Joaquim Bouvet: à procura de Deus no I Ching

MISSÃO: DIOCESE DE MACAU – 450 ANOS DE HISTÓRIA – 22

Joaquim Bouvet: à procura de Deus no I Ching

A vida e obra de Joaquim Bouvet (1656-1730) constituem um dos capítulos mais fascinantes e frutuosos da história dos encontros culturais entre o Ocidente e o Extremo Oriente.

Jesuíta, matemático, astrónomo e linguista, Bouvet encarnou, de forma exemplar, o ideal do sábio renascentista e barrocamente erudito ao serviço da fé, distinguindo-se não apenas pelo seu incontestável fervor missionário, mas também pelo papel pioneiro que desempenhou no nascimento da sinologia europeia e na aproximação científica com a Corte do Império do Meio.

Nascido em Le Mans, França, ingressou na Companhia de Jesus aos dezassete anos de idade, onde recebeu uma formação intelectual rigorosa, focada na Filosofia, na Teologia e, muito em especial, nas ciências exactas.

Na segunda metade do Século XVII, a Europa vivia um período de intensa rivalidade geopolítica e científica. Luís XIV, o Rei Sol, consciente do prestígio que a Ciência conferia às coroas europeias e desejoso de rivalizar com o monopólio ibérico na Ásia, decidiu enviar para a China uma missão composta por destacados intelectuais jesuítas. Conhecidos como os “Matemáticos do Rei”, este grupo – do qual Bouvet fazia parte ao lado de figuras como Jean-François Gerbillon – tinha o duplo propósito de propagar o Evangelho e de realizar observações astronómicas e cartográficas sob os auspícios da Académie des Sciences de Paris.

A expedição partiu de Brest em 1685 e, após uma atribulada viagem que passou pelo Reino do Sião, os jesuítas aportaram em Ningbo no ano de 1687. Para aceder ao coração do Império e regularizar a sua presença, a passagem por Macau revelou-se um imperativo incontornável. Cidade episcopal e histórico baluarte do Padroado Português do Oriente, Macau era então a grande porta de entrada da Europa no Extremo Oriente. A chegada de Bouvet e dos seus confrades franceses gerou compreensível reserva diplomática e eclesiástica entre as autoridades locais portuguesas, que viam no patrocínio de Versalhes uma ameaça directa à sua jurisdição secular. Contudo, a subtileza diplomática dos jesuítas, aliada ao manifesto valor da sua erudição científica e à urgente necessidade de matemáticos na Corte Imperial, permitiu-lhes contornar os entraves burocráticos.

Em Macau, Bouvet viveu um período fundamental de aclimatação cultural, linguística e teológica, imergindo no estudo do Mandarim e familiarizando-se com a estratégia de acomodação cultural iniciada no Século anterior por Mateus Ricci.

Em 1688, Joaquim Bouvet e Gerbillon entraram finalmente em Pequim, onde foram recebidos no Palácio Imperial pelo Imperador Kangxi, da Dinastia Qing. Soberano de notável abertura intelectual e curiosidade científica, Kangxi ficou tão impressionado pelos conhecimentos dos dois franceses que os nomeou seus mestres e preceptores pessoais.

Ao longo de vários anos, Bouvet traduziu para a língua manchu obras fundamentais da ciência europeia, como os “Elementos de Euclides” e diversos tratados de Anatomia e Geometria, ensinando ao Imperador matérias que iam da Álgebra à Mecânica. A relevância da sua presença na Corte atingiu o auge quando introduziu o uso do quinino no tratamento de uma maleita de malária que afectava o Imperador; a cura do monarca não só salvou a sua vida, como também elevou incomensuravelmente o prestígio dos jesuítas em todo o Império.

A profunda confiança que o soberano depositava no jesuíta francês levou-o a nomear Bouvet seu embaixador pessoal junto das cortes europeias em 1693. Com a missão de entregar missivas e presentes valiosos a Luís XIV e de recrutar mais cientistas para a Corte de Pequim, Bouvet regressou à Europa. Durante a sua estadia no Velho Continente, publicou obras de enorme repercussão, entre as quais se destaca um estudo histórico e panegírico sobre Kangxi, no qual apresentou o soberano chinês ao público ocidental como o arquétipo perfeito do monarca esclarecido e virtuoso.

Após o seu regresso à China em 1699, Bouvet dedicou os seus últimos anos ao desenvolvimento de uma teoria teológico-filosófica de singular ousadia, conhecida como Figurionismo. Influenciado pela hermenêutica cristã primitiva, Bouvet defendia que os textos clássicos da antiga tradição chinesa, nomeadamente o I Ching (o Livro das Mutações), não deviam ser lidos como obras pagãs, mas sim como escritos que continham, sob a forma de alegorias ou figuras, as verdades universais da revelação bíblica. Na sua visão, os antigos chineses teriam sido monoteístas e figuras míticas como o Imperador Fuxi não seriam senão transmutações do patriarca bíblico Enoque ou de Noé. A conversão da China não devia, por isso, ser vista como a imposição de uma fé estrangeira, mas como o regresso à sua pureza espiritual ancestral. Esta fascinante tese levou Bouvet a manter uma memorável correspondência com o filósofo e matemático alemão Gottfried Wilhelm Leibniz, a quem demonstrou a surpreendente correspondência entre os hexagramas do I Ching e o sistema numérico binário que Leibniz acabara de conceber em França.

Apesar deste brilhantismo intelectual, os últimos anos de vida de Bouvet foram ensombrados pela trágica controvérsia da Querela dos Ritos Chineses. A condenação papal das homenagens tradicionais prestadas a Confúcio e aos antepassados – Bouvet e os seus companheiros sempre defenderam ser meros actos de respeito civil e não de idolatria religiosa – provocou uma profunda crise diplomática com o Imperador e conduziu ao declínio da idade de ouro das missões na China.

Não obstante o clima de progressivo isolamento e desconfiança, Joaquim Bouvet permaneceu em Pequim até ao fim dos seus dias, respeitado pela Corte e fiel à sua vocação de ponte entre mundos. Faleceu na capital imperial a 28 de Junho de 1730, deixando atrás de si um legado imaterial inestimável na história do diálogo intercultural, da diplomacia científica e do pensamento filosófico universal.

Vítor Teixeira

Universidade Fernando Pessoa

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