Silêncio que reza pelos “gritos” do mundo
A Ordem dos Cistercienses da Estrita Observância (OCSO) é religiosa contemplativa católica romana, assente no binómio da oração e do trabalho. A sua origem é beneditina, pois segue a Regra de São Bento. Todavia, a 21 de Março de 1098, deu-se o êxodo dos fundadores do primeiro mosteiro cisterciense, o qual ocorreu num terreno baldio na Borgonha, em França, num lugar chamado “Cîteaux” (as estevas) por cerca de vinte monges. Estes pediram para saírem da Ordem Beneditina e fundar uma experiência monástica mais rigorosa e ascética. Entre eles, estavam os fundadores e primeiros abades: São Roberto de Molesmes, Santo Alberico e Santo Estêvão Harding.
Posteriormente, por volta de 1125, foi fundado o primeiro mosteiro feminino, em Tart, como unidade dependente da abadia de Cîteaux. Com o passar do tempo, os mosteiros de monges e freiras, que seguiam o modo de vida cisterciense, foram crescendo para além das fronteiras do mundo da Europa Ocidental, alcançando um desenvolvimento notável. No entanto, após esta expansão, seguiu-se um período de relaxamento e decadência na observância regular, tendo ocorrido várias tentativas repetidas de reforma.
Entre as reformas realizadas, sobressai a que se deu na abadia francesa de La Trappe, durante a turbulência do Século XVII: o abade de Rancé foi o inspirador da reforma, a partir de 1664, que viria a conquistar muitos mosteiros cistercienses; em 1892 as três Congregações monásticas que abraçaram a reforma fundiram-se, formando a Ordem religiosa conhecida como “A Ordem Reformada de Nossa Senhora de La Trappe”, hoje denominada “Ordem Cisterciense da Estrita Observância” (ou trapistas).
O ramo feminino (trapistinas) vive a mesma “fuga do mundo” (contemptus mundi) que o ramo masculino, com o “Silêncio como Linguagem”. Nas comunidades trapistinas o silêncio não é apenas a ausência de ruído, mas um meio para escutar Deus. À semelhança do ramo masculino, as monjas procuram a auto-suficiência. A Regra de São Bento exige que o mosteiro viva do seu próprio trabalho. As trapistinas são conhecidas pela excelência dos seus produtos agrícolas e artesanais, vistos como uma extensão da oração.
A opção cisterciense–trapista é, em grande medida, uma resposta à modernidade. Numa sociedade acelerada, urbana e secularizada, estas comunidades propõem uma forma de vida retirada, marcada pelo silêncio, pela estabilidade num lugar e pela procura de Deus numa existência comum regulada pela Regra de São Bento (“ora et labora”). A Ordem procurou, no pós-Concílio Vaticano II, manter a fidelidade à tradição contemplativa, ao mesmo tempo que se abria, de forma muito prudente, a novas implantações em contextos culturais não europeus, muitas vezes como presença discreta de oração em igrejas locais jovens.
EM MACAU DESDE 2009
É neste horizonte de expansão global e de reencontro com antigas geografias cristãs que se insere a instalação de uma comunidade cisterciense da Estrita Observância em Macau, no ano de 2009, uma escola de caridade e silêncio. A fundação trapista no território inscreve‑se na lógica de levar a tradição monástica ocidental – com o seu equilíbrio entre oração, trabalho e acolhimento discreto – ao coração de uma cidade que sempre viveu da encruzilhada entre Ocidente e Oriente.
A comunidade-mãe é o mosteiro trapista feminino de Gedono (desde 1987), na Indonésia (Bunda Pemersatu – Gedono). A comunidade indonésia é, por sua vez, filha do mosteiro trapista feminino de Vitorchiano (Itália), fundado em meados do Século XX e que se tornou casa-mãe de várias fundações na Ásia. Assim, a linha de sucessão monástica que chegará a Macau é: Vitorchiano (Itália) – Gedono (Indonésia) – Macau.
Desejando uma presença contemplativa feminina estável na RAEM, a diocese de Macau dirigiu um convite formal às monjas da Ordem Cisterciense da Estrita Observância para fundarem um mosteiro de clausura. O projecto previu a instalação das monjas na zona da Penha, utilizando a capela de Nossa Senhora da Penha e a residência anexa como base para a nova comunidade. A Ordem, atendendo o pedido, disponibilizou o envio de um pequeno grupo de irmãs fundadoras de Gedono. Em 2011, o Capítulo Geral da Ordem Cisterciense da Estrita Observância aprovou oficialmente a fundação de um mosteiro feminino em Macau, como casa filha do mosteiro de Gedono. Ainda em 2011, foi designada como responsável (Superiora) da nova comunidade a Madre Caterina Mazzarelli. A 15 de Abril de 2012, no Domingo da Divina Misericórdia, deu-se a fundação canónica do mosteiro feminino na Penha, sob o título de Mosteiro de Nossa Senhora “Estrela da Esperança” (Our Lady Star of Hope).
Já este ano, a 26 de Janeiro, a comunidade foi elevada ao estatuto de Priorado em celebração efectuada na capela da Penha, na presença do bispo D. Stephen Lee; do abade do Mosteiro OCSD em Lantau, D. Paul Kau; da abadessa da Casa-Mãe na Indonésia, madre Cornelia Lisnawati; e de muitos sacerdotes e fiéis.
No dia seguinte, 27 de Janeiro, a Madre Caterina foi eleita pela comunidade e confirmada como Prioresa.
Desta forma respondeu-se ao desejo do bispo de Macau de que a Diocese não fosse apenas espaço de pastoral activa e educativa, mas também lugar de oração contemplativa contínua, em sintonia com a tradição da Igreja de associar missão e contemplação. Residem actualmente dez religiosas no mosteiro.
Vítor Teixeira
Universidade Fernando Pessoa

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