J.J. WRIGHT, VENCEDOR DE UM GRAMMY, COMPOSITOR E DIRECTOR MUSICAL DO NOTRE DAME FOLK CHOIR, TRAZ “DRAWN BACK TO THE TABLE” A MACAU

J.J. WRIGHT, VENCEDOR DE UM GRAMMY, COMPOSITOR E DIRECTOR MUSICAL DO NOTRE DAME FOLK CHOIR, TRAZ “DRAWN BACK TO THE TABLE” A MACAU

«Convocados a regressar a Cristo, que nunca nos abandonou»

É um dos mais renomados coros universitários dos Estados Unidos e vai actuar em Macau este Domingo, 24 de Maio. O Notre Dame Folk Choir – o principal coral litúrgico da Universidade de Notre Dame – incluiu a RAEM na sua digressão asiática e vai apresentar no Auditório Centenário de Fátima, nas instalações da Universidade de São José, o drama musical “Drawn Back to the Table”. A obra, que tem como ponto de partida o Mistério da Paixão e Ressurreição de Cristo, aborda as realidades mais profundas da condição humana. Vencedor de um Grammy em 2008, J.J. Wright – compositor e director musical do Notre Dame Folk Choir –, em entrevista a’O CLARIM.

O CLARIM – Que expectativas traz o Notre Dame Folk Choir para este espectáculo em Macau, no ano em que a diocese de Macau comemora 450 anos?

J.J. WRIGHT – Estou profundamente grato pela oportunidade de poder trazer “Drawn Back to the Table” até Macau e, em particular, por poder partilhar este projecto num local onde o Catolicismo tem uma história tão profunda. A diocese de Macau testemunhou, durante séculos, a disseminação do Evangelho e é para nós muito enriquecedor podermos fazer, ainda que brevemente, parte dessa história, através da partilha de música e de oração. Espero que o desempenho possa assemelhar-se mais a uma contemplação partilhada do Mistério Pascal do que propriamente a um concerto que é oferecido a uma audiência. A Paixão e a Ressurreição pertencem a todos os que integram a comunidade cristã porque se reportam às realidades mais profundas da condição humana: o sofrimento, a traição, a dor, a coragem, a misericórdia, o perdão e a esperança. Descobrimos que os jovens, em particular, se revêm nestas histórias. Sabem o que significa sentirem-se inseguros, feridos e à deriva. Almejam acreditar que o amor pode mais do que a morte. Em Macau, espero que este musical se possa coadunar com o riquíssimo legado da Igreja local e possa inspirar a fé das pessoas que vão estar connosco a 24 de Maio. O nosso coro vem a Macau não só para oferecer algo, mas também para receber algo em troca da Igreja local: aprender com a sua história, a sua perseverança e o seu testemunho.

CL – É a primeira vez que o Notre Dame Folk Choir actua nesta região do planeta? Que ensinamentos espera que os católicos de Macau possam retirar do espectáculo?

J.J.W. – Sim, esta é a primeira peregrinação do Folk Choir a Macau e a nossa primeira digressão nesta parte da Ásia. Este aspecto faz com que esta visita seja particularmente significativa para nós. O coro tem uma longa história de missão e serviço, tanto nos Estados Unidos como a nível internacional, mas este périplo por Taiwan, Macau, Hong Kong e Singapura constitui um novo capítulo no nosso esforço de reforçar as relações com a Igreja universal através da música e da oração. Aquilo que espero que a comunidade católica local possa retirar de “Drawn Back to the Table” é a percepção de que o Evangelho não é uma qualquer história de um passado distante. A Paixão e a Ressurreição continuam a desdobrar-se e a ter impacto na vida das pessoas e das comunidades. Este musical convida o público a olhar com outros olhos para as suas próprias dificuldades, esperanças e interrogações, a vê-las reflectidas nos encontros que os discípulos mantiveram com Jesus e, em última instância, a reconhecer o convite de Cristo para regressar à mesa da misericórdia, da amizade e da comunhão. O próprio título do musical aponta nesse sentido. Estais sempre a ser convocados, a ser chamados de volta: a ser convocados para trocarmos o isolamento pela comunidade, o desespero pela esperança, o fracasso pelo perdão. Convocados a regressar a Cristo, que nunca nos abandonou.

CL – Quão importante tem sido levar a mensagem de Cristo, através da Música Sacra, a diferentes partes do mundo?

J.J.W. – É extremamente importante. Mas devo dizer que não olhamos para o que fazemos apenas como levar a Música Sacra a outras partes do mundo. Na nossa perspectiva, estamos a construir um intercâmbio mútuo com a Igreja universal. A tradição católica é universal não por ser uniforme, mas por ser suficientemente abrangente para criar raízes em muitas culturas, em muitas línguas e em muitas experiências e, ao mesmo tempo, permanecer centrada em Cristo. A abordagem ao ministério da Igreja que é feita pelo Folk Choir sempre esteve enraizada nas preces cantadas. Cantamos todas as semanas durante a Missa na Basílica do Sagrado Coração, em Notre Dame, e este quotidiano litúrgico molda tudo aquilo que fazemos. Ao mesmo tempo, o nosso coro sempre foi buscar inspiração a um vasto panorama musical: ao repertório católico, ao canto, às tradições folclóricas, à música sacra contemporânea, ao jazz e a uma certa linguagem musical inspirada pelo gospel. Juntámos tudo e colocamos ao serviço da oração. Partilhar música sacra em Macau suplanta em muito a perspectiva da apresentação cultural. É um acto de amizade eclesiástica. Procura dizer que pertencemos uns aos outros em Cristo, que temos razões para cantar juntos e as nossas diferenças, mais do que diminuir, aprofundam essa comunhão.

CL – O que inspirou a criação de “Drawn Back to the Table”? Foi meramente o relato bíblico da Paixão de Cristo ou houve algum momento ou experiência pessoal que motivou a criação deste drama musical?

J.J.W. – Este projecto desenvolveu-se ao longo de vários anos, tendo por base um projecto mais antigo centrado na Paixão de Cristo. A inspiração inicial teve origem no desejo de criar um espaço artístico sagrado onde os jovens se possam debater, num clima de honestidade, com o sofrimento, a traição e as feridas com que a Igreja e o próprio mundo se deparam. Inicialmente, estávamos particularmente interessados numa reflexão sobre a crise dos abusos sexuais no seio da Igreja através da lente das narrativas da Paixão. Perguntamos a nós mesmos: como é que os jovens católicos podem permanecer numa relação com Cristo e com a Igreja, ao mesmo tempo que falam com honestidade sobre dor, sobre raiva e sobre a confiança perdida? À medida que o trabalho se foi desenvolvendo, em particular durante a pandemia de Covid-19 e as convulsões sociais de 2020, a Paixão tornou-se para nós uma infraestrutura mais vasta a partir da qual procuramos abordar diferentes formas de sofrimento: o isolamento, a injustiça racial, a ansiedade ecológica, a degradação da saúde mental e a experiência de um mundo que, por vezes, parece estilhaçado. Eventualmente, acabámos por perceber que a narrativa da Paixão permanece incompleta sem a Ressurreição. Essa percepção acabou por conduzir à criação das cenas sobre a Ressurreição que agora constituem a segunda parte de “Drawn Back to the Table”. A obra transformou-se não apenas numa meditação sobre o sofrimento, mas uma proclamação de que Cristo acolhe o sofrimento com misericórdia, com regeneração e com uma nova vida.

Marco Carvalho

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *