Jean-François Gerbillon: De Macau para a paz entre a China e a Rússia
Jean-François Gerbillon (1654-1707) foi, ao lado de Joaquim Bouvet, uma das personalidades mais influentes da histórica missão dos “Matemáticos do Rei” enviada por França para o Império do Meio, no final do Século XVII. Enquanto a trajectória de Bouvet se notabilizou sobretudo pela especulação teológica e pelo diálogo filosófico, o percurso de Gerbillon distinguiu-se pela sua extraordinária habilidade diplomática, pela mestria linguística e pela intervenção decisiva na alta política internacional da Ásia Oriental.
Nascido em Épernay, na região de Champagne, ingressou na Companhia de Jesus em 1670. Revelando desde cedo um talento excepcional para as ciências exactas e uma vivacidade intelectual invulgar, completou os estudos e foi um dos escolhos de Luís XIV para integrar a célebre expedição científica de 1685. O objectivo de Versalhes era duplo e ambicioso: afirmar a presença cultural e geopolítica francesa no Oriente e recolher dados científicos de elevado rigor para a Académie des Sciences de Paris, desafiando a hegemonia secular do Padroado Português.
A viagem conduziu o jovem jesuíta através da Tailândia e da costa chinesa, culminando na incontornável passagem por Macau em 1687. Aqui, Gerbillon enfrentou o mesmo clima de viva apreensão diplomática que cercava a missão francesa, vista com óbvia desconfiança pelas autoridades eclesiásticas e civis fiéis à Coroa de Portugal. Contudo, Macau funcionou, mais uma vez, como a grande escola de aculturação. Foi durante esta estadia que Gerbillon acelerou a aprendizagem das línguas locais, dedicando-se com particular afinco ao estudo do Manchu – a língua da Dinastia Qing governante –, um conhecimento que viria a revelar-se o instrumento crucial de todo o seu percurso subsequente.
Admitido no Palácio Imperial de Pequim em 1688, na companhia de Bouvet, conquistou Gerbillon rapidamente a estima e a confiança pessoais do Imperador Kangxi. O monarca, fascinado pela erudição europeia, tomou-o como preceptor em matérias de Matemática, Geometria e Filosofia natural. No entanto, foi no domínio da diplomacia que o nome de Gerbillon ficou indelevelmente gravado na História Mundial.
Em 1689, perante o escalar das tensões militares entre o Império Qing e o Império Russo na fronteira da Sibéria, Kangxi nomeou Gerbillon e o seu confrade Tomás Pereira, português, como intérpretes e conselheiros oficiais da delegação chinesa nas negociações de paz. O resultado deste melindroso encontro foi a assinatura do histórico Tratado de Nerchinsk (1689) – o primeiro tratado diplomático celebrado pela China com uma potência europeia em moldes de igualdade soberana.
A mestria de Gerbillon, capaz de traduzir e mediar negociações complexas em Manchu, Latim e Russo, foi unanimemente reconhecida por ambos os lados como o factor determinante para evitar um conflito devastador e fixar as fronteiras setentrionais da Ásia.
Como recompensa por este feito memorável e pelo serviço prestado na cura de uma grave epidemia de malária na Corte através da introdução do quinino, o Imperador Kangxi promulgou em 1692 o famoso Édito de Tolerância. Este documento histórico concedeu aos cristãos a liberdade de culto e de pregação em todo o território imperial chinês, representando o momento de maior abertura e acolhimento do Cristianismo na história da Dinastia Qing.
Nos anos seguintes, a influência de Gerbillon continuou a crescer. Acompanhou o Imperador em oito expedições militares e científicas à Tartária e à Mongólia, realizando observações geográficas e cartográficas de valor inestimável que permitiram mapear, pela primeira vez com precisão ocidental, vastas regiões do interior da Ásia. A proximidade ao poder valeu-lhe ainda a permissão imperial para erguer a primeira igreja católica no interior da Cidade Proibida (o Beitang ou Igreja do Norte), cuja construção acompanhou de perto.
Nomeado Superior Geral da Missão Francesa em Pequim e, mais tarde, Provincial, Gerbillon procurou incansavelmente proteger a comunidade cristã dos ventos ciclónicos da Querela dos Ritos Chineses. A profunda compreensão da cultura cortesã permitiu-lhe atenuar os choques entre as exigências de Roma e a susceptibilidade do Imperador, mantendo o diálogo aberto até ao limite das suas forças.
Jean-François Gerbillon faleceu em Pequim a 27 de Março de 1707, com 53 anos de idade, sendo sepultado com honras imperiais no cemitério jesuíta de Zhalan (Chala). Deixou para a posteridade um vasto legado de escritos geográficos e diários de viagem de valor incalculável para a historiografia moderna, consagrando-se como um dos mais brilhantes diplomatas, cientistas e mediadores culturais que a Europa alguma vez enviou ao Oriente.
Vítor Teixeira
Universidade Fernando Pessoa

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