MISSÃO: DIOCESE DE MACAU – 450 ANOS DE HISTÓRIA – 3

MISSÃO: DIOCESE DE MACAU – 450 ANOS DE HISTÓRIA – 3

Frei Jacinto de Deus, afirmação do clero nascido na Ásia

Na linha das figuras macaenses ligadas à História da Igreja e, em particular, às missões católicas, impõe-se recordar aqui frei Jacinto de Deus, OFM, cronista franciscano oriundo de Macau e um nome importante das letras portuguesas de Seiscentos. Foi uma das figuras mais insignes da Ordem Franciscana na Ásia e um dos historiadores fundamentais para compreender o Padroado Português no Oriente durante o Século XVII. Tal como frei Paulo da Trindade, a sua vida e obra são pilares da memória de Macau e da presença portuguesa na Ásia.

Jacinto de Deus nasceu em Macau, no ano de 1612. Era filho de moradores de Macau, Pedro Soares, destacado cidadão do território, e Cecília Cunha, provavelmente de origem asiática. A origem macaense desta personalidade é de extrema relevância, pois sublinha o papel da cidade como viveiro de intelectuais e religiosos que conheciam profundamente as dinâmicas locais, ao contrário dos missionários que chegavam directamente da Europa. Macau não era apenas comércio, negócio e materialidade mundana. Respirava-se santidade e o fervor de missão era notório entre os religiosos que aqui operavam, além dos “filhos da terra” que abraçavam a vida eclesiástica.

Ainda jovem, professou na Ordem dos Frades Menores (Franciscanos), na Província de São Tomé da Índia Oriental, mais precisamente em Goa. A vocação adveio em Macau, na mocidade, tocado pelo exemplo da comunidade franciscana que trabalhava na urbe, com convento fundado em 1580, na área do que é hoje o Jardim de São Francisco. Foi fundado por frades hispano-filipinos, de Manila, o que pode estar na origem da designação em Chinês daquela zona (加思欄花園, “Ka-Si-Lán-Fa-Yun”, “jardim dos castelhanos”).

Jacinto completara os seus estudos em Goa, onde professara em 1630. É provável que tenha vivido sempre na capital do Estado Português da Índia, onde desempenhou diversos cargos de natureza eclesiástica e ensinou Teologia. Faleceu em Goa, em 1681.

A inteligência e capacidade de escrita cedo o destacaram na Ordem, levando-o a assumir cargos de grande responsabilidade e a realizar viagens extensas nas missões asiáticas. O seu percurso eclesiástico e missionário atesta esse valor. Com efeito, a vida de frei Jacinto foi marcada por uma itinerância constante e pelo serviço administrativo e espiritual em diversos pontos estratégicos. Foi ministro da Província Franciscana de São Tomé da Índia Oriental. O cargo de Provincial da sua Ordem em Goa era a posição mais elevada da jurisdição franciscana no Oriente. Foi também comissário do Santo Ofício. Tal como outros grandes intelectuais da época, serviu a Inquisição em Goa, o que lhe conferia um estatuto de autoridade teológica e jurídica. Além disso, esteve activo nas missões asiáticas, em particular no Sudeste do continente. Viajou e trabalhou em diversas regiões, incluindo o Camboja e o Vietname (então reinos de Cochinchina e Tonquim), o que lhe permitiu recolher informações em primeira mão sobre a resistência do Catolicismo em terras hostis.

A fama de que veio a ser bafejado adveio da obra intitulada “Vergel de Plantas e Flores”, publicada em Goa no ano de 1690 – postumamente, pois, como vimos, falecera em 8 de Maio de 1681. A obra é uma crónica detalhada que descreve as províncias franciscanas no Oriente, mas vai muito além da história religiosa. Trata-se de um compêndio geográfico, histórico e etnográfico. Entre os seus escritos, é o que tem mais ligações com Macau, pois abrange uma ampla descrição do Império da China, bem como inúmeras referências às actividades dos franciscanos em Macau. O livro contém descrições preciosas do que era a Cidade de Macau no Século XVII, detalhando a fundação dos conventos, a vida social e as dificuldades económicas impostas pela queda de Malaca (1641) e pelo isolamento do Japão.

Frei Jacinto escreveu com o objectivo de exaltar o papel dos franciscanos na evangelização, muitas vezes em contraponto à influência crescente dos jesuítas, oferecendo-nos, assim, uma visão valiosa das tensões internas entre as Ordens religiosas no Padroado.

Quanto ao seu pensamento estratégico e político, podemos referir que frei Jacinto de Deus não era apenas um cronista; era também um observador político atento. Nos seus escritos, defendia com convicção a necessidade de Macau manter relações comerciais e diplomáticas fortes com os reinos vizinhos (China, Sião e Camboja) para garantir a sobrevivência da presença portuguesa.

O seu estilo literário é típico do barroco, sendo erudito, rico em metáforas e referências clássicas, mas com uma clareza que revela a sua formação jurídica e administrativa. Deixou um legado de rigor histórico que serviu de base a muitos historiadores modernos da Expansão Portuguesa. Na historiografia macaense, juntamente com Paulo da Trindade, é o grande historiador de Macau do Século XVII. Para a identidade regional, representa a afirmação do clero nascido na Ásia, capaz de gerir os destinos da Igreja no Oriente.

Como fonte primária, o “Vergel de Plantas e Flores” continua a ser uma consulta obrigatória para qualquer estudo sobre a presença cristã no Sudeste da Ásia.

Frei Jacinto é uma das evidências de que Macau não era apenas um porto de comércio, mas um centro de irradiação cultural e intelectual que moldou a consciência histórica do Oriente Português.

Vítor Teixeira

Universidade Fernando Pessoa

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