MISSIONÁRIAS DE CRISTO JESUS

MISSIONÁRIAS DE CRISTO JESUS

Espiritualidade Inaciana elevada à caridade

A Congregação das Missionárias de Cristo Jesus (MCJ) é um exemplo notável de renovação apostólica no seio da Igreja Católica do Século XX, nascida num contexto de profunda convulsão política e social, em plena Guerra Civil de Espanha (1936-1939), com um olhar direccionado para a expansão missionária universal. Embora a semente da Congregação tenha sido lançada durante um período conturbado, a fundação oficial ocorreu a 14 de Março de 1944, em Javier (Navarra), a terra natal de São Francisco Xavier, o padroeiro das missões.

A Congregação nasceu da visão de María Camino Sanz Orrio, uma jovem de Pamplona que sentiu o chamamento para as missões na Ásia. María contou com o apoio fundamental de D. Marcelino Olaechea SDB (1936-1945), então bispo de Pamplona.

Diferente das Ordens contemplativas ou das Congregações de ensino tradicional da época, as MCJ nasceram com um espírito especificamente missionário e itinerante. O objectivo, dentro do seu carisma, era chegar onde a Igreja ainda não estava estabelecida, com uma vida de pobreza e total disponibilidade. As Missionárias de Cristo Jesus (ou de Jesus Cristo) foram pioneiras enquanto primeira congregação missionária feminina em Espanha que não tinha clausura, permitindo uma inserção directa em contextos não-cristãos. A espiritualidade é profundamente Inaciana, bebendo das fontes dos “Exercícios Espirituais” de Santo Inácio de Loiola. Rapidamente se haviam de expandir para a Índia (1948), Japão (1948) e, posteriormente, para África e América Latina.

A chegada das Missionárias de Cristo Jesus a Macau, a “Porta da China”, é um capítulo fundamental da sua história, inserindo-se na estratégia de proximidade com o mundo chinês. As irmãs aportaram em Macau no ano de 1953, num período em que o território servia de refúgio para milhares de pessoas que fugiam das alterações políticas na China continental. As MCJ distinguiram-se pelo seu trabalho no Centro de Recuperação Social da Ilha Verde e, muito especialmente, na assistência aos leprosos. O trabalho na leprosaria de Ká-Hó (em Coloane) é um dos testemunhos mais pungentes de dedicação, onde transformaram um local de exclusão num espaço de dignidade humana e cuidados médicos. Além da saúde, dedicaram-se à alfabetização e ao apoio a famílias carenciadas, integrando-se plenamente na comunidade local. A presença missionária foi sempre marcada por uma discrição evangélica, manifestada no serviço directo e na adaptação cultural (inculturação).

Em 27 de Junho de 1954 (já estavam presentes em Macau e Japão), a Congregação para a Propagação da Fé elevou as Missionárias de Cristo Jesus à categoria de Instituto de Direito Pontifício. Em 1956, começaram as missões no Congo e na Venezuela. Em 1969 aparecem na Bolívia e depois no Chile; mais tarde vão para as Filipinas, República Dominicana, Camarões, Chade e China continental. A Congregação recebeu o Decreto Papal de Louvor em 27 de Junho de 1954 e a aprovação final em 9 de Abril de 1962. As Missionárias de Cristo Jesus representam o “espírito de Javier” levado ao extremo: a coragem de partir de uma Espanha em ruínas (pós-guerra civil) para as periferias mais difíceis da Ásia, mantendo em Macau uma das suas missões mais emblemáticas e humanitárias.

Hoje em dia, a Congregação mantém a essência internacional. Na RAEM, embora o número de vocações europeias tenha diminuído, o legado das Missionárias de Cristo Jesus permanece vivo nas instituições que ajudaram a fundar e no espírito de serviço que imprimiram na Diocese.

Vítor Teixeira

Universidade Fernando Pessoa

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