Da Academia para a prática, por um mundo melhor
As instalações da Universidade de São José acolhem, na primeira semana de Agosto, a cimeira regional da UNISERVITATE, organização que reúne instituições de matriz católica de todo o mundo e que pugna por uma mudança de paradigma na forma como as Universidades leccionam e se posicionam face às necessidades do meio onde se encontram inseridas. Para muitas das Universidades católicas do continente asiático, a “aprendizagem em serviço” já é uma realidade. Nascida e criada em Macau, a coordenadora do Programa de Capacitação da UNISERVITATE Ásia-Pacífico explica de que forma a abordagem pode ajudar a transformar o papel da Universidade. Romina Eloísa Abuan em entrevista a’O CLARIM.
O CLARIM – Do que falamos quando falamos de “aprendizagem em serviço”? E de que forma esta abordagem difere dos métodos tradicionais de Ensino adoptados pelas Universidades?
ROMINA ABUAN – A “aprendizagem em serviço” é em si mesma uma pedagogia revolucionária. É um método que há existe há bastante tempo, mas na nossa região, na Ásia, só recentemente começou a ganhar maior tracção. Parte do trabalho que a UNISERVITATE faz é, precisamente, promover a “aprendizagem em serviço” e encorajar as instituições de Ensino Superior católicas a adoptar e a colocar em prática a “aprendizagem em serviço”. O que faz com que este método seja diferente dos demais é o facto de que expõe os alunos às necessidades da comunidade. Todos sabemos que nas Universidades estamos, por vezes, barricados nas nossas próprias torres de marfim. A exposição à comunidade e a capacidade de olhar o mundo a partir de outra perspectiva, num ambiente em que os alunos estão a ser preparados, estão a ser disciplinados e estão a tentar resolver um problema, fazendo uso do que aprenderam, é algo que está no cerne daquilo que as Universidades deviam fazer. Por que razão aprendemos? Por que razão passamos anos na escola, se não for para ajudar a resolver problemas? Estudamos para trabalhar em prol de um mundo melhor. Para acrescentar um pouco mais de contexto, a UNISERVITATE é um programa global. É o braço internacional, digamos assim, do Centro Latino-americano de Aprendizagem e Serviço Solidário. É um programa que promove a “aprendizagem em serviço” um pouco por todo o mundo. A Universidade de La Salle, nas Filipinas, é onde está situado o centro regional para a Ásia e Oceânia. Parte da razão pela qual estamos em Macau é porque convidámos a Universidade de São José para se juntar a nós. A USJ respondeu ao nosso convite, tornou-se um dos membros desta plataforma regional e tem estado muito activa na promoção da “aprendizagem em serviço”. Vamos promover um evento em Macau, em Agosto, em parceria com a Universidade de São José.
CL – O quão divulgada está esta abordagem por entre as Universidades católicas das Filipinas? Já garantiu alguma visibilidade?
R.A. – Sim. Há muitas Universidades das Filipinas que já adoptaram ou estão a adoptar a “aprendizagem em serviço”. Na verdade, diria que há uma grande variedade no nível de institucionalização da “aprendizagem em serviço”. Há Universidades que estão agora a começar, que nos contactaram com o propósito de saberem mais sobre esta matéria e nos pediram ajuda para instituírem programas de treino, de forma a implementar a “aprendizagem em serviço”, o melhor que lhes for possível. Há outras Universidades em que a “aprendizagem em serviço” está já bastante institucionalizada e que são líderes nas Filipinas. No ano passado, a Associação Educacional Católica das Filipinas, que é uma associação que reúne todas as escolas, jardins de infância, colégios e Universidades católicas das Filipinas, contactou a UNISERVITATE, através da Universidade de La Salle, com o propósito de assinar uma parceria, tendo em vista a preparação e a capacitação das instituições. O trabalho que fazemos é bastante intenso e a adopção desta pedagogia já se começa a fazer notar. Começam também a verificar-se movimentações para preparar igualmente Universidades indianas, no encalço daquilo que temos vindo a fazer tanto nas Filipinas como em Macau.
CL – Em que áreas de actividade está a prática da “aprendizagem em serviço” a ser implementada?
R.A. – Olhando apenas para o que tem vindo a ser feito na Universidade de La Salle, o âmbito de aplicação é muito abrangente e muito variado. Geralmente depende da disciplina e daquilo que o curso possibilita. Exemplos notáveis são os que têm como alvo pessoas privadas de liberdade, que estão na prisão. Os alunos promovem cursos de capacitação profissional e de literacia financeira destinados a reclusos. Também trabalhamos com as comunidades vizinhas. A Universidade está situada numa área onde ainda persistem muitos problemas sociais. Dependendo das necessidades do próprio curso, os estudantes saem da Universidade no âmbito da “aprendizagem em serviço”. Por exemplo, no âmbito de um curso de Engenharia, é bem possível que os alunos se instalem durante algum tempo numa fábrica de café sem fins lucrativos. Durante a estadia, vão ensinar aos funcionários e aos responsáveis da empresa formas mais sustentáveis de promover o produto ou, eventualmente até ajudá-los a criar outros produtos. Se há uma necessidade que se faça sentir ou que tenha sido observada, a “aprendizagem em serviço” pode ajudar a responder a essa necessidade.
CL – Dizia que está, por esta altura, a trabalhar com Macau e a Universidade de São José, e que a UNISERVITATE também se está a preparar para trabalhar com instituições indianas. Fora das Filipinas, o quão difundido está este método nas Universidades católicas do continente asiático? Onde mais foi a perspectiva da “aprendizagem em serviço” implementada?
R.A. – A Universidade de La Salle é, como dizia, onde o polo regional para o continente asiático está situado. Trabalho para a Universidade de La Salle, mas estou actualmente baseada em Macau por razões familiares. Nasci e cresci em Macau e a minha família ainda por cá permanece. Mas voltando à UNISERVITATE, actualmente temos trinta membros na região da Ásia e da Oceânia. Há algumas instituições na Índia, dois dos nossos membros são de Taiwan, temos um par de associados também no Nepal e um membro na Austrália. Em termos gerais, repito, temos trinta membros. Destes trinta, há dez instituições com as quais estamos a trabalhar com maior proximidade. Trabalhamos de perto com eles com o propósito de institucionalizar a “aprendizagem em serviço”.
Marco Carvalho

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