Francisco de Pina: o pioneiro da modernização da língua vietnamita

MISSÃO: DIOCESE DE MACAU – 450 ANOS DE HISTÓRIA – 17

Francisco de Pina: o pioneiro da modernização da língua vietnamita

Francisco de Pina (1585-1625) nasceu na Guarda, em Portugal, por volta de 1585 (algumas fontes indicam 1586). Pouco se sabe sobre a infância e família, mas o seu percurso revela uma vocação precoce para o apostolado missionário num período de intensa actividade da Companhia de Jesus no Oriente. Em 1605, com cerca de vinte anos de idade, deu entrada na Companhia de Jesus, provavelmente no Colégio de Coimbra, onde iniciou a formação religiosa e académica.

A Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola, valorizava profundamente a formação intelectual e linguística dos seus membros, preparando-os para a evangelização em contextos culturais muito distintos. Pina seguiu esse caminho com determinação. Após os estudos iniciais em Portugal, partiu para o Oriente, integrando-se na Província Jesuítica do Japão e da China, que tinha em Macau o principal entreposto e centro de formação.

Entre 1611 e 1617, Francisco de Pina residiu no Colégio de São Paulo (ou Colégio da Madre de Deus), em Macau, então um enclave português fundamental na Ásia, porta de entrada para a China e base de operações missionárias. No Colégio, recebeu uma formação rigorosa em Teologia, Humanidades e Línguas Orientais, beneficiando do ambiente multicultural da cidade. Foi aí que contactou directamente com o legado linguístico de missionários jesuítas anteriores, nomeadamente as obras de João Rodrigues Tçuzu (ou João Rodrigues Girão), jesuíta português que elaborara uma gramática pioneira da língua japonesa (“Arte da Lingoa de Iapam”). Tçuzu chegou a Macau, vindo do Japão, por volta de 1614, e a sua metodologia de transliteração para caracteres latinos (usando a fonética portuguesa) influenciou profundamente Pina. Este viria também a aprofundar o estudo do Chinês, essencial para a penetração missionária no Império do Meio, que permanecia relativamente fechado aos estrangeiros. Macau serviu-lhe como plataforma de preparação: ali estudou, ensinou e interiorizou a estratégia jesuíta de “acomodação” cultural, defendida por figuras como Mateus Ricci, que procurava dialogar com as elites locais através da Ciência, da Filosofia e do respeito pelas tradições indígenas.

Embora a sua missão principal se tenha centrado mais tarde no Vietname, a passagem por Macau e o contacto indirecto com a China foram determinantes. O Colégio de São Paulo era o principal Seminário para missionários destinados à Ásia Oriental, funcionando como uma verdadeira “Universidade” intercultural onde se formavam intérpretes, astrónomos e evangelizadores.

Em 1617, Pina foi ordenado sacerdote (possivelmente em Malaca) e enviado para a Cochinchina (Dang Trong, actual Sul do Vietname), substituindo o jesuíta Diogo de Carvalho (beato). Acompanhou o trabalho iniciado por missionários, como o italiano Francesco Buzomi. Fixou residência principal em Hoi An (uma próspera cidade portuária com forte presença portuguesa e japonesa), mas actuou também em Quy Nhon e noutras localidades. Destacou-se por ter extraordinária capacidade linguística. Aprendeu o Anamita (antecessor da língua vietnamita) com tal proficiência que se tornou professor de outros missionários, incluindo o célebre Alexandre de Rhodes, SJ.

Insatisfeito com a barreira linguística que dificultava a evangelização directa, Pina dedicou-se ao estudo sistemático da fonética e da gramática locais. Utilizando o alfabeto latino e a experiência de transliteração portuguesa (influenciada por Rodrigues Tçuzu), criou o primeiro sistema de romanização da língua vietnamita, registando sons, tons e estruturas gramaticais. Compilou um vocabulário por volta de 1619 e um tratado de ortografia e fonética em 1622-1623.

Embora nenhuma das suas obras tenha sobrevivido na íntegra, este trabalho serviu de base fundamental ao “Dictionarium Annamiticum Lusitanum et Latinum” (1651), publicado por Alexandre de Rhodes em Roma. O dicionário trilíngue (Vietnamita-Português-Latim) foi decisivo para a criação do “chu Quoc ngu” – o alfabeto vietnamita moderno, que substituiu gradualmente os caracteres chineses (chu Han) e contribuiu enormemente para a alfabetização, a unificação linguística e a difusão do Cristianismo no Vietname. Pina via a aprendizagem da língua local não apenas como uma ferramenta missionária, mas como um acto de respeito e inculturação: pregava directamente em Vietnamita, sem intérpretes, tendo formado catequistas. A abordagem humanista e linguística deixou uma marca duradoura na história cultural do Vietname.

A 15 de Dezembro de 1625, com cerca de quarenta anos, Francisco de Pina morreu tragicamente afogado em Cua Dại (perto de Da Nang), ao tentar salvar passageiros de um barco naufragado proveniente de Macau. Foi sepultado em local desconhecido em Hoi An. A morte prematura interrompeu uma carreira promissora, mas o legado linguístico e missionário perdurou através dos seus discípulos.

Hoje, Francisco de Pina é reconhecido no Vietname e em Portugal como pioneiro da romanização da língua vietnamita. Em 2023-2025, foi homenageado com exposições, documentários (como “Francisco de Pina – O Português que Escreveu o Futuro do Vietname”) e esculturas, particularmente na Guarda e em Macau, destacando o seu papel na interculturalidade e na globalização cultural promovida pela presença portuguesa no Oriente.

Macau foi o grande centro formador de Pina e o elo fundamental com a China. O enclave permitiu-lhe aceder a conhecimentos linguísticos e missionários que transferiu para o Vietname. Embora não tenha desenvolvido uma longa actividade no interior da China (devido às restrições imperiais), o seu percurso ilustra a centralidade de Macau como uma “Roma do Oriente” – um centro onde os jesuítas portugueses preparavam a penetração cultural na Ásia. A sua obra contribuiu indirectamente para a estratégia jesuíta na China, tendo reforçado a importância do estudo das línguas locais. Encarna o espírito humanista e aventureiro da Companhia de Jesus no Século XVII: um missionário que, através da ciência da linguagem, construiu pontes duradouras entre culturas, deixando um legado que ainda hoje une Portugal, Macau, a China continental e o Vietname. A sua história é um testemunho eloquente do papel da educação, da curiosidade intelectual e do diálogo intercultural na história da globalização.

Vítor Teixeira

Universidade Fernando Pessoa

LEGENDA: Escultura “Estela”, em homenagem a Francisco de Pina (Guarda, Portugal)

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