Frei Paulo da Trindade, um cronista macaense
Não é um dos missionários mais conhecidos que trabalharam em Macau. Mas é um dos “filhos da terra” mais notáveis a nascer na Cidade do (Santo) Nome de Deus. Por isso, decidimos começar esta memória dos missionários de Macau com um natural do território. O que é, por si só, singular e de grande importância histórica, apesar de ser quase desconhecido em Macau. Falamos de frei Paulo da Trindade, macaense, franciscano e cronista da sua Ordem religiosa.
Paulo da Trindade, OFM, é uma das figuras centrais da historiografia franciscana do Oriente e um dos mais importantes cronistas nascidos em Macau na época moderna. A sua naturalidade é um marco importante, pois representa a primeira geração de intelectuais nascidos no pequeno enclave e que viriam a ocupar cargos de relevo no Império Português.
Este missionário terá nascido entre 1570 e 1571, provavelmente no seio de uma família de portugueses ou luso-descendentes estabelecida na Ásia, num contexto em que a cidade se afirmava como entreposto-chave entre o mundo luso-indiano, a China e o Japão. É recordado como filho de pai português, pelo menos, provavelmente reinol, de origem ilustre, como nos refere Diogo Barbosa Machado na sua “Bibliotheca Lusitana”. Não se sabe ao certo quando entrou na Ordem dos Frades Menores, mas poderá ter sido entre finais da década de 1580 e 1595, data em que nos aparece como o mais novo dos coristas do convento de Santo António de Baçaim (Índia), da Província de São Tomé. No final do século XVI, já surge como corista no convento de Santo António de Baçaim, então um importante centro franciscano na costa ocidental da Índia. A formação teológica e intelectual deste ilustre é visível na nomeação, em 1618, como Leitor de Prima de Teologia no Colégio de São Boaventura, em Goa, função que pressupunha sólida preparação doutrinal e capacidade de ensino.
Ao longo da primeira metade do Século XVII, Paulo da Trindade exerceu diversos cargos de responsabilidade na Província de São Tomé da Índia Oriental. Entre 1633 e 1636, foi Comissário-Geral dos franciscanos na Índia, isto é, superior com competências amplas sobre as casas e os missionários da Província, num território que se estendia do Cabo da Boa Esperança ao Japão. Em 1636, foi nomeado deputado do Tribunal do Santo Ofício de Goa, o que o coloca também no centro das estruturas de vigilância doutrinal e disciplinar da cristandade luso-oriental. Esta dupla pertença – governo franciscano e participação no Santo Ofício – ajuda a compreender o tom, simultaneamente apologético, disciplinador e, por vezes, polémico, da sua grande obra.
Frei Paulo da Trindade faleceu em 1651, em Goa, já consagrado como cronista maior dos franciscanos do Oriente.
A sua notoriedade assenta, sobretudo, na volumosa crónica “Conquista Espiritual do Oriente”, em que se dá relação de algumas “cousas” mais notáveis que fizeram os frades menores da referida Província. Pregaram a fé e converteram infiéis em mais de trinta reinos – recorde-se, desde o Cabo de Boa Esperança até às remotíssimas ilhas do Japão. A obra que nos deixou foi redigida entre 1630 e 1636, mas permaneceu manuscrita durante séculos, só vindo a ser impressa no Século XX. Estrutura-se em várias partes, combinando descrição geográfica do espaço asiático sob influência portuguesa com a narrativa da implantação franciscana: fundação de conventos, criação de custódias e províncias, biografias exemplares de frades, milagres e episódios de evangelização.
Paulo insiste no pioneirismo franciscano, afirmando que os frades menores teriam sido “os primeiros que passaram a este Oriente e estiveram nele quarenta e dois anos primeiro que viessem outros religiosos de outra Religião”, tendo-se dedicado com “grande espírito e fervor, como verdadeiros soldados de Cristo”.
A crónica é, simultaneamente, um repositório de informações geográficas e etnográficas sobre África Oriental, Índia, Sudeste Asiático e Japão, sendo ao mesmo tempo um texto de exaltação da Missão Franciscana no quadro da Expansão Portuguesa.
Autores contemporâneos sublinham como, em Paulo da Trindade, o conhecimento do espaço asiático é reorganizado a partir de uma geografia espiritual: reinos, povos e paisagens são lidos à luz da história sagrada, dos milagres e da lógica da “conquista espiritual”.
Enquanto macaense a residir na Índia, frei Paulo viveu numa encruzilhada de identidades: asiático de nascimento, lusófono, religioso de uma Ordem mendicante europeia e membro de estruturas-chave do Padroado de Goa. Tal reflecte‑se na forma como escreve. Reforça o lugar dos franciscanos na administração paroquial das chamadas Velhas Conquistas (como Bardez, na arquidiocese de Goa), sublinhando o papel dos frades como párocos de facto: administram Sacramentos, pregam, celebram casamentos e reorganizam o espaço religioso local. Narra com detalhe o combate às “superstições e idolatrias” dos “gentios”, revelando a tensão entre o reconhecimento da densidade religiosa dos contextos asiáticos e a necessidade, sentida pelo autor, de submeter tais universos à ortodoxia católica.
Na historiografia recente, Paulo da Trindade é estudado como exemplo de “orientalismo franciscano”: um tipo de discurso que integra informação etnográfica e geográfica rica, mas sempre subordinada a uma matriz teológica e a uma leitura providencial da expansão imperial. A sua obra permite ver, em simultâneo, a auto-imagem da missionação franciscana e as tensões entre a política imperial portuguesa, os interesses das Ordens religiosas e as dinâmicas locais na Ásia dos Séculos XVI e XVII.
Embora pouco conhecido fora dos meios especializados, estamos perante alguém que ocupa hoje um lugar de destaque nos estudos sobre o Cristianismo asiático de época moderna, a missionação franciscana e a história cultural de Macau e de Goa. Para a História de Macau, é uma figura emblemática de cronista macaense que projecta, em escala asiática, uma sensibilidade formada num dos principais nós da rede luso-oriental. Para a história da Ordem, a conquista espiritual do Oriente é fonte privilegiada acerca da Província de São Tomé da Índia Oriental, do papel dos franciscanos na administração paroquial e do modo como a Ordem construiu, em texto, a memória da sua presença em Angola e no Japão.
A escrita que adoptou é marcada por um forte tom apologético, mas também por grande capacidade descritiva, permanecendo actualmente como um observatório indispensável para compreender como um religioso nascido em Macau, formado em Goa e activo no coração da Índia Portuguesa via o vasto teatro da “conquista espiritual” do Oriente.
Vítor Teixeira
Universidade Fernando Pessoa
Fonte: “Cronologia da História de Macau” via macaulifestyle.com

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