Diego de Pantoja: pensamento clássico com ética confucionista
Diego de Pantoja, conhecido em Chinês como Pang Diwo e figura que muito viveu à sombra de Mateus Ricci, foi um pilar da consolidação da missão jesuíta em Pequim e um sinólogo excepcional. O seu percurso, que culminou num amargo exílio em Macau, testemunha a complexidade do encontro entre a Europa da Contra-Reforma e a China Ming tardia. A sua obra encarna não só o esforço evangelizador, mas também um dos primeiros e mais profundos diálogos científicos e culturais entre as duas civilizações.
Nascido em Valdemoro, ano de 1571, no seio da pequena nobreza, entrou na Companhia de Jesus em 1589, na província de Toledo. Movido pelo fervor missionário para com o Oriente, partiu em 1596, provavelmente de Lisboa. Chegado a Goa em 1597, estudou Teologia no Colégio de São Paulo. O visitador Alessandro Valignano, estratega da “adaptação cultural”, destinou-o à China. Em Macau, Pantoja preparou-se intensamente: aprendeu Mandarim e os rudimentos do Cantonês, estudou os Clássicos de Confúcio e assimilou a etiqueta e a caligrafia imperiais. Recebeu a ordenação sacerdotal por volta de 1598.
Em 1601, acompanhou Ricci até Pequim a fim de oferecer presentes ao Imperador Wanli. Tornou-se o colaborador mais próximo de Ricci, aperfeiçoando o estilo das obras do mestre, aplicando-se à Matemática e à Astronomia, tendo corrigido o calendário imperial ao lado do letrado Xu Guangqi. Destacou-se ainda ao ensinar os eunucos a tocar cravo e ao compor oito canções em Chinês – marco precursor da fusão musical sino-europeia.
Após a morte de Ricci em 1610, Pantoja assumiu a liderança da Missão de Pequim. Cultivou a amizade dos “Três Pilares da Igreja Chinesa” (como Xu Guangqi e Li Zhizao) e revelou-se um autor prolífico. A sua obra-prima moral, “Sete Vitórias” (Qi Ke), descrevia a superação dos sete pecados capitais, articulando virtudes cristãs e confucionistas, acabando por alcançar enorme sucesso entre a elite letrada. Ademais, introduziu a verdadeira geografia mundial na China, mediante mapas e tratados que descreviam a Europa, o que ajudou a desmantelar mitos e a alargar o horizonte mental chinês.
Em 1616, a hostilidade do vice-ministro dos Ritos de Nanquim, Shen Que, desencadeou uma perseguição contra os cristãos. Acusados de espionagem e de subversão da tradição, os jesuítas foram detidos. O édito imperial de 1617 decretou a expulsão dos missionários, sendo Pantoja escoltado até Macau em Julho de 1617. Fisicamente esgotado e encarado com apreensão pelas autoridades locais, passou os seus últimos meses a documentar a perseguição para Roma. Faleceu em Macau a 9 de Julho de 1618, com 47 anos. Foi sepultado no Colégio de São Paulo.
O seu legado é vastíssimo. Na Europa, os seus relatos moldaram a visão ocidental sobre um Império Chinês sofisticado. Na Teologia e na Filosofia, encarnou acomodação transcultural ao cruzar Cícero, Séneca e Aristóteles com a ética confucionista, que via como base moral e não como idolatria. Na Ciência, debelou a cosmologia sinocêntrica. Pantoja foi o paradigma do erudito feito chinês, do diplomata da ciência e do mártir de um ideal precursor de diálogo global.
Vítor Teixeira
Universidade Fernando Pessoa

Follow