Alessandro Valignano, o estratega da Missão
Alessandro Valignano (nascido em 1539; falecido em 1606) foi, sem dúvida, a mente estratégica mais brilhante da Companhia de Jesus na Ásia. Valignano (范禮, Fàn Lǐ’ān), conhecido como o “Apóstolo do Oriente” (depois de São Francisco Xavier), não foi apenas um missionário, mas também o arquitecto da política de adaptação cultural que permitiu ao Cristianismo penetrar nas sofisticadas civilizações da China e do Japão.
Como Michele Ruggieri, era também jurista de formação. Nascido em Chieti, nos Abruzos (então reino de Nápoles), em 1539, numa família aristocrática, próxima do futuro Papa Paulo IV (Gian Pietro Caraffa), Valignano formou-se em Direito na Universidade de Pádua, aos dezanove anos de idade. Após uma breve carreira jurídica e um período de crise pessoal, em Roma, regressou a Pádua para estudar Teologia, em 1562. Mais tarde regressou a Roma, onde viria a entrar na Companhia de Jesus em 1566.
O seu génio organizativo foi rapidamente notado. Em 1573, com apenas 34 anos, o Geral da Ordem, Everardo Mercuriano, nomeou-o Visitador das Missões do Oriente – um cargo com autoridade plenipotenciária sobre todas as missões desde o Cabo da Boa Esperança até ao Japão. Empossado desta missão, chegaria a Goa em 1574.
Antes de Valignano, a maioria dos missionários acreditava que, para ser cristão, o convertido tinha de se tornar europeu (na língua, no vestuário, nos costumes). Valignano percebeu que essa estratégia era um erro fatal em culturas milenares, como a chinesa e a japonesa. Civilizações antigas, cultas e estruturadas, exigiam uma adaptação da parte de quem vinha do exterior, além de um conhecimento das idiossincrasias culturais próprias. Exigia o que Valignano definira como “adaptatio” (adaptação, ou acomodação). Como princípio, defendeu que o Cristianismo deveria ser apresentado como uma verdade universal, despida da “roupagem” cultural europeia. Para tal, deveria partir do respeito cultural. Ordenou, por isso, que os missionários aprendessem a língua local com perfeição e adoptassem os costumes sociais da elite dos países de missão. No Japão, os jesuítas deveriam seguir o protocolo dos monges Zen; na China, o dos letrados confucionistas. Outro princípio importante, foi a defesa da nativização do Clero. Com efeito, foi um fervoroso defensor da criação de Seminários para formar padres japoneses e chineses, entre outros, acreditando que a Igreja só seria sólida se fosse governada por naturais da terra.
Valignano esteve em Macau diversas vezes (1578, 1582, 1587-1590, 1594, 1597-1603 e 1606), transformando a cidade no centro logístico e intelectual da Ásia, no “Cérebro” da Missão. Em 1594, procedeu à fundação do Colégio de São Paulo. Valignano elevou a escola jesuíta a um colégio universitário. Foi a primeira Universidade de modelo ocidental na Ásia Oriental, onde os missionários estudavam Chinês e Japonês antes de partirem para o campo de missão. Macau e o Colégio eram como que uma base de operações da Missão no Oriente. Foi em Macau que Valignano “formou” missionários como Michele Ruggieri e Matteo Ricci, forçando-os a estudar a língua e os clássicos chineses, preparando a sua entrada definitiva na China continental em 1583.
O seu impacto nestas duas nações não foi tão directo como o dos seus formandos, mas não deixou de ser igualmente profundo, sobretudo pela aplicação do seu método missionário. No Japão, foi Valignano quem organizou a Embaixada Tenshō (1582), enviando quatro jovens nobres japoneses convertidos à Europa para visitarem o Papa e os reis católicos. O objectivo era mostrar à Europa a sofisticação do Japão e, ao regressarem, mostrar aos japoneses a grandeza da Cristandade. Na China, embora nunca tenha conseguido entrar em Pequim (morreu em Macau enquanto preparava essa viagem), foi o mentor intelectual de Matteo Ricci. Foi Valignano quem financiou e autorizou a estratégia de Ricci de se apresentar como um “Sábio do Ocidente”.
Valignano morreu em Macau, a 20 de Janeiro de 1606, e foi sepultado na Igreja da Madre de Deus (no actual complexo das Ruínas de São Paulo). O seu legado e importância repercutem-se no desenvolvimento da sinologia e japologia, pois incentivou a criação de dicionários, gramáticas e a tradução de clássicos, sendo o impulsionador da primeira imprensa de tipos móveis no Japão e em Macau. Outra marca do legado de Valignano reside na sua antropologia missionária, na qual é considerado um pioneiro da Antropologia moderna, pelo esforço em compreender a alteridade sem a tentar destruir. O valor do seu método poderá ser avaliado pela História, pelo decurso do tempo e pela sua aplicação. Assim, o método de “acomodação” foi tão eficaz que, décadas mais tarde, gerou a famosa Questão dos Ritos, em que Ordens “rivais” (como os Dominicanos) acusaram os jesuítas de permitirem práticas pagãs.
Em conclusão, podemos referir que Alessandro Valignano foi um gestor da fé. É o grande exemplo de que a Missão não se cumpre e esgota no terreno, no contacto com as populações e na acção pastoral, caritativa, pedagógica e de conversão, entre outras valências mais “práticas”: é preciso estratégia, gestão, organização e visão diplomática. Por isso, sem a visão pragmática de Valignano e o seu respeito pela inteligência e pelas culturas asiáticas, figuras como Matteo Ricci talvez fossem apenas “notas de rodapé” na História. Valignano transformou Macau num farol de humanismo e ciência que uniu, pela primeira vez, o pensamento europeu ao Extremo Oriente de forma profunda e duradoura.
Vítor Teixeira
Universidade Fernando Pessoa

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