Giulio Aleni: saber entre-dinástico
Giulio Aleni (1582-1649) – cujo nome viria a ser venerado na China sob a forma sinizada de Ài Rúlüè (艾儒略) – figura como uma das mais geniais e proeminentes personalidades da segunda geração da missão jesuíta no Império do Meio. Herdeiro directo do método de aculturação cultural inaugurado por Mateus Ricci, a sua vasta erudição científica, geográfica e teológica valeu-lhe dos próprios letrados e mandarins chineses o honroso cognome de “Confúcio do Ocidente” (Xiyang Kongzi), consagrando-o como um dos mais extraordinários mediadores entre a Europa e a Ásia do Século XVII.
Nascido em Brescia, a 28 de Outubro de 1582, no seio de uma nobre família lombarda, Aleni ingressou na Companhia de Jesus em 1600. Revelando desde cedo uma inteligência brilhante e invulgar versatilidade académica, completou os estudos de Filosofia e Teologia na Universidade de Parma e no prestigiado Colégio Romano, onde foi discípulo do célebre astrónomo e matemático Christopher Clavius.
Alimentado pelo ideal de evangelizar as civilizações do Oriente, partiu para Lisboa em 1607, a fim de se submeter às formalidades do Padroado Português do Oriente, a cuja tutela jurídica a sua acção missionária ficaria doravante vinculada.
Em 1610, após uma longa e perigosa travessia marítima, Aleni aportou em Macau. A praça-forte portuguesa, sede do bispado e grande entreposto comercial e religioso, constituía então o laboratório por excelência da inculturação ocidental na Ásia. Ali permaneceu durante cerca de três anos, mergulhando com um rigor quase obsessivo no estudo de Mandarim, dos clássicos confucianos e do complexo protocolo da burocracia imperial. Foi também em Macau que desempenhou funções docentes no Colégio de São Paulo e publicou os seus primeiros trabalhos astronómicos, nomeadamente sobre o cálculo dos eclipses, demonstrando à elite erudita local a superioridade da Matemática europeia.
A entrada decisiva no interior do Império Ming ocorreu em 1613. Depois de percorrer províncias como Jiangnan, Pequim e Hangzhou – onde colaborou estreitamente com proeminentes letrados chineses convertidos, como Yang Tingyun e Xu Guangqi –, Aleni fixou-se em 1625 na província meridional de Fujian, região que viria a tornar-se o grande teatro do seu magistério espiritual e intelectual. A abordagem diplomática, caracterizada pelo respeito profundo pelas tradições morais locais e pelo trajar à maneira dos eruditos confucianos, permitiu-lhe fundar dezenas de comunidades cristãs e erguer pontes de diálogo sem precedentes com os mandarins e académicos locais.
O legado de Giulio Aleni na China é vastíssimo e abrange os mais diversos domínios do saber. No campo da Geografia e da Cosmografia, publicou o célebre Zhifang Waiji (1623), a primeira geografia do mundo exterior redigida em Chinês, que revelou aos intelectuais do Império do Meio a existência, a história, os costumes e a cartografia dos continentes europeu, africano e americano. No domínio da Teologia e da Filosofia moral, escreveu dezenas de tratados em verso e prosa de altíssimo nível literário, entre os quais sobressai a “Vida de Cristo” (Tianzhu Jiangsheng Yanxing Ji), ilustrada com gravuras de estilo europeu que adaptavam a arte ocidental à sensibilidade estética chinesa.
Além de todas estas empresas de erudição, Aleni foi o principal dinamizador das memoráveis conferências teológicas e filosóficas registadas no Kouduo Richao (“Diário dos Actos e Palavras”), onde, ao lado de outros confrades como o lituano André Rudamina, respondeu com graciosidade e profundidade conceptiva às dúvidas dos sábios chineses sobre a natureza de Deus, a imortalidade da alma e a ciência do Ocidente.
Mesmo durante o trágico período da queda da Dinastia Ming e da subsequente invasão dos Manchus (Dinastia Qing), que espalhou o caos e a destruição pelo País, Aleni permaneceu corajosamente junto das suas comunidades em Fujian, actuando como protector da população civil e garantindo a sobrevivência da Missão. Veio a falecer em Yanping a 3 de Agosto de 1649, com 66 anos de idade, deixando uma marca indelével na História da Sinologia e do diálogo intercultural. Foi sepultado com grandes manifestações de veneração junto a Fuzhou, permanecendo a sua memória viva como a do sábio ocidental que melhor soube falar ao coração e à inteligência da China clássica.
Vítor Teixeira
Universidade Fernando Pessoa

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