Padre João Rodrigues Tçuzu: “Lingoa de Iapam”, guerras civis e ritos
Nascido em Sernancelhe, na diocese de Lamego, por volta de 1561 ou 1562, João Rodrigues, mais tarde conhecido como Tçuzu (transcrição portuguesa do japonês tsūji, “o Intérprete”), emergiu como uma das figuras mais notáveis da presença portuguesa e jesuítica no Extremo Oriente, entre finais do Século XVI e o início do Século XVII. Filho de uma época de expansão marítima e de fervor missionário, partiu ainda adolescente para a Ásia, embarcando numa viagem árdua que o levaria a tornar-se um linguista exímio, diplomata, comerciante, missionário e observador perspicaz das culturas que encontrou. A sua trajectória ilustra, como poucos, o entrecruzamento entre a evangelização, o comércio nanban e a diplomacia intercultural no mundo do Pacífico.
Chegado ao Japão por volta de 1577, ainda muito jovem, Rodrigues integrou-se rapidamente na dinâmica turbulenta do período Sengoku, marcado pelas guerras civis e pela ascensão de poderosos daimios. Envolveu-se inicialmente em campanhas militares ao lado de Otomo Yoshishige, daimio de Bungo (Funai), que mantinha relações amigáveis com os portugueses. Em 1580, com cerca de dezanove anos de idade, ingressou no noviciado jesuíta em Oita, num momento em que a comunidade cristã japonesa já contava com cerca de cem mil convertidos. A aptidão para as línguas manifestou-se cedo: dominou o Japonês com fluência notável, adquiriu conhecimentos de Han (chinês clássico) e revelou capacidades para traduzir documentos complexos, o que o tornou indispensável como intérprete.
Serviu Alessandro Valignano, Visitador da missão jesuíta, e Gaspar Coelho, Vice-provincial, actuando como ponte linguística e cultural. A sua pregação em Japonês começou em 1588, antes mesmo da ordenação. Impressionou Toyotomi Hideyoshi em 1590, servindo temporariamente como seu intérprete pessoal. Os estudos teológicos foram concluídos em Nagasaki, em 1593, sendo ordenado sacerdote em Macau no ano seguinte. Esta passagem por Macau, o entreposto português na China, foi fundamental: aí completou a formação sacerdotal e estabeleceu laços que marcariam toda a sua vida, regressando depois ao Japão em 1596.
No Japão, Rodrigues viveu mais de três décadas, tornando-se uma figura influente junto dos poderosos. Visitou o moribundo Hideyoshi em 1598, tentando sem sucesso a sua conversão. Sob Tokugawa Ieyasu, manteve-se influente, protegendo as missões jesuítas e os convertidos em Nagasaki, Osaka e Quioto. Actuou como procurador da missão japonesa, gerindo aspectos logísticos e comerciais, incluindo o lucrativo comércio de seda entre Macau e Nagasaki. A sua posição gerou invejas entre cortesãos japoneses e até testes de honestidade por parte de Ieyasu, que acabou por reconhecê-lo como leal. No entanto, incidentes diplomáticos, como o conflito em Macau em 1608, envolvendo marinheiros japoneses, e o episódio do navio Nossa Senhora da Graça (ou Madre de Deus) em 1609-1610, precipitaram a sua expulsão. Em 1614, após 33 anos no arquipélago, foi compelido a deixar o Japão, sendo substituído como intérprete pelo inglês William Adams.
De regresso a Macau, Rodrigues dedicou-se à missão chinesa, trabalhando inicialmente em Zhenjiang, perto de Nanquim, e percorrendo o interior em busca de vestígios da antiga Igreja do Oriente (nestoriana). Participou activamente na Controvérsia dos Ritos Chineses. Depois de ter sido um dos que mais aplicou a adaptação cultural e a observância das tradições e usos chineses, modificou em parte a sua posição já no final de vida, quase paradoxalmente, opondo-se, curiosamente, à abordagem acomodacionista de Mateus Ricci. Tçuzu acabou a defender uma maior fidelidade às práticas europeias face aos rituais confucianos e ancestrais.
A experiência japonesa conferiu-lhe uma perspectiva única, marcada por um maior cepticismo quanto à integração cultural profunda. Com efeito, Rodrigues aliou-se à facção interna dos jesuítas (liderada por Nicolò Longobardo) que “criticava” a abertura de Mateus Ricci. Após analisar o Neoconfucionismo (a interpretação oficial da época), Rodrigues concluiu que a elite letrada chinesa era, no fundo, ateia ou materialista, e que os ritos aos antepassados e a Confúcio tinham, sim, uma forte carga supersticiosa e religiosa, sendo incompatíveis com o Catolicismo. Em 1628, Rodrigues participou na importante Conferência de Jiading, onde os jesuítas da missão da China se reuniram para debater esta exacta questão. Rodrigues defendeu fervorosamente a proibição dos ritos e o abandono dos termos chineses para Deus (propondo que se usasse o termo latino Deus ou a transliteração Tianzhu – Senhor do Céu). Ou seja, embora apoiasse a acomodação cultural (o respeito à língua, ao vestuário, à ciência e à etiqueta chineses), traçava uma linha vermelha intransigente quanto a compromissos teológicos perigosos.
Em 1623, já com idade avançada, integrou uma expedição portuguesa a Pequim como intérprete, demonstrando os canhões europeus (hongyipao) às autoridades Ming, perante a ameaça manchú. Um acidente com um canhão, que causou mortes, levou o grupo de volta a Macau. Assumiu então as funções de procurador do Japão, gerindo o comércio e os assuntos da missão até 1627. Em 1629-1630, participou numa segunda missão de auxílio militar, treinando tropas em Dengzhou sob o governador cristão Sun Yuanhua. Durante esta estadia, encontrou o coreano Jeong Duwon, a quem ofereceu um telescópio, uma peça de artilharia e conhecimentos sobre a geografia e os costumes europeus, contribuindo, assim, para a difusão de saberes ocidentais na Coreia Joseon.
A sua produção intelectual é vasta e pioneira. Compilou o “Vocabvlario da Lingoa de Iapam” (Nippo Jisho, 1603), o primeiro dicionário Japonês-Português, e a “Arte da Lingoa de Iapam” (1604-1608), a primeira gramática sistemática da língua japonesa – obras fundamentais para o estudo do Japonês arcaico. Escreveu também a “História da Igreja do Japão”, rica em observações sobre história, cultura, cerimónia do chá e até elogios à santidade de monges budistas, revelando uma abertura de espírito notável. Em Macau, continuou a escrever e a ensinar no Colégio de São Paulo, a primeira Universidade ocidental no Extremo Oriente.
Faleceu em Macau em 1633 ou 1634, sendo sepultado na igreja da Madre de Deus (hoje “Ruínas de São Paulo”). A sua vida encarna o espírito da Companhia de Jesus: adaptação cultural, rigor intelectual e dedicação missionária, sempre mediada pela complexa rede de interesses comerciais e políticos que ligavam Portugal, Macau, o Japão e a China.
João Rodrigues Tçuzu não foi apenas intérprete de línguas, mas de mundos – um mediador cuja herança perdura na linguística, na historiografia e na memória das relações luso-asiáticas. A passagem por Macau, como porto de formação, refúgio e base de operações, foi o eixo que sustentou a sua longa e multifacetada carreira, tornando-o uma figura incontornável da história do Cristianismo e do encontro de civilizações no Oriente barroco.
Vítor Teixeira
Universidade Fernando Pessoa

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