PADRE ANDRZEJ MIOTK, SVD, HISTORIADOR E ARQUIVISTA DA SOCIEDADE DO VERBO DIVINO

PADRE ANDRZEJ MIOTK, SVD, HISTORIADOR E ARQUIVISTA DA SOCIEDADE DO VERBO DIVINO

«Na evangelização da Ásia, Macau fez toda a diferença»

Doutorado em Missiologia pela Universidade de Sankt Augustin-Bonn, na Alemanha, o padre Andrzej Miotk, SVD, concluiu, em meados deste mês, um curso intensivo sobre a história das missões asiáticas. O missionário polaco, actual responsável pelo Arquivo da Sociedade do Verbo Divino, defende, com convicção, o papel essencial de Macau na difusão da mensagem de Cristo na Ásia. Porta de entrada dos missionários da Companhia de Jesus e de diversas ordens religiosas no Extremo Oriente desde o Século XVI, o território funcionou como plataforma estratégica, centro de formação e base de irradiação da Fé Cristã para a China, Japão, Coreia e Sudeste Asiático. O padre Andrzej Miotk, em entrevista a’O CLARIM.

O CLARIM – Esteve em Macau a leccionar um curso sobre a história das Missões na Ásia. Que balanço faz desta experiência?

PADRE ANDRZEJ MIOTK – Foi muito importante para mim, sem qualquer dúvida. Estava entusiasmado com a ideia de leccionar este curso depois de ter sido convidado. A proposta que trouxe foi a de um itinerário para descobrir a Ásia e as cristandades asiáticas. Quando cheguei a Macau para leccionar o curso, percebi que o tema despertava muito interesse. Em termos gerais, trouxe muitas expectativas e preparei-me de forma extensiva, mas a verdade é que é necessária sempre alguma adaptação ao grupo que se vai ensinar. Isto é por vezes desafiante. Ao mesmo tempo, foi para mim reconfortante descobrir que quem se inscreveu no curso estava verdadeiramente interessado nesta matéria. Alguns tópicos foram mais populares do que outros, mas a verdade é que os alunos colocaram muitas questões.

CL – Que tipo de tópicos? Que aspectos suscitaram mais interesse e mais curiosidade por parte dos alunos?

P.A.M. – Uma das questões que suscitaram mais debate durante o curso foi a forma como a Palavra de Deus foi pregada. Refiro-me à adaptação e ao método de inculturação que foi adoptado pelos jesuítas, principalmente na China, mas também na Índia e no Vietname. Até onde é lícito ir com este processo de inculturação sem que a essência da mensagem cristã seja distorcida? Esta foi uma das interrogações que mais discussão suscitaram e é, de facto, uma questão muito importante. Outro aspecto que foi também debatido por várias vezes ao longo do curso prende-se com o sucesso ou o insucesso das missões asiáticas. As missões asiáticas da Igreja Católica foram bem-sucedidas? Ou não? Mas houve muitas mais questões. Alguns dos alunos questionaram a importância dos mártires, até porque houve muitos missionários que deram a vida pela Fé Católica. As perseguições de que os católicos foram alvo em alguns destes países – como o Vietname e a Coreia – foram muito longas e violentas, mas ao mesmo tempo os missionários europeus estiveram praticamente ausentes destes lugares. E a verdade é que o Catolicismo ganhou verdadeiramente raízes nestes lugares, pelo que os resultados da perseguição foram surpreendentes. Apesar da perseguição, a presença e a Fé Cristã cresceram e enraizaram-se. Alguns dos estudantes que se inscreveram neste curso queriam perceber se o martírio a que muitos católicos foram sujeitos teve ou não significado.

CL – Mencionava a Coreia. A Península Coreana é um bom exemplo de um lugar onde a difusão do Catolicismo foi inicialmente muito mal recebida, mas agora, dois séculos depois, a mensagem de Cristo parece ganhar um novo enlevo. As sementes nunca deixaram de lá estar?

P.A.M. – Sim. A Coreia é um caso único, sem dúvida! No início, o que vingou não foi a mensagem cristã, num sentido mais puro, mas a percepção, por parte de alguns grupos de nobres coreanos, de que o Cristianismo teria valor enquanto sistema de pensamento que poderia servir o desígnio de reformar o País. Viam o Cristianismo como uma oportunidade partindo primeiro deste ponto de vista. Depois disso, o interesse que o Cristianismo lhes suscitou foi ao encontro da fé. A Palavra de Deus foi levada ao povo da Coreia a partir da China e, durante praticamente cem anos, os leigos foram o motor do desenvolvimento do Cristianismo na região. É por isso que dizia que a Coreia é um caso muito particular. A Coreia é um exemplo porque o Catolicismo foi abraçado de forma muito profunda pelos leigos. Um dos grandes desafios na Ásia é que temos de entender o Catolicismo como algo unificado, sem olhar para exemplos concretos. Os países que rodeiam a Ásia foram muito influenciados pela civilização chinesa e pelas suas ideias, pelo Confucionismo e pelo Taoísmo. Havia um enquadramento comum, mas também uma grande resistência contra o Cristianismo, sobretudo porque pressupunha uma maneira de pensar muito diferente. Alguns aspectos eram entendidos de forma inteiramente diferente e terão sido essas diferenças que levaram os missionários a desenvolver um método de inculturação. Começaram a mergulhar no mundo chinês e interrogar-se sobre de que forma seria possível compatibilizar Confucionismo e Cristianismo. Alguns chegaram ao ponto de defender que existe, no Confucionismo, uma predisposição para o Cristianismo.

CL – Que papel teve Macau neste processo? Sem o contributo de Macau, o impacto do processo de evangelização dos povos asiáticos teria sido o mesmo?

P.A.M. – Se olharmos para a História de Macau e para a sua relação com as missões, o exemplo de Macau é, sem qualquer dúvida, único. Sem Macau não teria havido os desenvolvimentos que se materializaram depois. Na evangelização da Ásia, Macau fez toda a diferença. Primeiro, porque funcionou como uma porta para a China. Entrar na China era o maior desejo dos jesuítas. Nesse sentido, era verdadeiramente o melhor sítio onde um missionário podia estar. Tinha uma ligação forte com a China, mas também com o Japão. As relações entre Macau e o Japão eram muito fortes, ao ponto de muitos dos católicos japoneses, que fugiram às perseguições, se terem refugiado em Macau. A importância de Macau tem, porém, mais níveis, mais estratos. Macau foi sempre uma base, uma estrutura que favoreceu a expansão das missões católicas. Era, à época, o maior centro de educação, preparação e formação dos missionários. Estudei as fontes existentes de forma muito detalhada e foram cerca de setecentos os missionários – a maior parte jesuítas – que concluíram a sua preparação em Macau. Destes, mais de quatrocentos nem sequer eram portugueses. Eram, se não estou em erro, de dezasseis países diferentes. Todos eles receberam a sua formação em Macau. Macau foi a base onde receberam a formação, mas ao mesmo tempo foi também um local de intercâmbio. Os diferentes missionários que aqui convergiram criaram uma dinâmica de intercâmbio que levou os jesuítas a fazer de Macau o local onde o método de inculturação foi aperfeiçoado e onde as missões com destino ao Japão e à China foram planificadas. A presença de estudantes, de seminaristas de diferentes países, também ajudou a desenvolver uma sensibilidade natural para o estudo das línguas. Eles necessitavam de aprender as línguas locais, até porque eram o instrumento, a chave para compreender a cultura. Matteo Ricci, Michele Ruggieri e Alessandro Valignano perceberam desde cedo o quão importante era dominar a língua para poder evangelizar.

Marco Carvalho

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