«Queremos transformar cada pessoa num agente de mudança positiva na comunidade»
A partir do próximo ano lectivo, o “serviço à comunidade” vai passar a integrar o currículo dos cursos ministrados na Universidade de São José. Adoptada por dezenas de instituições de Ensino Superior um pouco por todo o mundo, a metodologia conhecida por “service learning” – “aprendizagem em serviço”, em Português – quer oferecer aos alunos a oportunidade de servirem as necessidades da comunidade logo a partir do primeiro ano. A USJ conta com o apoio da Uniservitate para implementar a nova abordagem pedagógica. Vítor Teixeira, professor assistente do Departamento de Psicologia da Faculdade de Ciências da Saúde da USJ, explica o que vai mudar, em entrevista a’O CLARIM.
O CLARIM – O que é exactamente a Uniservitate? Em termos concretos, o que implica o projecto de colaboração entre a Universidade de São José e esta organização?
VÍTOR TEIXEIRA – A Uniservitate é uma associação de Universidades Católicas que têm a “aprendizagem em serviço”, em Inglês: “service learning”, como metodologia de ensino. Não sei se “aprendizagem em serviço” é a melhor tradução, mas é a única que me ocorre. É, portanto, uma associação de Universidades Católicas que tem a “aprendizagem em serviço” enquanto metodologia de ensino e de aprendizagem. Não se trata apenas de fazer estágios. Esta metodologia integra o “serviço à comunidade” nas diferentes disciplinas dos cursos de Ensino Superior. A ideia é que nas diferentes disciplinas, dos diferentes cursos, os alunos tenham a oportunidade de, logo a partir do primeiro ano da Faculdade, ajudar e servir as necessidades da comunidade. A Uniservitate surgiu na América Latina, por iniciativa de algumas Universidades locais, e foi-se expandindo pelo mundo inteiro. A Universidade de São José juntou-se à Uniservitate no ano passado e fazemos parte do “hub” do Sudeste Asiático, cuja sede se encontra nas Filipinas.
CL – O que é que esta perspectiva de “service learning” pode trazer novo àquilo que é a dinâmica das Universidades?
V.T. – Uma das discussões mais habituais no Ensino Superior é a que diz respeito à distância entre o que é ensinado nas Universidades e o que acontece no mundo real. Normalmente, é através dos estágios que se tenta colmatar isso. A “aprendizagem em serviço” permite que os alunos comecem a lidar com essa responsabilidade muito mais cedo e, portanto, a colmatar essa lacuna. É uma metodologia que inclui também investigação. Mesmo nas disciplinas de investigação, o que vamos tentar fazer é que os alunos façam investigação que já esteja relacionada com necessidades da Universidade e não em termos teóricos ou metafísicos que não interessam a ninguém. O mais importante, do meu ponto de vista, é o valor transformativo que esta abordagem pode ter nos alunos: o incutir em cada um uma lógica de serviço, numa altura em que sentimos que as pessoas estão mais isoladas, mais fechadas em si. Se calhar, as próprias redes sociais contribuem para que as pessoas estejam mais fechadas nas suas bolhas. Isto faz com que cada aluno sinta que faz a diferença e que pode fazer a diferença. Portanto, esta lógica de transformar cada pessoa num agente de mudança positiva na comunidade, acho que é, para nós, enquanto Universidade Católica, o aspecto mais importante.
CL – Este modelo pedagógico já começou a ser implementado na Universidade de São José de alguma forma? Se sim, através de que tipo de procedimentos?
V.T. – A Universidade de São José tem uma tradição muito grande de ligação com a comunidade. Por exemplo, a nossa relação com a Cáritas de Macau é um bom exemplo, que eu costumo dar sempre. Mas temos tido outros bons exemplos: ao nível dos estágios, da investigação, de projectos de voluntariado, e mesmo de algumas experiências pontuais em que professores vão fazer algo para ajudar a comunidade. Nos dois últimos anos, tive uma disciplina chamada Psicologia Positiva, em que tive os meus alunos no âmbito dessa disciplina a fazer “workshops” e actividades para os alunos da Escola São João de Brito, com o propósito de os ajudar a desenvolver alguns aspectos de desenvolvimento psico-social. Temos vindo a desenvolver experiências de ligação com a comunidade e temos tido experiências pontuais de “aprendizagem em serviço”. O que estamos agora a fazer é a institucionalizar a “aprendizagem em serviço”. Na Universidade, a partir deste ano, vamos tentar fazer com que a “aprendizagem em serviço” faça parte de todos os programas. Espero que, daqui a dois anos, todos os nossos alunos possam ter, pelo menos, uma experiência de “aprendizagem em serviço” durante a sua formação.
CL – Dizia que o objectivo é institucionalizar esta prática do “service learning”. Vai passar a fazer parte dos currículos na Universidade de São José já a partir do próximo ano?
V.T. – A Universidade de São José dinamiza esta quinta-feira [hoje, 18 de Junho] uma formação para todos os funcionários académicos da nossa Universidade, para explicar o que é o “service learning”. Alguns colaboradores do “hub” asiático da Uniservitate estão em Macau para dar formação e fizemos já o convite para que os colegas se juntem a nós e comecem a lançar iniciativas neste âmbito a partir do próximo ano. Vamos ter disciplinas específicas com “service learning” incluído. Esperamos que daqui a dois anos trinta por cento dos nossos alunos, em vários cursos, tenham a oportunidade de desenvolver, no mínimo, uma experiência de “service learning”.
CL – Vai haver um período de experimentação, digamos assim? Um período piloto? Ou não?
V.T. – Sim. Esperamos no próximo ano ter pelo menos três projectos em funcionamento. Vamos ter uma equipa de coordenação na Universidade, coordenada por mim, que terá como principal função apoiar os colegas; e vamos tentar que estes três primeiros projectos sejam o início, como exemplos de boas práticas, que possam começar a expandir-se mais nos anos seguintes. Este primeiro ano é, de facto, um ano-piloto, para que depois as coisas se possam expandir. Vamos ter uma outra iniciativa em Agosto, que pode ser interessante referir, até porque vai ser uma experiência rica. Vamos receber uma convenção da Uniservitate da Ásia, nos dias 3 e 4 de Agosto. Vamos ter um encontro de projectos de “aprendizagem em serviço” da Ásia que vai trazer a Macau professores e alunos de Taiwan, das Filipinas e de outros países da Ásia que vêm a Macau partilhar as experiências da “aprendizagem em serviço”. A Uniservitate, de dois em dois anos, distingue os melhores projectos de “aprendizagem em serviço”. Este ano escolheram-nos para vir fazer uma partilha de experiências e para atribuir os prémios.
Marco Carvalho

Follow