«A Igreja Católica conseguiu fazer com que Macau se afirmasse»
Nos corredores do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, O CLARIM cruzou-se com Jorge Rangel, presidente do Instituto Internacional de Macau. Numa breve entrevista, falou da importância da Igreja Católica no passado e presente do território, quando a diocese local celebra 450 anos, tendo aproveitado a ocasião para lançar um repto, no que respeita à promoção da RAEM: «Devíamos envolver mais as instituições da sociedade civil».
O CLARIM – A primeira acção da visita do Chefe do Executivo a Portugal foi a inauguração de uma exposição no Centro Científico e Cultural de Macau dedicada ao encontro das culturas ocidental e oriental (ver artigo publicado na página 3 desta edição). Como analisa a primazia dada por Sam Hou Fai à área cultural?
JORGE RANGEL – É muito importante que se continuem a desenvolver estas relações entre Macau e Portugal, na área cultural. Obviamente que estas exposições traduzem um grande interesse em manter viva a memória, o legado, aquilo que é o intercâmbio prolongado de culturas. Naturalmente, há a vontade de afirmar, em relação ao futuro – e esta é a grande preocupação hoje da RAEM –, aquilo que vem de trás e que ajudou a consolidar uma realidade extraordinária que é única, que é Macau.
CL – As exposições hoje inauguradas “Reflexos do Mar de Espelhos” e “Um Vislumbre da Cultura Chinesa” reconhecem o elemento religioso como parte integrante da História de Macau. Enquanto católico – e num ano em que a diocese de Macau celebra 450 anos – que sentimento lhe nutre este cuidado por parte dos curadores e das entidades organizadoras?
J.R. – Obviamente que neste contexto a diocese de Macau teve um papel importantíssimo ao longo da História. Aliás, foi mais importante do que qualquer outra instituição. Com solidez, capacidade e sentido de missão, a Igreja Católica conseguiu fazer com que Macau se afirmasse, tendo dado à sua população condições para manter o seu estilo de vida, as suas crenças e a sua liberdade. Independentemente dos regimes políticos, sempre assim foi, sobretudo graças à acção da Igreja, mas também aos governadores e a outras grandes entidades que passaram ou permanecem em Macau, como o Senado, a Misericórdia e outras instituições. Todas elas foram percebendo o que estava em jogo nas fases mais difíceis da vida de Macau. Hoje, ao olhar para trás – 26 anos depois da RAEM ter sido criada –, vale a pena ver que mesmo podendo nós discordar de alguns caminhos seguidos ou de algumas decisões tomadas, todas aconteceram por circunstâncias da História. É verdade que as coisas não são imutáveis, que tudo vai mudando. Mas o essencial permanece, o essencial fica!
CL – Ao olharmos para as entidades envolvidas na organização destas exposições, verificamos que são muitas as instituições que se quiseram associar, tanto da esfera pública como privada…
J.R. – É de registar o esforço do Instituto Cultural, desenvolvido com o apoio do Chefe do Executivo e de outras instituições de Macau. Contudo, penso que a sociedade civil devia ser mais interventiva, devia estar mais envolvida neste tipo de iniciativas culturais. Se não está, não é por culpa dela! Muitas vezes, as instituições lideradas pelo Governo, devido à sua grandeza de meios, acabam por desmotivar a iniciativa privada em projectos como estes. Defendo que devíamos envolver mais as instituições da sociedade civil. Macau tem na sociedade civil uma das suas maiores riquezas. Macau conta com instituições muito antigas, havendo no entanto outras mais recentes, com um dinamismo muito grande, com uma grande capacidade de continuar a dar a Macau – à Macau de sempre – condições para continuar a marcar a sua diferença e a sua identidade. Sendo eu de Macau e tendo a minha família em Macau há cerca de trezentos e tal anos, acredito que o futuro que está a ser construído – às vezes com bastante pressa – dará resposta às questões essenciais. Como sempre digo, não vale a pena andar depressa de mais. Lá chegaremos! Os grandes objectivos estão fixados, mas é preciso perceber que há sempre um tempo para cada coisa. Não devemos andar depressa, pois o futuro só pode ser construído se as instituições continuarem vivas e se estas realizações continuarem também a traduzir aquilo que é o sentimento das pessoas de Macau e das suas instituições.
José Miguel Encarnação em Portugal
PHOTO CREDITS: António Sanmarful

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