«Sem os cantores, o maestro de um coro nada pode fazer»
Pianista-prodígio, soprano e regente coral, Vivian Ng Wai Hang é uma figura emergente no panorama da Música Sacra e Erudita de Macau. Vencedora do Grande Prémio do Instituto Cultural na 33.ª edição do Concurso para Jovens Músicos de Macau, a agora maestrina licenciou-se em Música pela Universidade de Oxford, onde descobriu os encantos da Música Coral. Com um Mestrado em regência coral pela Universidade norte-americana de Notre Dame, fundou o Cantate Chorus depois de ter regressado a Macau. O grupo actua amanhã na Sé Catedral, onde vai executar a estreia mundial de “As Bem-aventuranças”, do compositor local Kim Kwok-Ip. O CLARIM entrevistou Vivian Ng esta semana.
O CLARIM – O Cantate Chorus actua amanhã no Concerto de Música Sacra com que a diocese de Macau assinala o seu 450.º aniversário. Trata-se da segunda apresentação pública do grupo…
VIVIAN NG – Em bom rigor, não! Fiz os meus estudos de Mestrado nos Estados Unidos. O curso, de dois anos, começou no Outono de 2023 e quando regressei a Macau, no Verão seguinte, cheguei com a ideia de desenvolver um projecto com o qual me pudesse divertir, mas também aplicar o que tinha aprendido no meu primeiro ano de estudos. Tentei perceber se havia alguém com interesse em canto. Em Macau, como bem sabe, já existem vários coros: o Coro Perosi, o “Dolce Voce”. Mas, como dizia, o que eu queria mesmo era divertir-me, colocar em prática o que já havia apreendido e, de certa forma, testar as águas. Como estudante, era para mim uma boa oportunidade. Não perdia nada por tentar desenvolver um projecto durante o Verão e tentei perceber se havia interesse. Recrutar vozes para que cantem num coro não é propriamente fácil, mas consegui juntar um grupo de pessoas. Ensaiámos durante seis ou sete semanas e promovemos um concerto na capela da Universidade de São José. Foi uma iniciativa pontual, até porque na altura ainda não sabia se iria regressar a Macau depois de terminar os meus estudos. No final do Verão, regressei aos Estados Unidos para o segundo ano de Mestrado e quando voltei de vez a Macau, a primeira coisa que me ocorreu foi que podia transformar esse projecto em algo mais duradouro. Tecnicamente, é aí que o Cantate Chorus tem as suas raízes, ainda que na época eu não soubesse o que me reservava o futuro. Depois de concluir o Mestrado, decidi transformar esta iniciativa pontual num projecto a longo prazo. É agora um coro comunitário e espero que se venha a consolidar à medida que o tempo passa.
CL – Dizia que não é fácil encontrar quem esteja disponível para cantar. Sendo ainda bastante jovem, que desafios teve de enfrentar para dar forma ao Cantate Chorus?
V.N. – Foi um processo muito desafiante, sobretudo se tivermos em conta de que já há vários coros em Macau. As pessoas que querem ou gostam de cantar é provável que já façam parte de um dos outros coros. Estava, ainda assim, convicta que talvez ainda houvesse pessoas em Macau que tivessem interesse em canto coral, mas por uma ou outra razão nunca se juntaram a um coro. Foram essas as pessoas que, em grande medida, procurei atrair para o projecto: pessoas que gostam de Música Clássica, mas nunca cantaram num coro ou que faziam parte do coro da escola, mas que nunca mais voltaram a cantar desde que terminaram os estudos. O meu principal objectivo era o de lhes proporcionar essa oportunidade. Para um regente coral, o aspecto mais importante é sempre as vozes que trabalham com ele. Sem os cantores, o maestro de um coro nada pode fazer. Ao contrário do que acontece, por exemplo, com um pianista, um maestro necessita dos cantores. Um pianista pode perfeitamente tocar sozinho. No caso de um regente coral, sem os cantores, ele não é nada. Recrutar vozes é um dos aspectos mais desafiantes de um projecto como este, mas também é um dos mais cruciais.
CL – Quantas pessoas fazem parte do Cantate Chorus neste momento? E que tipo de pessoas são?
V.N. – Neste momento temos cerca de trinta membros que marcam regularmente presença nos ensaios. São pessoas das mais variadas origens. Entre os nossos membros estão professores, pessoas que fazem trabalho administrativo e funcionários de escritório, mas também estudantes. Temos estudantes universitários e um ou outro aluno do Ensino Secundário. Todo o tipo de pessoas, como lhe dizia. Alguns dos nossos membros, por exemplo, já estão perto da idade da reforma. O meu objectivo sempre foi o de tornar o grupo o mais inclusivo e o mais acessível possível, ainda que pugnando por um padrão de qualidade elevado.
CL – A que obras vai o Cantate Chorus dar vida no concerto deste sábado?
V.N. – O concerto comemora o 450.º aniversário da fundação da diocese de Macau e, como tal, será um concerto de Música Sacra. O organizador deixou esse aspecto desde logo muito claro, o que constitui para nós uma oportunidade para apresentar o nosso repertório de Música Clássica. Vamos apresentar quatro peças. A primeira é um trabalho chamado “As Últimas Palavras de David”, que tem por base um texto bíblico e foi composta por Randall Thompson, um compositor americano do Século XX. É uma peça de que gosto muito. Tem uma grande abertura, uma cadência muito divertida e parece-me que constitui um bom início para a nossa apresentação. Cada coro actua apenas durante quinze minutos e é com Randal Thompson que vamos começar. Tento sempre preparar as nossas intervenções tendo por base um repertório muito variado, para que a experiência que o público tem da Música Coral seja o mais alargado possível. Depois vamos dar voz à estreia mundial de uma obra de Kim-Kwok Ip. Trata-se de um compositor local e a obra também tem por base um texto bíblico, “As Bem-aventuranças”. Vamos ter a honra de executar a estreia mundial dessa obra neste concerto. A terceira composição a que vamos dar voz é da autoria de Gabriel Fauré, compositor francês do Século XIX. Um dos seus trabalhos mais famosos chama-se “Cântico de Jean Racine”. Trata-se de uma obra-prima do repertório coral. Fechamos a nossa intervenção com o “Pai Nosso”, de Doming Lam. São estas as obras a que vamos dar voz no sábado: duas de compositores que são de Macau ou estão relacionados com Macau, como é o caso de Kim-Kwok Ip e Doming Lam, e duas obras do repertório internacional, da autoria de Gabriel Fauré e de Randall Thompson.
Marco Carvalho
Photo: Alexandre Chon

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