«A inculturação da Arte Sacra com motivos chineses era inevitável»
Durante vinte breves, mas fulgurantes anos, a Universidade Católica Fu Jen foi o epicentro de um dos mais belos e significativos projectos de inculturação do Catolicismo na China moderna. Mais do que um mero exercício estético, os pintores que deram corpo à Ars Sacra Pekinensis, procuraram, de forma consciente, dar um rosto oriental a Jesus Cristo e tornar a Fé Católica culturalmente familiar e próxima do povo chinês. O impacto do movimento artístico na afirmação do Cristianismo na China esteve, na passada segunda-feira, em análise no Seminário de São José pela voz do padre Jerzy Skrabania, SVD. O sacerdote polaco, professor de História da Igreja na Universidade de Teologia Católica de Colónia (Alemanha) e antigo director da Casa dos Povos e Culturas da Sociedade do Verbo Divino, esteve à conversa com O CLARIM e explicou como a Ars Sacra Pekinensis contribuiu para a formação de uma Igreja “local” na China Continental.
O CLARIM – Padre Jerzy, o que é exactamente a Ars Sacra Pekinensis e por que razão é importante para a afirmação do Catolicismo na China? De que modo estes trabalhos artísticos contribuíram para que a população chinesa compreendesse melhor a mensagem de Jesus Cristo ou, pelo menos, se sentisse melhor com o Catolicismo?
PADRE JERZY SKRABANIA – Quando se prega o Cristianismo, quando a Boa Nova é levada a diferentes países, é sempre muito importante perceber como é que a mensagem de Jesus é aceite e é compreendida pelas pessoas. Quem é Jesus? O que fez Jesus? É importante perceber como é que estas questões são entendidas. Creio que não estarei errado quando afirmo que todos gostam de ver aspectos da sua própria cultura combinados com a mensagem de Jesus, com a vida de Jesus e com o sofrimento a que se submeteu. Foi deste modo que muitos de nós descobrimos a nossa fé, a nossa religiosidade e encontrámos o nosso caminho para Cristo e para a Igreja. Se eu estivesse na pele de quem é evangelizado, gostaria de ver uma representação de Jesus que fosse parecida comigo. É claro que Jesus nasceu na Palestina, pregou na Galileia e em Jerusalém, mas a sua mensagem tem um pendor universal. E esse pendor faz com que a religião católica não seja estanque: é abrangente, está enraizada em muitas culturas e é, por isso, universal.
CL – A arte – e neste caso em concreto a pintura – é uma boa forma de reforçar essa inculturação?
P.J.S. – Nada nos impede de adequar a mensagem de Jesus às culturas e aos contextos locais. Considero que a existência de pintores ou de artistas que estão dispostos a produzir obras de inspiração cristã é um dado bastante relevante, até porque indicia algo importante. Quando o Cristianismo está presente numa certa cultura e se começa a reflectir nos métodos e nas técnicas dessa cultura, é um sinal de que já está enraizado no coração das pessoas. Quando algo está enraizado é porque deixou de ser considerado estrangeiro ou “alienígena”. Não tenho qualquer dúvida de que houve inúmeros momentos em que o Catolicismo foi considerado como algo invasivo ou disruptor. Como não se tratava de uma religião chinesa, numa primeira fase o recurso à iconografia produzida em Itália ou em outros lugares era a norma. Quando vemos obras como as de Lukas Ch’en ou Wang Su Ta serem feitas na China, compreendemos que o Catolicismo estava enraizado e que já não era visto como algo estranho. Tornou-se a religião deles. É um aspecto muito importante que a arte cristã se tenha afirmado pela mão de artistas locais e tenha sido apresentada como foi. Como referi na conferência, muitos dos missionários europeus que assumiram a missão de disseminar o Evangelho pelo mundo estavam convictos que só a sua cultura interessava. Rejeitavam terminantemente tudo o que não se encaixasse com a sua cultura e com a forma como entendiam a espiritualidade. Foi um erro insistir nessa posição. O monsenhor Celso Constantini [primeiro Delegado Apostólico da Santa Sé na China] era muito inteligente. A inculturação da Arte Sacra com motivos chineses não só era inevitável, como também necessária.
CL – Um dos primeiros exemplos deste movimento de inculturação artística é a imagem de Nossa Senhora da China, que é representada com o traje da Imperatriz viúva, Cixi…
P.J.S. – Nossa Senhora da China foi retratada com o traje da Dinastia Ming. Não foi propriamente inspirada na Imperatriz Cixi. Nossa Senhora é a mãe de Deus e a ideia de a representar com o traje imperial é adoptada porque a família e a vida familiar sempre foram importantes na cultura chinesa. O que significa fomentar a vida familiar? O que é uma boa mãe? Que atitudes e características deve uma boa mãe ter? Que significado tem tudo isto para a Igreja? Foi escolhido o traje das imperatrizes da Dinastia Ming porque, em termos gerais, eram vistas como bons exemplos em termos de vida familiar: mulheres sinceras e boas mães, que tratavam bem dos seus filhos. O traje reflecte, de certo modo, essas características.
CL – Como é que estas obras foram aceites pelos católicos chineses? E como contribuíram para o trabalho de evangelização conduzido pelos missionários da Sociedade do Verbo Divino?
P.J.S. – Estas pinturas foram feitas há quase um século, entre o início da década de 1930 e o início da década de 1950. Depois deixaram de ser produzidas. Não temos muita informação sobre a forma como estas obras foram recebidas ou a influência que terão tido, mas tiveram, certamente, alguma influência. Todos os anos havia exposições, que atraiam sempre muitos interessados. O habitual é que todas as obras acabassem por ser vendidas. Temos provas de que era exactamente isso que acontecia. Por outro lado, as pinturas eram também reproduzidas, o que quer dizer que as pessoas gostavam delas. Não será, por isso, errado concluir que tiveram uma certa influência, não apenas em Pequim, mas também em outras regiões da China onde os missionários da Sociedade do Verbo Divino estavam presentes. Aliás, houve outros missionários, como os Beneditinos, que também adoptaram e impulsionaram este tipo de manifestação artística. Parece-me inegável que estas obram foram influentes, mas talvez nunca consigamos determinar exactamente o quão influentes foram. Aquilo que podemos afirmar com toda a certeza é que todos estes pintores demonstraram muito interesse no Cristianismo e acabaram por ser tornar católicos. Esta talvez seja uma outra perspectiva de olhar para a influência que este movimento teve. Por outro lado, o delegado apostólico que sucedeu a D. Celso Constantini também sentiu a necessidade de promover, na grande nação que é a China, a arte cristã com características chinesas.
Marco Carvalho

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