Frei Gaspar da Cruz: “olhos” da Europa no coração da China

MISSÃO: DIOCESE DE MACAU – 450 ANOS DE HISTÓRIA – 8

Frei Gaspar da Cruz: “olhos” da Europa no coração da China

Frei Gaspar da Cruz (1520-1570) foi um religioso dominicano português, cuja importância transcende a esfera missionária, sendo reconhecido como um dos primeiros grandes sinólogos europeus da Era Moderna. O seu contributo fundamental foi a publicação do primeiro livro impresso na Europa dedicado exclusivamente à China, baseado em observações directas.

Natural de Évora, Gaspar da Cruz entrou na Ordem dos Pregadores (Dominicanos) no convento de Azeitão, rumando depois para o de Benfica, em Lisboa, um dos centros intelectuais da Ordem em Portugal. Movido pelo ideal e pelo zelo missionários, partiu para a Índia com um grupo de nove frades, liderado por frei Diogo de Bermudez, com a missão de estabelecer a Congregação dominicana no Estado da Índia.

Participou na fundação do convento de São Domingos em Goa e, mais tarde, no ano de 1554, em Malaca, que servia de base às missões no Sudeste Asiático. Esteve seis anos na Índia, provavelmente em Goa, Chaul e Cochim, e visitou Ceilão. Residiu em Malaca até Setembro de 1555, altura em que embarcou com destino ao Camboja. Perante o insucesso desta missão, em finais de 1556 dirigiu-se para Lampacau, pequena ilha na baía de Cantão. Em 1557, regressou a Malaca.

Frei Gaspar da Cruz foi um explorador incansável, antes de atingir o Império Ming. No Camboja, em 1555, foi o primeiro missionário cristão a tentar a evangelização deste reino. No entanto, a profunda influência dos monges budistas junto do soberano e da população levou-o a abandonar a missão ao fim de um ano, concluindo que o terreno não estava maduro para a conversão. Depois, em 1556, acha-se em Cantão, passando pela ilha de Lampacau. Frei Gaspar conseguiu o que poucos europeus haviam logrado até então: uma autorização para pregar na China continental. Contudo, a estadia foi curta (cerca de um mês), devido à sua oposição frontal aos ritos locais, o que provocou a hostilidade das autoridades chinesas. Em 1560, ter-se-á dirigido a Ormuz, para dar assistência religiosa aos soldados portugueses da fortaleza, tendo provavelmente regressado à India cerca de três anos depois.

Apesar de no terreno nem sempre ter tido os maiores sucessos, a sua missão tem um grande legado literário, materializado no “Tratado das Cousas da China”. De facto, após o regresso a Portugal, Gaspar da Cruz dedicou-se a organizar as notas pessoais de viagem. Em 1569 (ou 1570, conforme a edição), publicou em Évora a obra que o imortalizou: “Tractado em que se contam muito por extenso as cousas da China, com suas particularidades, e assi do reyno de Ormuz”. A importância desta obra reside em diversos aspectos. Primeiro, no realismo e no pormenor, pois, ao contrário dos relatos fantasiosos da Idade Média, frei Gaspar da Cruz descreveu a China com precisão administrativa. Falou sobre a escrita em caracteres, o sistema de exames para os mandarins, a arquitectura das cidades, a produção de seda e porcelana e até o hábito de beber chá. Em segundo lugar, o método de observação que evidencia e sustenta a narrativa. Descreveu o sistema judicial chinês com uma mistura de espanto e admiração, elogiando a eficácia da justiça e a ordem social, algo que, por vezes, considerava superior à organização jurídica europeia da época. Depois, a sua descrição da Grande Muralha da China, onde, ao que parece, nunca estivera, mas que evoca de forma assertiva. Foi, na verdade, um dos primeiros autores a mencionar a existência da Grande Muralha, com base em relatos fidedignos obtidos em Cantão.

De regresso a Portugal, em 1565, Gaspar da Cruz foi um homem de acção até ao fim, embora só se lhe encontre o rasto em 1569, quando estava em Lisboa a auxiliar os empestados. Em 1570, a peste ainda assolava o reino. O frade dedicou-se ao cuidado dos doentes em Setúbal, onde acabou por contrair a doença. Faleceu nesse mesmo ano, a 5 de Fevereiro, no convento dominicano na cidade, sendo recordado não só como sábio, mas também como mártir da caridade cristã. Duas semanas depois de morrer, foi publicado, por André de Burgos, de Évora, o seu “Tratado das cousas da China”.

Sobre a sua perspectiva missionológica, é interessante notar a diferença de abordagem entre Gaspar da Cruz e os Jesuítas que chegariam anos depois, como Mateus Ricci. Frei Gaspar da Cruz centrou-se na descrição da sociedade como um todo, enquanto os Jesuítas se concentraram mais na elite científica, ou seja, no mandarinato “escolar”. Todavia, há maior inflexibilidade religiosa em frei Gaspar, como bom dominicano do seu tempo. Enquanto os Jesuítas tentavam “acomodar” o Cristianismo aos ritos chineses, Gaspar da Cruz era um “dominicano clássico”: via qualquer culto não cristão como uma barreira que deveria ser derrubada pela pregação directa.

Em síntese, frei Gaspar da Cruz revelou à Europa a geografia interna da China e também a sua ligação com Ormuz. Foi o primeiro europeu a descrever a escrita chinesa como ideográfica (e não alfabética). Além disso, abriu caminho para a presença das ordens mendicantes no Extremo Oriente. O perfil de frei Gaspar demonstra que os Dominicanos, embora por vezes ofuscados pelo ulterior sucesso jesuíta, foram verdadeiros pioneiros no Oriente e um dos primeiros “olhos” da Europa no coração do Império Chinês.

Vítor Teixeira

Universidade Fernando Pessoa

LEGENDA: Cena urbana na Dinastia Ming (1368-1644)

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