Alexandre de Rhodes, o impulsionar da plataforma Macau
Alexandre de Rhodes nasceu em Avinhão, na altura em território papal (hoje pertence a França), em 15 de Março de 1591, no seio de uma família de origens judaicas espanholas, convertidas ao Cristianismo. Em 1612, com 21 anos de idade, ingressou na Companhia de Jesus em Roma, onde realizou os estudos teológicos e científicos no prestigiado “Collegio Romano”. Foi neste período que desenvolveu o profundo desejo de partir para as missões do Oriente, inspirado pelo exemplo de São Francisco Xavier e de Mateus Ricci. Em 1618, após ser ordenado sacerdote, partiu para Lisboa, a placa giratória obrigatória para todos os missionários que seguiam para a Ásia sob o regime do Padroado Português.
Rhodes zarpou de Lisboa em 1619 rumo a Goa, onde permaneceu algum tempo antes de ser destinado à Missão do Japão. Contudo, devido às violentas perseguições anti-cristãs em solo nipónico, os seus superiores alteraram-lhe a rota, direccionando-o para a Indochina. Para lá chegar, teve de passar por Macau, o grande entreposto comercial e religioso de Portugal no Extremo Oriente.
O missionário chegou a Macau em 1623. Foi no Colégio de São Paulo que iniciou uma preparação intensiva. Ali estudou Chinês e se familiarizou com os métodos de adaptação cultural (inculturação) preconizados pela Companhia de Jesus. Macau não foi apenas uma paragem momentânea; funcionou como o seu “porto de abrigo” e centro logístico. Sempre que era expulso dos territórios do Vietname devido às crises políticas locais, Rhodes refugiava-se em Macau (como aconteceu em 1630 e, mais tarde, entre 1640 e 1645). Foi também em Macau que analisou as notas linguísticas de outros jesuítas portugueses, cruciais para os trabalhos que veio a realizar.
A verdadeira notoriedade histórica de Alexandre de Rhodes adveio da sua extraordinária, mas turbulenta, acção missionária nas regiões que hoje constituem o Vietname (dividido, à época, entre o reino de Tonquim, a Norte, e a Cochinchina/Anam, a Sul). Chegou à Cochinchina em 1624. Demonstrando uma rapidez invulgar na aprendizagem de línguas, Rhodes começou a pregar directamente em Vietnamita, ao fim de escassos meses. Em 1627, subiu ao reino de Tonquim, onde a sua eficácia foi impressionante: baptizou milhares de pessoas, incluindo membros da corte real. O sucesso baseou-se na adaptação aos costumes locais (respeitando o culto dos antepassados na medida do aceitável do ponto de vista teológico) e na criação de um grupo de catequistas (leigos locais formados, que asseguravam a continuidade do culto na ausência de sacerdotes).
O rápido crescimento do Cristianismo alarmou os governantes locais, que viam na nova religião uma ameaça ao Confucionismo tradicional e às alianças políticas. Rhodes foi condenado à morte, pena posteriormente comutada em desterro definitivo. Deixou o Vietname em 1645, após ter sido preso e testemunhado o martírio de vários dos seus fiéis.
O contributo mais duradouro de Alexandre de Rhodes não foi estritamente religioso, mas sim linguístico. Embora não tenha sido o único autor do processo, Rhodes fixou e sistematizou a romanização da língua vietnamita. Apoiando-se no trabalho pioneiro de missionários portugueses que o antecederam em Macau e no Vietname – como Francisco de Pina, Gaspar do Amaral e António Barbosa –, publicou em Roma, no ano de 1651, o “Dictionarium Annamiticum Lusitanum et Latinum” (Dicionário Anamita-Português-Latim). Este dicionário utilizou o alfabeto latino complementado por sinais diacríticos (muitos deles herdados da fonética portuguesa, como o uso do “nh”) para mapear os tons da língua vietnamita. Este sistema, conhecido como Quốc Ngữ (“língua nacional”), acabou por substituir a escrita tradicional baseada nos caracteres chineses e é, ainda hoje, a escrita oficial do Vietname.
Ao regressar à Europa, em 1649, Rhodes tinha como objectivo assegurar junto do Papa Inocêncio X o envio de bispos e o reforço do clero local na Ásia. Contudo, as suas diligências em Roma chocaram com os interesses do Padroado Português, que reivindicava o controlo exclusivo das missões no Oriente. Perante o impasse político, a Santa Sé acabou por fundar, anos mais tarde, a Sociedade das Missões Estrangeiras de Paris, inspirada no modelo de Rhodes. Percebendo que o seu regresso ao Vietname era impossível, o jesuíta ofereceu-se como voluntário para uma nova missão. Em 1654, foi enviado para a Pérsia (actual Irão), onde a Companhia de Jesus tentava estabelecer uma presença estável. Faleceu em Isfahan, também na Pérsia, a 5 de Novembro de 1660, com 69 anos de idade, deixando uma obra literária vasta que inclui relatos de viagens, tratados de Catequese e o celebrizado dicionário trilíngue.
Vítor Teixeira
Universidade Fernando Pessoa

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