De Colónia até às Portas do Império do Meio: a odisseia de Johann Adam Schall von Bell
No início do Século XVII, Macau era um formigueiro humano onde se cruzavam a cobiça do comércio e sede de negócio, com o fervor religioso da Missão. Foi a este enclave português, estrategicamente encravado no Sul da China, que chegou, em 1619, um jovem jesuíta alemão destinado a mudar o curso da história científica e política da corte imperial de Pequim. Chamava-se Johann Adam Schall von Bell (ou Tang Ruowang – 湯若望). Nascido em Colónia (na actual Alemanha) a 1 de Maio de 1591, no seio de uma família nobre, o jovem matemático e astrónomo trocara o conforto europeu pela mais incerta e perigosa das missões católicas. Estudou no Colégio Jesuíta de Colónia e, mais tarde, mudou-se para Roma (1608) para estudar no prestigiado Collegium Germanicum. Neste estabelecimento de Ensino, onde se deu o seu despertar científico, estudou Matemática e Astronomia, tendo sido aluno de Christoph Clavius e testemunhado as primeiras grandes descobertas de Galileu Galilei com o telescópio.
Sacerdote católico, astrónomo, matemático, geógrafo, engenheiro militar e mandarim imperial, tem também uma passagem por Macau. Embora breve em termos cronológicos, Macau foi o crisol onde se temperou o homem que viria a ser mandarim de primeira classe e conselheiro íntimo do Imperador da China.
A chegada de Schall von Bell a Macau ocorreu em 1619. Antes, em 1618, partira de Lisboa, a bordo de uma nau portuguesa, rumo ao Oriente. Devido à perseguição aos cristãos na China continental (o Incidente de Nanjing), foi obrigado a permanecer em Macau cerca de quatro anos. Porém, a sua chegada a esta cidade deu-se num contexto atribulado e de tensão militar. Com efeito, o navio que o transportava de Goa, inserido na frota do novo Governador e do Visitador jesuíta Francisco Furtado, aportou numa terra em estado de alerta. A presença holandesa nos mares do Oriente ameaçava a hegemonia portuguesa, e o próprio colégio jesuíta de São Paulo, onde Schall se instalou, funcionava tanto como centro de alta cultura como de fortaleza, não apenas militar, mas também espiritual.
Na famosa Batalha de Macau (24 de Junho de 1622), destacou-se na defesa militar da cidade contra a tentativa de invasão holandesa. A passagem de Schall pelo território ficou indelevelmente marcada por este episódio militar, que testou a sua versatilidade e lhe conferiu uma aura de herói local. Uma poderosa frota da Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC) atacou Macau com o objectivo de expulsar os portugueses e tomar o controlo das rotas comerciais. Perante o desembarque inimigo na praia de Cacilhas e o pânico que se instalou na cidade, os jesuítas abandonaram os breviários e correram para os canhões. Schall von Bell, com os seus profundos conhecimentos de balística e matemática, assumiu um papel fulcral na defesa a partir da Fortaleza do Monte. Rezam as crónicas da época que terá sido um tiro certeiro, disparado sob a direcção dos jesuítas, que atingiu um barril de pólvora holandês e desorganizou as forças invasoras, forçando a uma retirada humilhante. O próprio Schall, no rescaldo dos combates, terá capturado pessoalmente quatro soldados holandeses, demonstrando uma coragem física que impressionou os oficiais portugueses e a elite macaense.
Foi também entre as paredes de pedra e os pátios do colégio – a primeira Universidade de estilo ocidental na Ásia – que o jesuíta alemão viveu o seu período de aculturação e provação.
A análise da sua estadia em Macau revela um período de intensa preparação intelectual e antropológica. Sob a estratégia desenhada anteriormente por Alessandro Valignano, Schall von Bell percebeu rapidamente que a conversão da China não se faria pela espada, mas pela sedução do intelecto. Em Macau, o jesuíta despiu-se mentalmente da sua matriz europeia. Dedicou-se, dia e noite, ao estudo hercúleo da língua portuguesa (a língua franca do comércio local), do Mandarim e, acima de tudo, dos clássicos confucianos. O jovem cientista compreendeu que, para dialogar com os letrados chineses, era preciso falar a sua linguagem conceptual e respeitar a milenar hierarquia de valores.
A referida vitória militar sobre os holandeses acabou por acelerar a sua partida para o interior do continente. O prestígio dos jesuítas como matemáticos e engenheiros capazes de fundir canhões e prever eclipses chegou aos ouvidos da Corte da Dinastia Ming, que enfrentava a terrível ameaça dos invasores manchus a Norte. Em 1623, a preparação de Schall von Bell em Macau estava concluída. O homem que deixou a Península em direcção a Pequim já não era apenas um sacerdote ocidental; era um astrónomo bilíngue, moldado pela matriz de tolerância e adaptação que Macau ensinava.
Assim, em 1623, viajou para Pequim e depois para Xian, impressionando as autoridades locais com a sua capacidade de prever eclipses solares com precisão. Chamado a Pequim em 1630, trabalhou com o colega jesuíta Giacomo Rho na monumental reforma do Calendário Chinês (o Chongzhen Lishu). Também a pedido do Imperador Chongzhen (último imperador Ming), Schall von Bell supervisionou a fundição de mais de cinquenta canhões de bronze para defender o Império contra as invasões dos manchus.
Olhando em retrospectiva, a passagem de Johann Adam Schall von Bell por Macau foi o ensaio geral para uma vida extraordinária. Foi no território macaense que refinou os instrumentos científicos que mais tarde utilizaria para reformar o calendário imperial chinês e conquistar a confiança do primeiro Imperador da Dinastia Qing, Shunzhi, que carinhosamente o tratava por Mafa (avô, em língua manchu). O seu apogeu na China ocorreu, pois, sob a Dinastia Qing (1644-1661). Quando os manchus invadiram Pequim e fundaram a Dinastia Qing, Schall von Bell decidiu não fugir. Antes apresentou-se aos novos governantes com o seu calendário reformado. O novo regime ficou tão impressionado que o nomeou Director do Gabinete Imperial de Astronomia. Foi o primeiro europeu a receber o título oficial de “Mandarim” (alcançando a primeira classe, o topo da hierarquia burocrática). Tornou-se tutor, conselheiro de Estado e amigo íntimo do jovem Imperador Shunzhi, que lhe havia de dar permissão para construir a primeira igreja católica pública em Pequim (a Nantang).
Macau não foi apenas uma escala na viagem de Schall von Bell; foi a fronteira onde aprendeu a arte de traduzir o Céu do Ocidente para a Terra do Oriente. Morreu a 15 de Agosto de 1666, com 75 anos de idade, em Pequim.
Vítor Teixeira
Universidade Fernando Pessoa

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