Michele Ruggieri, o primeiro sinólogo ocidental
Michele Ruggieri nasceu no que é hoje a Itália, em 1543, vindo a falecer a 11 de Maio de 1607. Foi um sacerdote jesuíta. O padre Ruggieri (em Chinês: 罗明坚, Luó Míngjiān), juntamente com Matteo Ricci, foi um dos fundadores das modernas missões católicas na China, co-autor do primeiro Dicionário Português-Chinês, sendo considerado o primeiro sinólogo europeu. Foi uma figura cimeira da Companhia de Jesus e, indiscutivelmente, o verdadeiro pioneiro da missão jesuíta na China continental, tendo lançado as bases metodológicas que o seu mais famoso sucessor, Matteo Ricci, viria a aperfeiçoar.
Nascido em Spinazzola (no então Reino de Nápoles), com o nome de baptismo Pompilio, Ruggieri doutorou-se em Direito “In Utroque Iure” (Civil e Canónico), na Universidade de Nápoles. De seguida, entrou ao serviço da Corte de Filipe II de Espanha. Entrou na Companhia de Jesus em 27 de Outubro de 1572, em Roma. Rumou mais tarde para Lisboa, onde se viria a ordenar sacerdote da Ordem, em Março de 1578. Em Setembro desse ano engrossou uma leva de missionários jesuítas que chegou à Índia, mais precisamente, a Goa. Do grupo também fizeram parte Matteo Ricci e Rodolfo Acquaviva. Após uma breve estadia na Índia, foi chamado a Macau, em 1579, por Alessandro Valignano, o Visitador das Missões do Oriente.
Michele Ruggieri iniciou o seu labor missionário na China, na Missão de Macau. Ao chegar ao delta do Rio das Pérolas, deparou-se com o fracasso das tentativas anteriores de entrar no Império, que se baseavam na imposição da cultura europeia e nos velhos métodos de “conquista espiritual”. Com Ruggieri, Ricci e Valignano nascerá um novo método: o da inculturação. Seguindo as directrizes do padre visitador, Ruggieri dedicou-se intensamente ao estudo da língua e dos costumes chineses. Foi o primeiro europeu a dominar o Chinês clássico a um nível que permitia o diálogo com a elite letrada.
O missionário apercebeu-se que a porta para a China não era a força, mas a “propaganda” intelectual. Começou a vestir-se como um monge budista (estratégia que Ricci mais tarde alteraria para a veste de letrado confucionista) para ganhar aceitação. Em 1583 dá-se, finalmente, a sua entrada na China, mais o estabelecimento da Missão de Zhaoqing (1583).
Após várias viagens diplomáticas e comerciais precárias à cidade de Cantão (Guangzhou), Ruggieri conseguiu o que parecia impossível: autorização para residir permanentemente no interior da China. Nesse ano de 1583, com efeito, Ruggieri e Ricci estabeleceram-se em Zhaoqing, na Província de Cantão (Guangdong), com a permissão do governador local. Foi a primeira residência católica estável na China continental, desde a expulsão das missões franciscanas medievais. Em Zhaoqing, Ruggieri escreveu o Tianzhu Shilu (“A Verdadeira Crónica do Senhor do Céu”), o primeiro catecismo cristão em Chinês, impresso em 1584.
Ruggieri e Ricci foram companheiros de viagem e de missão, mas as suas funções e legados complementam-se. Era uma relação de mestre e discípulo. Ruggieri era mais velho e chegou à China antes de Ricci. Foi ele quem introduziu Ricci na língua e na cultura chinesas. Tinham, porém, estilos diferentes: enquanto o primeiro procurava mais a aproximação ao Budismo e à diplomacia directa, o segundo viria a focar-se na síntese entre o Cristianismo e o Confucionismo. O trabalho de colaboração conjunta de Ruggieri e Ricci permitiu criar o primeiro Dicionário Português-Chinês, um esforço hercúleo que documentava os tons e a romanização da língua.
Em 1588, Valignano mandou Ruggieri de regresso à Europa para convencer o Papa a enviar uma embaixada oficial ao Imperador da China. Devido a crises sucessivas no Papado e à sua saúde debilitada, Ruggieri nunca regressou ao Oriente, retirando-se para Salerno. Ali o jesuíta continuou a desenvolver um extenso trabalho intelectual, que contribuiu para tornar a China mais conhecida na Europa. Completou a tradução latina dos Quatro Livros (a clássica introdução chinesa à filosofia de Confúcio), escreveu poesia em Chinês e distribuiu cópias de mapas chineses que trazera consigo de Zhaoqing. Ruggieri era também guia espiritual e um confessor muito requisitado na escola de Salerno.
As contribuições finais de Ruggieri foram fundamentais para a sinologia europeia. Elaborou uma espécie de Atlas da China, com mapas detalhados das províncias chinesas, sendo o primeiro a oferecer à Europa uma visão geográfica precisa do interior do Império. Procedeu à tradução dos clássicos chineses, numa fluência em Chinês que se torna mais evidente nos poemas que escreveu nesta língua, demonstrando uma integração cultural sem precedentes para a época.
Embora Matteo Ricci tenha ficado com a fama da “Missão da China”, Michele Ruggieri foi o mestre e o pioneiro. Sem a sua persistência em Macau e uma grande capacidade jurídica (deriva da formação inicial do sacerdote) para negociar com os mandarins de Zhaoqing, a missão jesuíta poderia nunca ter ultrapassado as muralhas de Macau.
Vítor Teixeira
Universidade Fernando Pessoa

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