Matteo Ricci, o sábio da inculturação

MISSÃO: DIOCESE DE MACAU – 450 ANOS DE HISTÓRIA – 4

Matteo Ricci, o sábio da inculturação

Matteo (Mateus) Ricci, SJ, – nascido em 1552, falecido em 1610 – foi um dos mais extraordinários intelectuais e missionários da História da Igreja, sendo a figura central no encontro cultural entre o Ocidente e a China. Nascido em Macerata, na actual Itália, Ricci entrou na Companhia de Jesus em 1571, onde recebeu uma formação científica e humanística de excelência no Colégio Romano, sob a tutela de mestres como o matemático Cristóvão Clávio.

Ricci chegou a Macau a 7 de Agosto de 1582, chamado pelo seu superior nas Missões da Companhia no Oriente, padre Alessandro Valignano, para reforçar a missão na China. Foi no enclave português que Ricci viveu um período de “preparação intensiva”, tendo aprendido Chinês, língua na qual se tornaria fluente. Realizou, assim, uma imersão linguística e cultural profunda.

A preparação de Ricci em Macau não foi um acaso, mas parte do plano de Alessandro Valignano, o Visitador das Missões Jesuítas no Oriente. Valignano percebeu que a abordagem europeia de “imposição” não funcionaria na China. Em Macau, Ricci e o companheiro de jornada, Michele Ruggieri, foram submetidos a um isolamento produtivo. O estudo do silêncio foi uma das componentes do método de Ricci. Ou seja, enquanto outros missionários se concentravam na assistência aos portugueses, Ricci mergulhou nos clássicos confucianos. Ricci percebeu que, para converter a China, precisava primeiro entender e, depois, converter o intelecto dos líderes. A partir daqui, deu-se o baptismo na língua: Ricci foi o primeiro a criar um sistema de romanização do Chinês (com tons musicais), permitindo que outros europeus o pudessem aprender de forma estruturada.

Deste modo, ao contrário de missionários anteriores que tentavam evangelizar sem dominar o idioma, Ricci dedicou-se ao estudo profundo do Chinês clássico, aprendendo não apenas a falar, mas também a ler e escrever os caracteres. Inicialmente, adoptou o traje dos monges budistas, mas rapidamente percebeu que, para ser respeitado pela elite chinesa, deveria apresentar-se como um “letrado ocidental”, isto é, um mandarim escolar. Esta transição foi crucial para ser socialmente aceite.

A ida de Ricci até Pequim não foi directa, mas antes um jogo de paciência que durou quase vinte anos – um autêntico xadrez diplomático. Primeiro, depois de Macau, passou por Zhaoqing, província de Guangdong, onde estabeleceu a primeira residência missionária fora de Macau em 1583. Mais tarde, rumou a Nanchang e, de seguida, a Nanjing (Nanquim). Nestas cidades, Ricci abandonou definitivamente a túnica de monge budista (vistos então como figuras de classe baixa) e assumiu a seda roxa dos Mandarins. Tornou-se um mestre da “Ciência da Memória”, impressionando os chineses ao memorizar listas enormes de caracteres aleatórios, após uma única leitura. Finalmente, chega a Pequim e ao Imperador, no ano de 1601. Ricci entrou na capital não como pregador (os chineses desconfiavam destes, que consideravam idólatras), mas como tributário científico. Ofereceu ao Imperador Wanli dois relógios mecânicos, um cravo (instrumento musical) e o Mapa-Múndi (impresso em 1602, na cidade de Pequim). Como os relógios precisavam de manutenção constante, Ricci e os companheiros obtiveram o direito de residência permanente na Corte.

Os seus métodos missionários seriam importantes para atingir este objectivo, nomeadamente por meio da inculturação cultural. O método de Ricci, conhecido como “inculturação” ou “acomodação”, baseava-se em três pilares: adaptação aos costumes chineses, pelo que adoptou o traje, a língua e a etiqueta praticada pelos Mandarins; o diálogo com o Confucionismo, no qual Ricci identificou pontos de contacto entre o Cristianismo e o sistema moral e ético chinês (explanado pelos Clássicos de Confúcio), apresentando o Evangelho não como uma ruptura, mas como o cumprimento da sabedoria ancestral chinesa; e em terceiro, a evangelização pelo saber, aproveitando o conhecimento em Matemática, Astronomia e Cartografia. Deste modo, atraiu a curiosidade da elite intelectual, o que lhe permitiu ganhar prestígio científico e abrir-lhe as portas para o diálogo religioso.

Ricci foi o primeiro europeu a ser convidado a entrar na Cidade Proibida de Pequim, em 1601, onde se tornou conselheiro da Corte do Imperador Wanli. Entre os seus feitos mais notáveis, destaca-se o trabalho realizado na área da Cartografia, por meio do famoso Mapa-Múndi (Kunyu Wanguo Quantu), concluído em 1602, que situava a China no centro do mundo e revelava aos chineses a existência do resto do globo. De realçar também as suas traduções e trabalhos de escrita. Traduziu, por exemplo, os “Elementos de Euclides” para Chinês (com Xu Guangqi), além de ter escrito obras originais como a “Verdadeira Noção do Senhor do Céu” (Tianzhu Shiyi), que explicava o Catolicismo em termos filosóficos chineses. Introduziu o “Palácio da Memória” – técnica mnemónica ocidental antiga – na China e ofereceu instrumentos científicos como relógios de sol e astrolábios. Em 1596 escreveu um tratado sobre a memória, o “Método de aprender de cor” (西国记法), a partir da referida técnica “Palácio da Memória”.

Para além de Matemática, Astronomia, Cartografia e de outras ciências, Ricci foi o grande pioneiro da Sinologia na perspectiva ocidental. O seu método de inculturação também foi importante para a diplomacia. Escreveu um tratado da amizade (Jiaoyoulun), em Chinês clássico – obra que alcançou sucesso imediato entre a elite chinesa. Ricci usou a amizade como conceito universal para unir a moral cristã à ética confuciana.

Matteo Ricci faleceu em Pequim. Pelo seu contributo excepcional, o Imperador concedeu-lhe a honra inédita de ser sepultado em solo chinês, ao invés do corpo ser enviado para Macau, como era de lei na China da Dinastia Ming. Poder ser enterrado em Pequim foi um gesto de excepção que simbolizou a sua total integração no Império do Meio. Foi sepultado no Cemitério de Zhalan, onde outros jesuítas viriam a ser também enterrados. Tal só foi possível porque Ricci deixou de ser considerado um “bárbaro” e atingiu o estatuto de membro honorário da civilização chinesa.

Vítor Teixeira

Universidade Fernando Pessoa

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