Frei Diego de Oropesa: uma viagem conturbada à China
Frei Diego de Oropesa (também conhecido, em alguns registos históricos, como Frei Diego de San José) foi um destacado missionário franciscano espanhol do Século XVI, cuja acção evangelizadora e organizacional deixou uma marca profunda nas Filipinas. A sua importância histórica divide-se em três pilares fundamentais: como “Pai das Reduções” (Padre de las Reducciones); como fundador de cidades e paróquias; e como missionário na Ásia, envolvido em peripécias marítimas.
Na primeira dimensão, Diego de Oropesa foi, juntamente com o também franciscano Juan de Plasencia, um dos grandes arquitectos do sistema de “reducciones” nas Filipinas (particularmente a partir de 1579). O termo aplicava-se à estratégia de “reduzir” ou concentrar as populações indígenas locais – que viviam dispersas ou de forma nómada – em comunidades urbanas organizadas e compactas. Por terem estruturado com enorme sucesso dezenas de povoações nas regiões de La Laguna e Tayabas, na ilha de Luzón, ambos os frades receberam os títulos honoríficos de “Padres das Reduções” e “Apóstolos de Laguna e Tayabas”.
Como fundador de cidades e paróquias, Frei Diego de Oropesa esteve directamente envolvido na fundação, planeamento e conversão de vários municípios históricos, que subsistem até aos dias de hoje, como Calilayan (actual Unisan, na província de Quezon), fundada em 1578 juntamente com Juan de Plasencia; como Taytay, onde serviu numa comunidade de franciscanos pioneiros; ou como Siniloan (originalmente Guiling-guiling), estabelecida por volta de 1583.
O que respeita à China e Macau reside na sua faceta das missões na Ásia e às suas peripécias marítimas e exploratórias. Em 1583, a liderança e fervor missionário levaram-no a ser nomeado superior de uma comitiva enviada com o objectivo de abrir missões fora das Filipinas, viajando em direcção à China e ao Anam (actual Vietname). O destino original desta comitiva de sete missionários era a Península Indochinesa (com relatos que apontam para Hanói, no Vietname, ou para o Camboja). Contudo, esta expedição foi fustigada por fortes adversidades. Após sobreviverem a um violento tufão, o barco de Frei Diego, desgovernado e à deriva, foi forçado a atracar em Haikou, na ilha de Hainão, onde o religioso acabou por ser feito prisioneiro pelas autoridades chinesas. A chegada dos franciscanos espanhóis a Hainão ocorreu numa época em que a Dinastia Ming impunha uma rigorosa política de isolamento e proibição marítima (Haijin). Qualquer estrangeiro não autorizado que desembarcasse em solo chinês era visto com extrema desconfiança. Por isso, Diego e os seus companheiros foram detidos imediatamente pelas autoridades locais. Sem conseguirem explicar facilmente as suas intenções devido à barreira linguística, foram formalmente acusados de espionagem. Sob escolta militar, o grupo foi transferido da ilha de Hainão para o continente, sendo levado a Guangzhou (cidade de Cantão) e a Zhaoqing, os principais centros administrativos de Guangdong (Província de Cantão) onde aguardou julgamento.
Foi neste ponto que a rede diplomática e comercial europeia na Ásia entrou em acção. Sabendo da prisão dos religiosos espanhóis em Cantão, os mercadores portugueses estabelecidos no entreposto de Macau intercederam junto dos mandarins chineses. Os portugueses pagaram o resgate exigido pelas autoridades de Guangdong para garantir a libertação dos franciscanos. Uma vez libertados, Diego de Oropesa e os restantes frades foram enviados, sob protecção, para Macau. A libertação deveu-se à intervenção do famoso jesuíta italiano Mateus Ricci, que por ele intercedeu e conseguiu que fosse enviado com segurança para Macau.
Os franciscanos permaneceram no território por um curto período. Embora Macau já servisse de base espiritual para a Ásia, a forte rivalidade entre o Padroado Português e as missões provenientes das Filipinas espanholas (União Ibérica) limitou as possibilidades de fixação permanente da comitiva. Assim, ainda em 1585, Frei Diego e os seus companheiros conseguiram embarcar de regresso a Manila, pondo fim à atribulada e involuntária incursão em território chinês.
Embora Diego de Oropesa tenha entrado na China apenas por acidente e como prisioneiro, as relações ibéricas com o Império Ming intensificaram-se anos mais tarde, com a chegada de figuras que alcançaram a Corte imperial. Após o revés na China e o período em Macau, Frei Diego conseguiu regressar a Manila em 1585. Dedicou mais cinco anos à consolidação das missões que fundara na região de Laguna-Tayabas antes de iniciar a viagem de regresso à Europa. Faleceu no caminho, em 1590, na região de Acapulco (México).
As tentativas de entrada de Diego de Oropesa na China Continental e em Macau constituem um dos episódios mais dramáticos e rocambolescos das primeiras missões ibéricas na Ásia Oriental. Embora o seu grande objectivo inicial não fosse a China, o destino e as tempestades do Mar do Sul da China acabaram por ditar um rumo completamente diferente.
Vítor Teixeira
Universidade Fernando Pessoa
LEGENDA: Detalhe do “Mapa dos Cursos de Água” (Qian Gu e Zhang Fu, Dinastia Ming).

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