Frei Pedro de Alfaro

MISSÃO: DIOCESE DE MACAU – 450 ANOS DE HISTÓRIA – 15

Frei Pedro de Alfaro: Cantão, Fujian e ordem de expulsão

Frei Pedro de Alfaro (1525-1580), da Ordem dos Frades Menores (Franciscanos), foi um missionário espanhol, pioneiro na tentativa de estabelecer a presença franciscana na China e em Macau, no final do Século XVI.

Natural de Espanha (provavelmente da região de Castela), Pedro de Alfaro entrou nos Franciscanos Descalços, um ramo da observância franciscana ibérica. Em 1577 (ou 1578), partiu de Sanlúcar de Barrameda (Espanha), rumo às Filipinas, como primeiro Custódio (Superior) da Província de São Gregório Magno (a nova província franciscana nas Filipinas). Chegou com um grupo de cerca de catorze religiosos franciscanos, instalando-se inicialmente em Manila. Posteriormente, expandiram-se para várias províncias (Camarines, Panay, Cebu, Ilocos e Pangasinan), onde colaboraram com os Agostinhos na evangelização.

Em 1579, contrariando as restrições das autoridades espanholas e portuguesas, Alfaro organizou uma expedição missionária secreta que tinha como destino a China continental. Acompanhado por outros franciscanos – nomeadamente Giovanni Battista Lucarelli (italiano), Agustín de Tordesillas e Sebastián de Baeza –, partiu das Filipinas com o apoio de mercadores chineses (sangleys) de Fujian e de um jovem intérprete chinês, baptizado Juanito (ou Juanillo).

Chegaram a Cantão (Guangzhou) a 23 de Junho de 1579. Foram recebidos pelas autoridades chinesas, hospedados, e até celebraram Missa numa casa particular. O objectivo não era apenas evangelizar, mas também continuar os contactos diplomáticos iniciados pelos Agostinhos (como Martín de Rada em 1575) e explorar a costa de Fujian (Chincheo). No entanto, as autoridades chinesas, desconfiadas das intenções espanholas (temendo invasões ou espionagem), ordenaram a expulsão do grupo após alguns meses.

A 15 de Novembro de 1579, Alfaro e Lucarelli chegaram a Macau, vindos de Cantão. Os franciscanos foram os segundos religiosos (depois dos Jesuítas) a estabelecer-se no enclave português. Com autorização inicial das autoridades locais, fundaram o primeiro convento franciscano em Macau, dedicado a Nossa Senhora dos Anjos (ou Nossa Senhora da Assunção), que começou a funcionar a 2 de Fevereiro de 1580. Este convento é considerado o embrião da futura igreja e do Convento de São Francisco (mais tarde reconstruído).

A estadia em Macau foi marcada por fortes tensões geopolíticas, como a rivalidade luso-espanhola (Macau era território sob influência portuguesa, enquanto os franciscanos vinham das Filipinas espanholas). Havia ainda uma forte desconfiança dos Jesuítas, que detinham um quase monopólio na missão para a China. Além disso, geraram-se conflitos internos relativos à presença dos religiosos hispano-filipinos, com Alfaro a enviar cartas críticas aos portugueses, uma das quais foi interceptada.

Em Junho de 1580, o frade Pedro foi mesmo expulso de Macau, devido a comentários negativos sobre os portugueses numa carta enviada para Manila. Foi colocado em Goa para prestar contas, mas o navio naufragou antes de chegar a Malaca. Frei Lucarelli também acabou por ser expulso mais tarde.

Pedro de Alfaro morreu em 1580, provavelmente durante a viagem de regresso ou pouco depois, com cerca de 55 anos de idade. Apesar da curta duração e dos insucessos aparentes, a sua missão é historicamente significativa: representou a primeira tentativa organizada dos franciscanos espanhóis de entrar na China Ming e a fundação da presença franciscana em Macau. O convento que ajudou a estabelecer tornou-se um dos marcos religiosos da cidade, mesmo após várias reconstruções ao longo dos séculos.

A sua figura ilustra as complexas dinâmicas da expansão missionária ibérica na Ásia: rivalidades entre Ordens religiosas, tensões entre as Coroas de Portugal e Espanha (União Ibérica a partir de 1580) e as enormes dificuldades de penetração no Império Chinês. Fontes primárias incluem cartas do próprio Alfaro e relatos de companheiros como Lucarelli e Tordesillas.

Vítor Teixeira

Universidade Fernando Pessoa

LEGENDA: Cantão, no início do Século XVI

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