabilidade especial?
THIERRY ESCAICH – Sim. É uma grande responsabilidade, porque num concerto deste género é necessário, antes de mais, oferecer uma imagem do novo instrumento. O que me foi pedido foi que encontrasse a melhor imagem para descrever a sonoridade do instrumento. Este órgão é maravilhoso: por vezes, é bastante uniforme, mas também pode ser bastante poderoso, bastante poético e bastante suave. O meu papel, quando sou convidado para concertos como este, é desempenhar a função de descobridor. Fui incumbido de tirar o véu ao poder deste órgão perante o público. É algo muito importante para mim.
CL – Estamos num bom espaço, em termos acústicos, para a Música Sacra?
T.E. – A Sé Catedral? Sim, parece-me muito bom. Não produz muito eco. É um bom espaço. Não é muito seco, mas também não temos muito eco. É perfeito. Quem escuta, consegue perceber perfeitamente o que está nas partituras: diferentes partituras, partituras para orquestra. Por vezes, temos um pouco de eco, mas parece-me que tudo está em equilíbrio.
CL – Como é que este novo órgão da Catedral de Macau se equipara ao órgão Cavaillé-Coll da Catedral de Notre-Dame?
T.E. – Não é exactamente a mesma coisa. O Grande Órgão de Notre-Dame é um órgão sinfónico francês. Há algumas semelhanças. Uma parte deste órgão também é sinfónica, mas o instrumento não é totalmente sinfónico. É um pouco mais clássico, por vezes. Diria que é um instrumento a meio termo entre um órgão clássico e um órgão romântico. É, ainda assim, um órgão Casavant muito agradável. O órgão de Notre-Dame é mais romântico e mais sinfónico. É um instrumento diferente. Na Catedral de Notre-Dame, o órgão é maior: tem cinco teclados e cada teclado tem vinte registros. Não é um instrumento fácil.
CL – Assumiu o estatuto de organista-titular de Notre-Dame há dois anos, depois do incêndio que destruiu a Catedral. Como é que encara a responsabilidade que lhe foi confiada?
T.E. – É muito importante para mim. Depois deste intervalo, depois do fogo, tivemos de restaurar a Catedral, mas também a ligação com o passado. Notre-Dame está associada a uma longa tradição musical. Basta recordar músicos como Guillaume de Machaut, Louis Vierne ou outros. Foi necessário restaurar também essa ligação, depois do fogo e do desastre de que a Catedral foi palco. A responsabilidade de reestabelecer essa ligação ao passado foi minha e dos meus colegas. Foi uma missão muito importante para nós.
CL – Como se preparou para este concerto? Como foi a escolha das obras que tocou na Sé Catedral?
T.E. – Era importante para mim poder oferecer uma percepção detalhada do que é possível fazer com este instrumento. Podemos tocar música clássica, como Bach. Este órgão é bastante orquestral e essa foi a razão que me levou a escolher Stravinsky e música de orquestra. Mas também pode ser usado para dar vida a música romântica, como Brahms, que é muito suave, mas também, por vezes, música moderna, com muita improvisação. Parece-me que o mais importante seria oferecer uma imagem o mais completa possível deste órgão e aquilo que é possível fazer com este instrumento.
CL – É um mestre na improvisação. Como é que escolhe o que vai improvisar, num palco como a Sé Catedral? Toca aquilo que lhe surge no momento? Ou traz algo já estruturado?
T.E. – Toco o que me surge no momento. Decido no momento por onde me posso aventurar. Perguntei durante o ensaio, de manhã, se tinham alguma proposta ou alguma preferência por um tema e foi-me proposto um tema chinês. Depois, aquilo que faço é recorrer à minha experiência como harmonista e ao meu trajecto profissional para interpretar o tema e produzir variações. A improvisação é muito importante para mim, mas decido no momento que forma terá. Por vezes, procuro inspiração na iluminação, na claridade da Igreja ou na sonoridade do órgão. Todos estes aspectos misturam-se depois com o meu “background” para permitir que a improvisação floresça.
CL – É também um compositor muito prolífico. Quando compõe uma nova sinfonia ou uma nova ópera, onde vai buscar inspiração?
T.E. – Depende. Por vezes, vou buscar inspiração à literatura. Gosto muito de literatura. É por isso que gosto de escrever óperas, por exemplo. É outra forma de dramaturgia. Neste momento, uma ópera minha – “Point d’Orgue” – está em cena no Teatro dos Campos Elísios, em Paris. A dramaturgia é muito importante para mim. Por vezes, quando improviso ou quando componho, vou também buscar inspiração ao cinema. Sou um grande fã de Pasolini, Visconti, Hitchcock, Clint Eastwood e de vários outros realizadores. No meu caso, quando componho uma nova obra, quando improviso, sinto que algumas das coisas que coloco na partitura têm origem no cinema enquanto arte.
CL – Este é um de três órgãos que foram recentemente instalados em Macau. O território é palco de um ressurgimento da Música Sacra e da Música Clássica. Há um significado especial em ver instrumentos como estes instalados em igrejas de uma cidade chinesa?
T.E. – Sim. É importante que este tipo de instrumentos esteja disponível. Estamos perante uma tradição europeia, mas é uma tradição que pode, ao mesmo tempo, servir diferentes tipos de Música Sacra. Música Sacra chinesa, por exemplo. Porque não? Penso que é importante que se desenvolva a Música Sacra em Macau, com o seu próprio estilo, como por exemplo o primeiro tema da cerimónia, durante a bênção. Foi um momento bastante interessante. Havia uma inspiração chinesa evidente, com uma harmonização europeia. Uma mistura muito interessante.
CL – Que balanço faz desta digressão asiática? Continua a ser um prazer tocar nesta parte do mundo?
T.E. – É sempre um prazer. Gosto muito de descobrir novas sensibilidades. As pessoas são completamente diferentes no Japão e em Macau. É muito interessante para mim. Tenho amigos no Japão e sempre que regresso descubro pessoas muito diferentes, muito gentis e muito afectuosas. Gosto de descobrir esses aspectos. É importante, enquanto compositor, deixar-me inspirar pelo temperamento e pelas paisagens de Macau, mas, ao mesmo tempo, pelas pessoas. A interacção, a relação que desenvolvo com diferentes pessoas, é muito importante para mim. É algo que me inspira e que procuro integrar na minha música.
CL – Ficou satisfeito com a reacção do público em Macau?
T.E. – Sim! O público é muito directo. É completamente diferente do público japonês. No Japão, as pessoas demoram mais tempo a reagir. Aqui, pelo contrário, o público é muito directo, muito afectuoso. Gosto deste tipo de reacção.
Marco Carvalho

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