Padre Francisco Pérez: “construtor” da primeira residência jesuíta em Macau

MISSÃO: DIOCESE DE MACAU – 450 ANOS DE HISTÓRIA – 10

Padre Francisco Pérez: “construtor” da primeira residência jesuíta em Macau

O padre Francisco Pérez (1514-1583), jesuíta espanhol, nascido na Extremadura, desempenhou um papel fundamental no estabelecimento da presença da Companhia de Jesus em Macau durante a segunda metade do Século XVI. A sua trajectória insere-se no contexto da expansão missionária portuguesa no Oriente, num período em que Macau emergia como o ponto de encontro e porta de entrada para a China e o Japão.

Francisco Pérez nasceu por volta de 1514, em Villanueva de Barcarrota, na diocese de Badajoz, na Extremadura espanhola. Já ordenado sacerdote, chegou ao colégio da Companhia de Jesus em Coimbra, no início de 1544, demonstrando desde cedo a sua vocação missionária. Dois anos depois, a 8 de Abril de 1546, partiu na nau “Flor del Mar” rumo às missões jesuítas na Ásia, iniciando uma longa jornada que o levaria primeiro a Goa e depois a Malaca, onde ajudou a erguer a residência jesuíta.

Após a morte de São Francisco Xavier (3 Dezembro de 1552), o padre Pérez tornou-se superior das missões da Companhia na Índia Oriental. A 7 de Julho de 1563, partiu para Macau integrado na chamada “embaixada” de Gil de Góis à China, uma iniciativa promovida pelo vice-rei português do Estado da Índia, D. Francisco Coutinho, terceiro Conde do Redondo. Esta missão, tanto política como religiosa, viria a frustrar-se em Cantão, mas foi precisamente nesse contexto que Pérez encontrou o seu verdadeiro campo de acção em Macau.

Chegado ao território em 1563, Francisco Pérez não perdeu tempo. O seu primeiro grande feito foi a fundação da primeira residência jesuíta na China, em 1565, tendo a construção estado a cargo dele e do seu companheiro português, o padre Manuel Teixeira. Esta residência localizava-se perto da primitiva igreja de madeira dedicada a Santo António, que serviria de primeiro auditório religioso aos sacerdotes jesuítas.

Inicialmente, Pérez e os seus dois companheiros – o padre Manuel Teixeira e o irmão André Pinto – “pousaram” na casa de Pedro Quintero, um veterano soldado castelhano que havia participado na expedição de Ruy López de Villalobos às Filipinas em 1543, e que se estabelecera em Macau como comerciante. Foi precisamente numa carta escrita em casa de Pedro Quintero, a 7 de Janeiro de 1564, que o padre Pérez descreveu as primeiras impressões sobre Macau, referindo que “neste porto há muita gente nossa. Dizem que se ajuntaram aqui seis ou setecentos portugueses, fora outra muita gente cristã misturada, como servidores e jurubaças, que são homens que sabem a nossa língua e a da China, donde são naturais”.

Homem perspicaz e cuidadoso, Pérez percebeu rapidamente as dificuldades da empreitada diplomática. Em Novembro de 1565, quando visitou Cantão, ficou a saber que os dois pedidos que tinha enviado em Português e Chinês às autoridades provinciais haviam sido totalmente rejeitados, não autorizando a circulação de estrangeiros – muito menos missionários – no Império. Nas negociações, observou que os mandarins chineses esperavam “peitas, porque já a coisa está em quanto me darás”. A missiva que escreveu revela o inevitável falhanço da “embaixada”, bem como a distância cultural entre as duas partes. O jesuíta registou, por exemplo, a visita de um alto mandarim que, recebido com aparato, exigiu ver as peças do presente da embaixada na igreja. Este mandarim admirou-se das imagens sagradas, “foi-se direito ao altar maior e olhou a imagem de Nosso Senhor crucificado e de Nossa Senhora e perguntou o que era aquilo”. Apesar das aparências, Pérez concluiu que o Rei de Portugal teria “muito trabalho” e “algumas despesas” para abrilhantar os presentes ao Imperador da China, mencionando até a possibilidade de serem necessários “dois alifantes”.

Até à sua saída definitiva de Macau, em 1568, o missionário escreveu abundantemente para membros da Companhia na Ásia e na Europa, produzindo um acervo documental que está em grande parte por recuperar. O jesuíta faleceu a 12 de Fevereiro de 1583 em Negapatão, na costa do Coromandel, deixando um legado significativo como pioneiro da presença jesuíta na China. Apesar do fracasso da missão diplomática, a verdadeira conquista de Francisco Pérez foi – como já referimos – o estabelecimento da primeira residência jesuíta em Macau, que se tornaria a base para a acção missionária da Companhia no Extremo Oriente. Esta residência evoluiu posteriormente para o Colégio de São Paulo, que viria a constituir a primeira Universidade ocidental no Oriente, formando gerações de missionários para a China e o Japão.

O padre Francisco Pérez representa a figura do missionário-pioneiro do Século XVI, capaz de aliar o zelo religioso à perspicácia diplomática e à capacidade de organização. Embora as expectativas de converter a China se tenham frustrado, a sua acção em Macau criou as condições institucionais e logísticas que permitiram a missionários posteriores, como Mateus Ricci, retomar o desafio da evangelização do Império do Meio com métodos mais adaptados à realidade cultural chinesa. Pérez foi, assim, não apenas o fundador da primeira casa jesuíta na China, mas também um precursor da estratégia de aculturação que viria a caracterizar a missão jesuíta no Oriente.

Vítor Teixeira

Universidade Fernando Pessoa

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