D. Belchior Carneiro, o co-fundador da identidade de Macau

MISSÃO: DIOCESE DE MACAU – 450 ANOS DE HISTÓRIA – 7

D. Belchior Carneiro, o co-fundador da identidade de Macau

D. Belchior Carneiro Leitão (também conhecido como Melchior Carneiro) foi uma das figuras mais carismáticas e fundamentais da presença portuguesa e católica no Oriente. Se Alessandro Valignano, SJ, foi o estratega intelectual e organizacional, D. Belchior foi o pilar assistencial e institucional que permitiu a Macau assumir-se como comunidade cristã perene e humanizada.

Nascido em Coimbra, no ano de 1516, Belchior Carneiro pertencia a uma família com ligações à nobreza. Foi um dos primeiros portugueses a entrar na recém-fundada Companhia de Jesus. Ingressou em 1543, tendo sido contemporâneo de Simão Rodrigues, um dos fundadores da Ordem em Portugal, a par de São Francisco Xavier, estes em Portugal desde 1540. Em 1542, o padre Simão Rodrigues fundou o Colégio de Santo Antão o Velho, em Lisboa, a primeira casa portuguesa da Companhia. São Francisco Xavier, entretanto, abalara para o Oriente. Neste impulso jesuíta inicial em Portugal, pontificou o jovem coimbrão Belchior, que perseverou na Ordem jesuíta: professou votos a 14 de Março de 1543 e foi ordenado padre a 25 de Abril.

Em 1555, o Papa Júlio II nomeou-o bispo titular de Niceia e segundo bispo coadjutor do Patriarca da Etiópia, D. João Nunes Barreto. A 4 de Maio daquele mesmo ano, foi sagrado bispo titular de Niceia por D. Gaspar Jorge de Leão Pereira, já em Goa. O seu destino inicial era, de facto, a Etiópia, como bispo coadjutor, mas as dificuldades políticas e religiosas naquela região impediram a sua entrada, retendo-o na Índia por vários anos, onde se destacou como reitor do Colégio de Goa.

Em Setembro de 1565, a pedido do Papa, foi destinado a Macau, onde exerceria o seu ministério episcopal nas missões católicas na China e no Japão. Esteve algum tempo em Malaca, onde em 1567 comunicou ao bispo de Malaca, D. Jorge de Santa Luzia, que este deixava de ter jurisdição eclesiástica sobre Macau. Uma nova diocese passaria então a ter jurisdição eclesiástica sobre a China, o Japão e as ilhas adjacentes, separando-se da diocese de Malaca.

Entretanto, em 1568, D. Belchior Carneiro está já em Macau. Embora a diocese macaense só tenha sido formalmente criada pelo Papa Gregório XIII, a 23 de Janeiro de 1576, o prelado chegou com o título de Bispo de Niceia e Governador do Bispado da China e do Japão. Note-se que D. Belchior não foi nomeado bispo de Macau, embora tenha governado a Diocese, como Governador do Bispado, até 1581, quando aportou no território o primeiro bispo titular de Macau, D. Leonardo Fernandes de Sá. Tornou-se, assim, o primeiro bispo católico à “Porta da China”.

Uma nota de curiosidade: D. Belchior, que havia sido nomeado Patriarca da Etiópia em 1577, a fim de substituir o falecido titular, D. Andrés de Oviedo, SJ, nunca tomou posse do cargo e nem sequer foi à Etiópia. Quando chegou a Macau, a pequena urbe era pouco mais do que um entreposto comercial de cabanas e habitações precárias. Não havia uma estrutura governativa sólida nem apoio social. A sua primeira missão foi a de assegurar a legitimidade eclesiástica. Foi D. Belchior quem deu corpo à presença da Igreja na região, organizando as paróquias e preparando o terreno para que Macau se tornasse o “porto seguro” de todos os missionários que se dirigiam ao Império Ming. Em 1561, existiam cerca de seiscentos fiéis católicos em Macau; em 1568, essa cifra contava já com cerca de cinco mil almas.

Com a chegada de D. Leonardo de Sá, em 1581, D. Melchior Carneiro renunciou ao cargo e retirou-se, bastante debilitado, para a Residência da Companhia de Jesus, fundada em 1565 pelos jesuítas Francisco Peres, Manuel Teixeira e André Pinto, ao lado da igreja de Santo António. Ali viria a falecer o prelado, de asma, no dia 19 de Agosto de 1583, aos 67 anos de idade. Foi sepultado junto do altar-mor da igreja da Madre de Deus em Macau.

A fundação da assistência social em Macau foi obra de D. Belchior. Com efeito, a sua maior marca em Macau não foi apenas espiritual, mas também profundamente humanitária. Um ano após a sua chegada, fundou a primeira Misericórdia do Extremo Oriente. Esta instituição era vital numa cidade de marinheiros e comerciantes, onde muitos morriam e deixavam viúvas e órfãos desamparados. Junto à Misericórdia, fundou o primeiro hospital de modelo ocidental na Ásia Oriental. Numa demonstração de coragem e caridade, fundou também um hospital para leprosos (a Gafaria de São Lázaro). Numa época em que a lepra era motivo de exclusão total, o bispo passava algum tempo no Lazareto, onde cuidava pessoalmente dos doentes, o que lhe conferiu uma aura de santidade junto da população local, cristã e não-cristã.

Foi, pois, uma figura religiosa de grande importância para a História das Missões em Macau e no Oriente. Não foi um missionário “no terreno”, como Ricci ou Ruggieri, mas um “facilitador” logístico da missão. Garantiu que Macau tivesse as condições de saúde e de alimentação necessárias para acolher os jesuítas que chegavam da Europa, muitos deles exaustos e doentes após meses de viagem. A sua postura digna e a sua obra social ajudaram a convencer as autoridades chinesas de que os portugueses não eram apenas piratas, mas uma comunidade organizada com valores éticos e instituições de caridade. Como bispo responsável também pelo Japão, coordenou o envio de reforços missionários e de recursos para a florescente missão nipónica, mantendo Macau como o “cordão umbilical” daquela promissora cristandade.

Durante séculos, D. Belchior foi recordado como o “Pai dos Pobres” de Macau. O seu crânio e os seus paramentos estão ainda hoje preservados no “Tesouro de Arte Sacra da Igreja de São Domingos”.

Em síntese, além de ter introduzido o tratamento digno aos leprosos e o apoio a órfãos e viúvas, o bispo-missionário consolidou Macau como cidade estável e respeitável, e não apenas como posto comercial. D. Belchior Carneiro Leitão foi o rosto humano da Expansão Portuguesa. Enquanto outros se focavam no comércio da seda ou numa teologia abstracta, o seu escopo foi sempre a dignidade humana. Sem a fundação da Misericórdia e do sistema hospitalar, Macau dificilmente teria desenvolvido a coesão social necessária para resistir às pressões holandesas e chinesas nos séculos seguintes. É, por direito próprio, o co-fundador da identidade de Macau.

Vítor Teixeira

Universidade Fernando Pessoa

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