Ferdinand Verbiest

MISSÃO: DIOCESE DE MACAU – 450 ANOS DE HISTÓRIA – 12

Ferdinand Verbiest: o jesuíta que ligou os céus da Europa ao Império da China

Ferdinand Verbiest (1623-1688) foi um padre jesuíta, missionário, astrónomo e cientista flamengo, cuja vida e obra se destacaram pela notável conjugação entre fé, ciência e diplomacia no contexto das relações entre a Europa e o Império Chinês do Século XVII. A trajectória pessoal faz dele uma das figuras mais significativas do intercâmbio científico e cultural entre o Ocidente e o Oriente.
Nascido a 9 de Outubro de 1623, em Pittem, na Flandres Ocidental (actual Bélgica), Verbiest estudou Humanidades em Bruges e Filosofia e Teologia em Lovaina e depois em Roma, onde deu provas de grande talento nas Ciências Matemáticas e na Astronomia. Entrou para a Companhia de Jesus em 1641, atraído pelo ideal missionário e pelo espírito de serviço intelectual e religioso próprio dos jesuítas. O primeiro intento missionário era ir para a América Espanhola, mas acabou por trocar de bússola e rumou para o Oriente, por disposição dos Superiores da Companhia.
A 4 de Abril de 1657, Verbiest partiu de Lisboa para a China, via Goa, acompanhado pelo padre Martino Martini, mais 35 outros missionários, o Vice-Rei português da Índia e alguns outros passageiros. O navio chegou a Macau em 17 de Julho de 1658, altura em que todos os passageiros, excepto dez – incluindo o Vice-Rei e vários missionários – já tinham morrido. Durante a estada em Macau, dedicou-se ao estudo intensivo da língua e da cultura chinesas, preparando-se para a actividade missionária no interior da China. Macau era nessa época ponto de formação e adaptação dos missionários destinados ao Império do Meio e foi também onde Verbiest teve contacto com os sucessos e os desafios enfrentados pelos seus confrades, nomeadamente os que prosseguiam a obra de Mateus Ricci, pioneiro da aculturação entre Cristianismo e Confucionismo.
Esta passagem por Macau foi essencial para o amadurecimento intelectual e espiritual, marcando o início de uma missão que viria a ter enorme impacto na ciência e na corte imperial chinesa.
Verbiest assumiu o primeiro posto em Shaanxi, liderando a missão até 1660, ano em que foi chamado para assistir – e mais tarde substituir – o padre jesuíta Johann Adam Schall von Bell, director do Observatório de Pequim e chefe da Junta de Matemática, no seu projecto de Astronomia. Infelizmente para ambos, a situação política mudou drasticamente em 1661, após a morte do jovem Imperador Shunzhi, aos 23 anos de idade. O filho e sucessor, Xuanye (o Imperador Kangxi), tinha apenas sete anos, pelo que o Governo foi entregue a quatro regentes. Ao contrário de Shunzhi, os regentes não eram favoráveis aos jesuítas, que, consequentemente, passaram a sofrer uma perseguição crescente.
Acalmada a situação, a profunda formação matemática e astronómica levou-o a ser chamado à corte imperial durante o reinado do Imperador Kangxi (1661-1722), da dinastia Qing. Na sequência das disputas em torno do Calendário – uma questão de grande importância política e ritual na China –, Verbiest foi convidado a colaborar no Observatório Astronómico de Pequim, tendo-se distinguido por corrigir erros nos cálculos de eclipses cometidos pelos astrónomos chineses. A precisão e competência científica valeram-lhe o favor imperial. Em 1669 foi nomeado superintendente do Observatório e do “Gabinete” do Calendário, sucedendo ao também jesuíta Adam Schall von Bell. Sob a sua direcção, foram empreendidos importantes trabalhos de reforma do Calendário Chinês, bem como a modernização dos instrumentos astronómicos, muitos dos quais foram desenhados e fabricados por ele próprio.
Verbiest manteve uma relação de grande respeito e amizade pessoal com o Imperador Kangxi, que o apreciava como homem de fé, de ciência e de notável integridade. Para além da Astronomia, realizou experiências de engenharia mecânica e hidráulica, e construiu, segundo diversas fontes, o primeiro veículo a vapor em miniatura conhecido, o que demonstra engenho e espírito inventivo.
Verbiest não foi apenas um cientista ao serviço da Corte: foi também um mediador cultural, promovendo um diálogo verdadeiro entre a tradição científica europeia e os saberes chineses. A sua obra escrita, tanto em Latim como em Chinês, inclui tratados de Astronomia, Matemática e Filosofia natural. A sua acção contribuiu decisivamente para o prestígio dos jesuítas na China e para o fortalecimento das relações sino-europeias nos domínios do conhecimento e da diplomacia. Faleceu em Pequim, em 1688, e foi sepultado num cemitério jesuíta (da Chala) perto da actual Cidade Proibida, local ainda hoje venerado como testemunho do legado ocidental no Oriente.
Foi um humanista e cientista completo, unindo Fé e Razão numa época de intensas transformações intelectuais. É considerado um intérprete exemplar do espírito jesuíta, capaz de dialogar com a cultura chinesa com mútua estima e compreensão. Por isso, é também uma figura-chave na história da ciência mundial, por ter introduzido métodos europeus de Astronomia e Matemática na China imperial, símbolo do intercâmbio luso-chinês, cuja passagem por Macau marca o elo entre os mundos europeu e oriental. Ferdinand Verbiest permanece como um dos mais ilustres representantes do encontro entre o Cristianismo europeu e a civilização chinesa – um homem que soube, com inteligência e humildade, servir à fé e à ciência em benefício de um diálogo que ultrapassou séculos e fronteiras.

Vítor Teixeira
Universidade Fernando Pessoa

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